A IA não precisa mentir para manipular o seu voto

Imagem gerada por IA

O maior risco talvez não seja fabricar uma realidade falsa, mas construir uma realidade confortável demais

Por Marcelo Senise

Durante algum tempo, imaginamos que o grande perigo da inteligência artificial nas eleições teria o rosto de um candidato dizendo algo que nunca disse. O deepfake tornou-se a representação mais visível da ameaça tecnológica à democracia. Mas talvez estejamos olhando apenas para a parte mais rudimentar do problema.

A IA não precisa mentir para influenciar uma decisão política. Basta descobrir quem está do outro lado da tela e oferecer respostas compatíveis com aquilo em que essa pessoa já acredita.

Um estudo publicado na Scientific Reports, do grupo Nature, ajuda a dimensionar o fenômeno. Pesquisadores da Unicamp avaliaram 21 grandes modelos de linguagem no contexto político brasileiro; foram analisadas 47.376 respostas.

Todos apresentaram, em algum grau, o que os pesquisadores chamaram de “camaleão ideológico”: quando informados sobre a orientação política do usuário, suas respostas tendiam a se deslocar na direção das crenças daquele interlocutor.

Isso não significa que exista uma máquina conspirando para mudar eleições. O problema é mais sofisticado. Esses sistemas são treinados para produzir respostas úteis.

Quando essa capacidade encontra nossas predisposições políticas, surge um fenômeno central para a próxima etapa da comunicação eleitoral: a persuasão por confirmação.

A propaganda tentou persuadir multidões. As redes sociais passaram a selecionar conteúdos segundo comportamento e engajamento. A IA conversacional acrescenta agora uma terceira camada: a mensagem deixa de ser apenas segmentada e passa a ser dialogada.

Um algoritmo escolhe qual vídeo colocar diante de você. Uma IA pode escutar sua pergunta, interpretar o contexto, receber sua objeção e reformular o argumento. A comunicação passa a adquirir características de relacionamento.

Dois cidadãos podem perguntar: “Qual política de segurança pública funciona melhor?”. Um se declara conservador; o outro, progressista. Nenhum precisa receber informação falsa. Ambos podem receber fatos verdadeiros. A diferença pode estar nos dados escolhidos, na ordem dos argumentos e no que foi omitido.

Manipulação não é sinônimo de mentira. É possível alterar a percepção utilizando apenas fatos verdadeiros, desde que se escolha quais mostrar, em que ordem e sob qual enquadramento. Com a IA, essa operação pode ser individualizada, interativa e contínua.

O eleitor deixa de viver apenas numa bolha informacional e pode entrar numa bolha argumentativa personalizada. Se o sistema aprende quais formulações confortam o usuário, a experiência de informação corre o risco de se transformar num espelho. E espelhos são perigosos instrumentos de formação política quando começam a responder perguntas.

É nesse ponto que a discussão encontra a integridade cognitiva. Uma democracia não depende apenas da liberdade de votar. Pressupõe alguma autonomia na formação da vontade. O problema surge quando uma arquitetura tecnológica adapta, em escala e quase invisivelmente, o ambiente argumentativo no qual a opinião é formada.

O TSE já percebeu parte dessa mudança. As regras para 2026 proíbem sistemas de IA de recomendar candidaturas, indicar preferência ou favorecer politicamente alguém, inclusive por respostas automatizadas.

Mas permanece uma zona mais difícil de regular: o que acontece quando a máquina jamais diz “vote em X”, mas oferece, ao longo de sucessivas conversas, enquadramentos compatíveis com determinada visão de mundo?

Não há santinho, pedido de voto ou necessariamente notícia falsa. Existe apenas uma conversa.

Por isso, a proteção democrática precisará ir além da autenticidade do conteúdo. Precisaremos discutir auditoria comportamental, transparência sobre personalização e testes que verifiquem como perfis ideológicos diferentes recebem respostas para a mesma pergunta.

A pesquisa da Unicamp demonstra adaptação ideológica em condições controladas; não prova que milhões de votos estejam sendo alterados por chatbots. Mas seria igualmente irresponsável esperar uma eleição ser manipulada para só então investigar a capacidade de influência dessa tecnologia.

Talvez a IA politicamente mais perigosa não seja aquela que inventa uma mentira extraordinária. Pode ser aquela que utiliza fatos verdadeiros, compreende nossas predisposições e constrói uma realidade argumentativa sob medida.

O deepfake pretende enganar nossos olhos. A próxima fronteira da manipulação pode ser mais silenciosa: uma máquina que aprende quem somos e transforma nossas próprias certezas na arquitetura da realidade que nos apresenta.

A ameaça mais sofisticada à liberdade de escolha talvez não seja uma IA que tente mudar nossa opinião. Pode ser aquela que nunca mais nos dá uma boa razão para mudá-la.

*Marcelo Senise é sociólogo e estrategista político, presidente do IRIA — Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial. Autor da obra “A Delicada (ou não) arte da desconstrução política” e a trilogia Blindagem Essencial

 

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