A.C. – há 97 anos 

Paul Claudel e Nininha Veloso-Guerra comemorando o fim da Primeira Guerra Mundial às margens da lagoa de Cima, Campos, 1918

Foto: Autor desconhecido / 
Acervo Ministério da Europa e dos Assuntos Exteriores da França 
Reprodução: Portal do Farol/CMN

|A.C. Estas iniciais referem-se ao pseudônimo de Antônio Crispim, um dos mais utilizados por Drummond. Além de assinar notas esparsas, é usado para subscrever a tradução do poema O Crucifixo, de Paul Claudel. Tradução do poema-em-prosa Le crucifix de Paul Claudel (1868-1955). É talvez a mais elaborada dentre as traduções feitas por CDA, pois desde a primeira reprodução vem sofrendo várias alterações de texto. Fenando Py|

|Repr.: Diário de Minas, BH, 28.3.1929; Minas Gerais, BH, 17.4.1930; A Manhã, Supl. Autores e Livros, Rio, ano III, vol. IV, n.13, 18.4.1943; C. da Manhã, Rio, 16.4.1954 (sob o título de Imagens do homem/O Crucifixo); A Manhã, Supl. Autores e Livros, Rio, 16.4.1954; Folha de Minas, BH, 17.4.1954; Obras primas da poesia universal. Introdução, seleção e notas de Sérgio de Milliet (Martins/1954, p.210-212; C. da Manhã, Rio, 16.4.1965 (sob o título Imagens de Cristo/Poema de Claudel; R. Magalhães Jr. Poesia da França, antologia de poetas francesas (séc. MCMLXVI); Jornal do Brasil, Rio, 12.4.1979 (sob o título de O Crucifixo – Poema de Claudel)

Sociedade

O Crucifixo

A cabeça vista da direita

De todo o corpo crucificado apenas a cabeça está livre

Os espinhos em que se teve o cuidado de cercá-la tornando-lhe impossível qualquer apoio.

Durante três horas ela reinou e rezou, durante três horas vimos a face do Altíssimo.

É bem natural que tombe por fim, agora que a força a abandona.

Eis chegado o momento que pacientemente esperávamos.

Podemos encarar o Cristo, agora que ele não nos olha mais.

Ei-lo sobre a cruz, tal como estava, quando capitulou para sempre.

Por mais que façamos daqui por diante, sabemos que não mudará.

Não levantará mais a cabeça: permanecerá na transfixação de seus pés e na extensão definitiva de seus braços.

Não mudará nunca mais esta espécie de parcialidade.

Qualquer coisa que façamos, ele não virará para outro lado a cabeça que para o nosso lado se inclina.

Ele medita (espia tudo com antecedência) e suporta os quatro pregos para esperar-me.

É facílimo verificar que não se acha em condições de se defender.

A morte que está em mim, o amor que nele está não fazem mais que um só sentimento.

Sua inocência é o meu pecado, – há entre nós isso de vital e de comum.

Se ele é o meu Redentor, onde se passaria isto, caso eu não tivesse pecado?

Os pregos seriam menos duros ao corpo se eu mesmo não fosse tão vil.

A cruz é suportável, mas como pesa com ela o que está ligado a mim pelo peso e pelo desejo!

Tudo o que de pesado há nele tacitamente está em mim como um fruto que só cumpre recolher.

A Cabeça vista da esquerda

Está escrito no livro da Gênese, nessa história que é toda cheia de mistérios,

Que José, depois de longa permanência no Egito, quando se lê que encontrou os irmãos,

Fez sair toda a assistência antes de lhe mostrar o rosto;

(Egito, que quer dizer as trevas em hebreu, é esta terra por excelência em que vivemos, miserável e sombria),

Pois que não convinha que alguém estivesse presente nesse instante sagrado,

Do irmão que se virou para nós e nos convidou a encará-lo.

Assim quis o Cristo, porque o coração deles era forte (ou talvez um amor enorme fosse o motivo,

Só se mostrou cá embaixo do lado esquerdo, a muitos santos e santas.

Tudo que estes fazem, simula não ter reparado.

Quando rezam, dir-se-ia que escuta outra coisa, e sua fronte permanece virada.

Mas eles compreendem, sorriem, não se zangam com isso

E voltam tranquilamente para a semeadura e para a vindima,

Pois para aquele que crê, a fé é bastante.

O que a eternidade nos reserva, não há necessidade de vê-lo nesta vida.

Bons servidores, conheceis o vosso dever, e é o suficiente.

A luz necessária está convosco, e o caminho inteiramente traçado.

E quando o vosso Criador se volta para vós com uns olhos em que a cólera não reside,

Ele não quer nem que os homens nem que os anjos sejam testemunhas desse momento.

(Tradução de A.C.)

Paul Claudel

[D. de Minas, BH, 28.03.1929 – Pesquisa: Cristina Silveira]

O Crucifixo

Poema de Paul Claudel

Tradução de Carlos Drummond de Andrade

– I –

A cabeça vista da direita

De todo o corpo crucificado apenas a cabeça está livre

Os espinhos com que se teve o cuidado de cobri-la tornando-lhe impossível qualquer apoio.

