A ideologia do negacionismo escancara o embate entre civilização e barbárie no Brasil contemporâneo

Foto: Luiz Fernando Nabuco
Aduff-SSind/Reprodução

O pronunciamento de Lula na COP30 escancara o avanço do negacionismo no Brasil e no mundo, revelando como líderes religiosos, políticos reacionários e a desinformação ameaçam os pilares da vida civilizada: ciência, democracia, direitos humanos e justiça social

Valdecir Diniz Oliveira*

Na abertura da COP30, realizada em Belém, Pará, nessa segund-feira (10), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez um pronunciamento contundente. “É o momento de impor uma nova derrota aos negacionistas.”

A afirmação, embora não tenha citado diretamente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi interpretada como uma crítica à ausência norte-americana na conferência. O presidente norte-americano, que nega a existência das mudanças climáticas, sequer enviou representantes oficiais ao evento.

Trump é o expoente máximo de uma corrente política mundial, da qual faz parte também o ex-presidente Jair Bolsonaro, que rejeita consensos científicos e compromissos internacionais.

É assim que o pronunciamento de Lula não foi apenas um gesto diplomático. Foi um alerta global sobre os riscos que o negacionismo representa para o futuro da humanidade.

O Brasil não é mais “abençoado”: os extremos climáticos se multiplicam

Durante décadas, o Brasil foi retratado como uma terra abençoada, livre de terremotos, vulcões e guerras. Essa visão, impregnada de racismo estrutural e colonialismo, ignorava as desigualdades sociais e a vulnerabilidade ambiental do país.

Hoje, essa narrativa caiu por terra. O Brasil enfrenta uma escalada de eventos climáticos extremos que atingem todos os estados da federação. Em 2025, um tornado destruiu quase toda a cidade de Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná.

No Rio de Janeiro, um ciclone extratropical provocou alagamentos, quedas de árvores e mortes. No Rio Grande do Sul, enchentes históricas deixaram milhares de desabrigados. Na Amazônia, a seca de 2023 foi a pior em mais de um século, afetando o transporte fluvial e a subsistência de comunidades ribeirinhas.

Segundo o Ministério da Ciência e Tecnologia, todos os estados brasileiros já apresentam vulnerabilidades climáticas severas. A plataforma AdaptaBrasil estima que metade dos municípios está em risco de enchentes, secas ou deslizamentos. O país, antes visto como imune, tornou-se um epicentro de tragédias ambientais.

Imagem aérea da cidade de Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná, com bairros inteiros destruídos pelo tornado que passou pela região Centro sul do estado na noite de sexta-feira (7) Foto: Reprodução/Youtube

 

A queda da vacinação e o retorno de doenças erradicadas

O negacionismo também se manifesta na saúde pública. O Anuário VacinaBR 2025, elaborado pelo Instituto Questão de Ciência com apoio da SBIm e UNICEF, revela que nenhuma das vacinas infantis do calendário nacional atingiu a meta de cobertura de 95% estabelecida pelo Programa Nacional de Imunizações.

Estados como Roraima, Amapá e Acre registraram coberturas abaixo de 70% para vacinas como a tríplice viral, poliomielite e meningite. Em Roraima, por exemplo, a Secretaria de Saúde lançou um painel interativo que mostra a cobertura vacinal em todos os municípios, revelando que em várias localidades a taxa está abaixo de 60%. A vacinação contra o HPV também preocupa: em cidades como Rio Grande da Serra, apenas 54,5% das meninas e 44% dos meninos foram vacinados.

Essa queda é resultado direto da disseminação de discursos antivacina por líderes religiosos e políticos. A desinformação, muitas vezes travestida de fé, coloca em risco toda uma geração de crianças, especialmente nas periferias urbanas e áreas rurais. A baixa adesão vacinal não é apenas um problema técnico — é um sintoma de uma crise de confiança na ciência e nas instituições públicas, alimentada por teorias conspiratórias e manipulações ideológicas.

O medo como moeda: igrejas neopentecostais e o lucro da desinformação

Líderes religiosos como Edir Macedo, da Igreja Universal, e Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial, exemplificam como o medo é instrumentalizado para fins políticos e financeiros. Durante a pandemia, Macedo afirmou que quem tivesse “coronafé” não seria infectado, enquanto Santiago vendeu feijões milagrosos como cura para a Covid-19.

Essas igrejas crescem em comunidades pobres, oferecendo uma falsa proteção espiritual contra “forças do mal”, enquanto enriquecem seus líderes e influenciam decisões políticas.

O medo do comunismo, do fim da família ou do anticristo é amplamente usado como ferramenta de controle e mobilização eleitoral. A fé, nesse contexto, deixa de ser um espaço de acolhimento e se transforma em um instrumento de dominação ideológica.

O avanço do neofascismo nas instituições brasileiras

No Congresso Nacional, nas assembleias estaduais e nas câmaras municipais, bancadas conservadoras eleitas com apoio de igrejas e fake news promovem pautas que atacam direitos fundamentais.

Em 2025, mais de 40 projetos de lei tramitam com o objetivo de enfraquecer legislações ambientais, como o chamado “PL da Devastação”, que destina R$ 30 bilhões ao agronegócio e flexibiliza regras de proteção.

Outro exemplo é o Projeto de Lei Antifacção, que, embora tenha sido proposto pelo governo, sofreu alterações por parlamentares da direita que equiparam facções criminosas a grupos terroristas, abrindo caminho para uma eventual intervenção norte-americana no território nacional, e propõem penas de até 40 anos, restringindo a atuação da Polícia Federal e ampliando poderes de repressão indiscriminada.

