Ainda sem chegar à Câmara, vereadores sinalizam que podem votar contra novo subsídio ao Valeriodoce

Foto: Jessica Estefani/
Ascom/CMI

Com a arrecadação em queda e prioridades na saúde e assistência social, até a base do prefeito resiste a novo repasse ao clube criado pela Vale, que já recebeu R$ 3,5 milhões da Prefeitura nos últimos anos sem resultados esportivos

Carlos Cruz

Não vai ser fácil para o prefeito Marco Antônio Lage (PSB), caso decida enviar projeto à Câmara, aprovar novo subsídio financeiro ao Valeriodoce Esporte Clube (VEC) para disputar o módulo II do Mineiro.

É que o Dragão itabirano, que há muito deixou de soltar fogo em campo, volta a dividir opiniões – e novo subsidio ao futebol profissional pode enfrentar resistência legislativa até na própria base aliada.

A sessão legislativa dessa terça-feira (14) deixou claro que o apoio dos vereadores situacionistas já não é garantido.

Sinal de que a quase unanimidade burra no Legislativo itabirano começa a se desfazer, abrindo espaço para divergências e questionamentos sobre o uso de dinheiro público no futebol profissional.

O vereador Rodrigo “Diguerê” Assis Silva (MDB) abriu o debate, lembrando sua ligação pessoal com o clube.

“Eu fui atleta do Valério, considero o clube um patrimônio da nossa cidade”, disse. Para ele, o Valério tem relevância cultural e social, mas o debate precisa ser feito com responsabilidade.

Diguerê cobrou do Executivo mais organização e transparência. “Não é recurso da Câmara, é do Executivo. Cabe a nós votar, mas o prefeito precisa organizar o orçamento e mandar (o projeto de novo convênio) em tempo hábil”, afirmou.

Apesar da defesa do clube, o vereador situacionista reconheceu que há outras prioridades.

“Se a gente tiver recurso suficiente aplicado para melhorar a saúde, a educação e a segurança pública, essas são prioritárias, posso até votar favoravelmente, mas o esporte vem depois”, declarou, condicionando assim o seu eventual apoio a novo subsídio ao time profissional do Valério.

Ele reconheceu – e aprovou – os esforços internos do Valério em melhoria de sua infraestrutura, como também com a reativação do sócio-torcedor e a abertura de escolinhas de futebol.

Mas ponderou: “É um começo, não resolve. O time do Valério precisa se sustentar com apoio privado, sem depender da Prefeitura.”

Prioridades mudaram, disse líder do governo

O vereador Bernardo Rosa (PSB), líder do governo na Câmara, foi ainda mais incisivo.

“Todos os anos votei favorável ao repasse, mas este ano é diferente. A arrecadação da Prefeitura caiu R$ 80 milhões. Temos o Lar de Ozanam ameaçado de fechar, a APAE pedindo dinheiro. A saúde não está bem. É hora de rever prioridades.”

Rosa acentuou que frequenta o Valério e reconhece sua tradição, mas deixou claro que o momento exige escolhas duras.

“Adoro o Valério, já treinei lá. É tradição, mas temos prioridades na nossa cidade. Este ano vou rever minha posição”, antecipou, sinalizando que não dará apoio automático.

O vereador Cidnei “Didi do Caldo de Cana” Camilo Rabelo (PL) reforçou o discurso do líder do governo.

“Votei favorável na última vez, mas agora também tenho que rever. Nada contra o Valério, mas a situação financeira pesa”, disse ele, deixando claro que o seu posicionamento também considera a crise fiscal na Prefeitura.

Cobrança por transparência

O oposicionista vereador Luiz Carlos “de Ipoema” de Souza (MDB) foi categórico e endureceu o tom.

“Sou totalmente contra. Até hoje o Valério não prestou contas dos repasses. É dinheiro público. Há ações do Ministério Público apurando essa questão. Antes de qualquer novo pedido, tem que prestar contas”, afirmou, taxativo.

Ele ainda lembrou que o papel da Câmara não é apenas votar projetos, mas fiscalizar o uso do dinheiro público. “Isso é um dos papéis nossos também, de vereador. Fiscalizar. Não dá para aprovar novo repasse sem transparência”, concluiu.

Dinheiro público, pouco futebol

Desde 2022, a Prefeitura já repassou cerca de R$ 3,5 milhões ao Valério. O dinheiro bancou a participação no Módulo II, mas os resultados foram sucessivos fracassos. O time foi formado com atletas reservas de outros clubes da segunda e até terceira divisão – e não conseguiu se firmar.

A insistência em novos repasses gera desconforto político. Vereadores da base reconhecem a tradição do clube, mas questionam se faz sentido destinar recursos municipais em meio ao déficit fiscal enfrentado desde o ano passado pela prefeitura.

