A eleição foi decidida nas urnas, mas conhecida muito antes da apuração terminar

Gráfico: Reprodução

Modelos estatísticos identificaram a vitória de Lula quando menos de 2% das seções eleitorais haviam sido totalizadas, mostrando que o resultado estava nos dados muito antes de aparecer no placar

Frederico Dornellas*

O mais surpreendente da noite de ontem não foi o resultado. Foi o pouco tempo que precisamos para conhecê-lo

Quem acompanhou só a contagem do TSE viu Flávio Bolsonaro à frente durante quase metade da apuração. Quem acompanhou os modelos estatísticos já sabia, com 2% das seções totalizadas, que Lula terminaria perto de 51,8% dos votos válidos. O resultado final foi 51,79%

Não houve mágica nem informação privilegiada. As primeiras urnas não são uma amostra aleatória do país: algumas regiões apuram antes e votam de forma diferente da média.

Como o TSE publica tudo desagregado por seção e por zona, é possível comparar cada urna apurada com o que essa mesma urna votou antes.

Assim, mede-se quanto o voto mudou em cada tipo de lugar. Depois, basta aplicar essa mudança ao que ainda falta contar.

Três modelos fizeram isso ao vivo, com estratégias diferentes:

Rodrigo Mahlmeister comparou seção a seção com o 2º turno de 2022 e com o 1º turno de 2026.

A Janela, do Plano Político, mediu o desvio de cada zona eleitoral em relação ao seu padrão histórico.

A Projeção Bayesiana aprendeu o próprio erro a cada atualização: o erro nacional, o erro por estado, o efeito do porte da cidade e o viés da ordem de apuração.

Dois detalhes me parecem os mais reveladores.

O primeiro: a projeção bayesiana feita antes da votação, baseada em 57 pesquisas, dava vantagem a Flávio. Quem acertou foi a correção feita com urnas reais. A pesquisa mede intenção. A apuração modelada mede comportamento.

O segundo está nos gráficos. Com 2% apurado, o modelo de Mahlmeister já acertava o destino, mas errava o caminho, porque antecipava a virada. Com 8%, até a trajetória prevista coincidia com a real.

Gráfico: Reprodução

Por curiosidade, pedi ao Claude uma conta simples: aplicar ao 1º turno o swing observado nas primeiras seções, quase todas do exterior. O resultado foi Lula com 51,3%.

Errou o destino por meio ponto e errou completamente a trajetória. Essa é a distância entre uma conta de guardanapo e um modelo seção a seção: os dois chegam perto do número, mas só um entende como se chega lá.

Esses dados sempre estiveram ali, públicos e desagregados. O que mudou foi a decisão de lê-los como estrutura, e não apenas como placar.

Que outros dados públicos ainda lemos apenas como contagem bruta?

*Frederico Dornellas, Psicólogo e PhD candidate em administração na Cardiff Business School/PUC Minas. Ex Head de Inovação, com experiência em cultura organizacional, estratégia e desenvolvimento de liderança para empresas listadas na B3. Pesquisa temas sobre Desenvolvimento Econômico, Diversificação Econômica, Governança e Fechamento de mina.

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