Há também propostas que tentam reverter o direito ao aborto legal em casos de estupro, criminalizar professores por “doutrinação ideológica” e ampliar o uso de força policial em comunidades pobres.

Esses políticos se apresentam como defensores da vida, mas negam vacinas, atacam minorias e promovem a militarização das periferias. Trata-se de um neofascismo institucionalizado, que se disfarça de moralismo e patriotismo, mas que mina os pilares da democracia.

O Congresso como campo de batalha: CPIs, narrativas e a disputa eleitoral

O negacionismo também se manifesta nas disputas parlamentares, onde CPIs e projetos de lei se tornam arenas de confronto entre o governo e forças reacionárias.

A CPI do Crime Organizado, instalada no Senado e relatada pelo senador Alessandro Vieira, busca investigar o financiamento e a estrutura das facções, milícias e redes de lavagem de dinheiro. Em paralelo, na Câmara dos Deputados, o Projeto de Lei Antifacção, relatado por Guilherme Derrite, ex-secretário de Segurança de São Paulo, propõe equiparar facções criminosas a organizações terroristas, ampliando penas e poderes de repressão.

Esses embates não são apenas técnicos, são profundamente ideológicos. Enquanto o governo tenta estruturar uma resposta racional e baseada em inteligência policial, setores da extrema direita promovem uma narrativa de guerra total, que legitima chacinas, criminaliza comunidades e enfraquece o papel das instituições democráticas.

A disputa em torno dessas CPIs e projetos será um dos eixos centrais da campanha majoritária e proporcional de 2026, com narrativas polarizadas sobre segurança, direitos humanos e o papel do Estado.

O negacionismo, nesse contexto, não se limita à negação da ciência ou do clima — ele se transforma em estratégia eleitoral, alimentando o medo, a desinformação e o ressentimento social.

A luta entre civilização e barbárie, mais uma vez, se dará também nas urnas. E o que está em jogo é o modelo de sociedade que o Brasil deseja construir.

O negacionismo na segurança pública: entre a barbárie policial e o combate estrutural ao crime

A lógica punitivista, que aposta exclusivamente na repressão armada e na militarização das periferias, ignora as causas estruturais da criminalidade e perpetua a violência contra os mais vulneráveis.

A recente chacina ocorrida em comunidades do Rio de Janeiro, sob comando de um governo estadual alinhado à extrema direita, é um exemplo claro dessa política negacionista: operações policiais que resultam em dezenas de mortes, sem inteligência, sem investigação, sem responsabilização — apenas força bruta.

Esse modelo de segurança pública tem raízes ideológicas profundas. A frase “bandido bom é bandido morto”, proferida por Jair Bolsonaro ainda durante seu mandato presidencial, tornou-se um mantra da extrema direita brasileira. Mais do que uma opinião, ela expressa uma doutrina: a de que a violência estatal é legítima, desejável e necessária — mesmo que custe vidas inocentes.

Essa visão, amplamente disseminada por fake news nas redes sociais, encontrou eco em parcelas da população que, desinformadas ou manipuladas, passaram a aceitar a barbárie como política pública.

O presidente Lula, ao afirmar que os pequenos traficantes são também vítimas do consumo da classe média, foi alvo de críticas, mas sua fala revela uma verdade incômoda: o tráfico de drogas é sustentado por uma cadeia de consumo que começa nos bairros nobres e termina nas vielas das favelas.

O jovem negro, pobre e periférico que entra para o tráfico como alternativa de renda não é o responsável pela engrenagem — é o elo mais frágil dela. Segundo dados do Departamento Penitenciário Nacional, mais de 70% da população carcerária brasileira é composta por pessoas pretas ou pardas, com baixa escolaridade e renda.

“Ovos da serpente”: o perigo da indiferença

A expressão “ovos da serpente”, popularizada pelo filme de Ingmar Bergman, refere-se ao momento em que ideologias autoritárias ainda estão em gestação, mas já mostram sinais claros de perigo.

No Brasil, esses ovos estão sendo chocados: discursos de ódio, negacionismo científico, ataques à imprensa e à educação são sintomas de uma sociedade em risco.

A indiferença diante desses sinais pode levar ao colapso democrático e ao surgimento de regimes autoritários que se alimentam do medo e da ignorância.

A barbárie, nesse contexto, não é o oposto da civilização — é sua degeneração interna, como alertaram pensadores como Walter Benjamin e Theodor Adorno. O retrocesso civilizatório não acontece fora da história, mas dentro dela, quando os valores democráticos são corroídos por dentro, e a violência se torna política pública.

Ciência, educação e mobilização: caminhos para resistir

É assim que o combate ao negacionismo exige ação coordenada entre governos, sociedade civil e instituições científicas.

É preciso investir em educação crítica, fortalecer a imprensa livre, ampliar o acesso à informação qualificada e garantir que políticas públicas sejam baseadas em evidências.

COP30, ao trazer o debate climático para o coração da Amazônia, simboliza a urgência de recolocar a ciência no centro das decisões políticas.

A luta contra o negacionismo é também uma luta pela democracia, pela vida e pela dignidade dos povos. E ela começa agora — antes que mais ovos da serpente se rompam e nos mergulhem em uma nova era de medo e retrocesso.

Foto: acervo pessoal

*Valdecir Diniz Oliveira é cientista político, jornalista e historiador.

 

 

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