Vereadores cobram transparência e prestação de contas, lembrando que o clube sequer apresentou relatórios detalhados sobre o uso do dinheiro público que, nos anos anteriores, recebeu da Prefeitura de Itabira.

Da glória ao declínio
Fachada do Estádio Israel Pinheiro já ostenta patrocínio privado, mas ainda é pouco. Falta o da Vale, que deu nome ao clube e ao estádio (Foto: Carlos Cruz)

Fundado em 1942 pela então estatal Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), o Valério carrega no nome a marca da mineradora. Viveu momentos de glória, disputou a elite do futebol mineiro até 2003, tendo em uma das últimas partidas derrotado o Cruzeiro por 1 a 0 no Mineirão.

Após a privatização da Vale, perdeu apoio e entrou em declínio. Tentativas de revitalização, como o projeto Romarinho em 2000, não prosperaram.

A Vale privatizada chegou a patrocinar até a torcida, pagando ingressos para os jogos, mas o futebol profissional do Valério definhou.

Sem o respaldo da mineradora, o Valério ficou fora até mesmo das divisões intermediárias por longos períodos.

Romário esteve diversas vezes em Itabira no início deste século, como parte dos últimos apoios da Vale para “salvar” o Valério (Foto: Taquinho/Vale Notícias)
Comparações que pesam

O caso de a Prefeitura de Itabira subsidiar o futebol profissional do Valério é uma exceção em Minas Gerais. Nenhuma prefeitura repassa dinheiro diretamente a clubes profissionais.

O Athletic Club (São João del-Rei) virou SAF em 2021, após receber investimento privado do grupo Futbraz.

Cresceu dentro e fora de campo, conquistou títulos do interior e chegou ao Módulo I do Campeonato Mineiro, mas em 2026 foi rebaixado para o Módulo II.

Disputa também competições nacionais, como a Série B do Brasileirão e a Copa do Brasil. O apoio público se restringe a logística e uso de espaços, sem subsidio municipal.

O Democrata-GV (Governador Valadares), a tradicional Pantera, é sustentado por patrocínios privados locais e pela força da torcida. Também esteve no Módulo I, mas foi rebaixado neste ano. Não há convênios financeiros com a Prefeitura.

O também tradicional Villa Nova (Nova Lima) conta com gestão privada via Boston City Group, que administra sua SAF.

O clube recebe concessão de patrimônio público, no caso, o Estádio Castor Cifuentes e o Centro de Treinamento Municipal Anísio Clemente, remodelado em 2026 com padrão FIFA. Mas não há repasses financeiros diretos da Prefeitura, apenas apoio com infraestrutura.

Enquanto Athletic e Democrata se sustentam com patrocínios e modelo SAF, e Nova Lima oferece patrimônio sem dinheiro, o Valério insiste em obter novos convênios com a Prefeitura, como nos anos anteriores.

E ainda sem prestar contas de como investiu o que recebeu de subsídios anteriormente.

O futuro do Valério não está na Prefeitura

O Valério nasceu da Vale. Carrega no nome a marca da mineradora e faz parte da sua história.

Nasceu em 1942, poucos meses depois de Getúlio Vargas criar a então estatal. E viveu momentos de glória até 2003. Desde então, sem o apoio da empresa, o clube definhou.

Comparado a outros clubes mineiros, o modelo de Itabira é insustentável.

Athletic e Democrata sobrevivem com patrocínios privados e SAF. Villa Nova recebe infraestrutura, mas não dinheiro público. Só Itabira insiste em bancar futebol profissional com recursos municipais.

O poder público tem prioridades claras, com bem salientaram os vereadores da situação e oposição: saúde, educação, assistência social.

Bancar futebol profissional não é tarefa da Prefeitura. O futebol exige investimento pesado e contínuo, que só grandes empresas podem oferecer.

O caminho é um só para que o Valério continue existindo e, quiçá um dia, volte à elite do futebol mineiro: apenas um patrocínio privado consistente pode devolver ao Dragão a força de outrora, capaz de meter medo nos adversários.

A Vale, que o criou e lhe deu nome, carrega uma responsabilidade histórica que não pode ser ignorada.

O clube continua ostentando em sua própria identidade a marca da mineradora, o que reforça esse vínculo e a obrigação moral de apoiar sua sobrevivência.

Outras empresas da região também podem – e devem, como algumas já começam a fazer – se somar a esse esforço, ajudando a buscar novos patrocínios e a pavimentar o caminho para que o Valério se transforme em uma SAF.

Sem esse respaldo empresarial, o Dragão seguirá preso ao passado, distante da elite do futebol mineiro e dependente de um poder público que enfrenta dificuldades financeiras – e tem prioridades muito mais urgentes.

 

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