Durante três horas ela reinou e rezou, durante três horas contemplamos a face o Altíssimo.

É natural que tombe por fim, agora que a força a abandona.

Eis chegado o momento que pacientemente esperávamos:

podemos encarar o Cristo, agora que ele não nos olha mais.

Ei-lo sobre a cruz, tal como se achava quando capitulou para sempre.

Por mais que façamos d’agora em diante, sabemos que não mudará.

Não levantará mais a cabeça: permanecerá na transfixação de seus pés e na extensão definitiva de seus braços.

Não mudará nunca mais esta espécie de parcialidade.

Qualquer coisa que façamos, ele não virará para outro lado a cabeça que para o nosso se inclina.

Ele medita (sabia tudo com antecedência) e suporta os quatro pregos para esperar-me.

É tão fácil verificar que não se acha em condições de defender-se.

A morte que há em mim, o amor que nele existe não fazem mais que um só sentimento.

Sua inocência é o meu pecado – há entre nós isso de vital e de comum.

Se ele é o meu Redentor, onde se passaria isto, caso eu não tivesse pecado?

Os pregos seriam menos duros ao corpo se eu mesmo não fosse tão vil.

A cruz é suportável, mas como é de chumbo o que está ligado a mim pelo peso e pelo desejo!

Tudo o que de pesado há nele tacitamente é meu, como um fruto que só cumpre recolher.

– II –

A Cabeça vista da esquerda

Está escrito no livro da Gênese, nessa história que é toda cheia de mistérios,

que José, depois de longa permanência no Egito, quando se lê que encontrou os irmãos,

fez sair toda a assistência antes de lhe mostrar o rosto:

(Egito, que em hebreu quer dizer as trevas, é por excelência esta terra em que vivemos, escura e miserável),

pois não convinha que alguém estivesse presente naquele instante sagrado,

do irmão que virou para nós e nos convidou a encará-lo.

Assim quis Cristo, porque o coração deles era forte (ou talvez um amor imenso fosse o motivo),

só se mostrar cá embaixo do lado esquerdo a muitos santos e santas.

Tudo o que estes fazem, simula não ter reparado.

Quando rezam, dir-se-ia que escuta outra coisa, e sua fronte permanece voltada.

Mas eles compreendem, sorriem, não se zangam com isso, e voltam tranquilamente para a semeadura e para a vindima,

pois para aquele que crê, a fé é o bastante.

O que a eternidade nos reserva, não há necessidade de vê-lo nesta vida.

Bons servidores, conheceis o vosso dever, e é o suficiente.

A luz necessária está convosco, e o caminho inteiramente traçado.

E quando o vosso Criador se volta para vós com uns olhos em que a cólera não reside,

Ele não quer nem que os homens nem que os anjos sejam testemunhas desse momento.

[Autores e Livros: Suplemento Literário de A Manhã, Rio, 18.04.1943 – Pesquisa: Cristina Silveira]

O Crucifixo

|Paul Louis Charles Marie CLAUDEL nasceu em Paris (1868-1955). Logo que se licenciou em direito ingressou na carreira consular, e em 1917, elevado a ministro, foi pela primeira vez ocupar tal posto no Rio de Janeiro. Sua obra iniciou-se em 1890, com a publicação do drama “Tête d’or”, a que depois vieram juntar-se, no mesmo gênero. “La ville”; “L’ Échange”; “Le repos du septième Jour”; “La jeune fille Violaine”; “L’ Otage”; “Le Pain dur”; “Le Père humilié “; l’ Annonce faite à Marie”. Entre as restantes obras destacam-se: “Cinq grandes odes”; “La cantate à trois voix”; “Poèmes de guerre”; “Art poétique”; “La correspondence avec Jacques Rivière (1907-1914)”; “Vers l’exil”; “Um cop d’oeil sur l’ âme japonaise”; “À travers la ville em flammes”; “Protée”; “Le soulier de Satan (1930), etc. Sérgio de Milliet|

A cabeça vista da direita

De todo o corpo crucificado só a cabeça permanece flexível.

Os espinhos com que se teve o cuidado de cercá-la tornam-lhe qualquer apoio impossível.

Durante três horas ela reinou e rezou, durante três horas contemplamos a face divina.

É natural que tombe por fim, pois que sua força se inclina

Eis chegado o momento por nós pacientemente esperado:

podemos encarar o Cristo, que não nos vê, seu olhar imobilizado.

Ei-lo no alto da cruz, tal como capitulou, tal como será.

Por mais que façamos d’agora em diante, sabemos que não mudará

já não ergue a cabeça, permanece na transfixação de seus pés e na extensão definitiva de seus braços.

Não mudará nunca mais essa espécie de parcialidade

Por mais que façamos, não volverá a outro canto a cabeça ao nosso voltada.

Ele medita (sabia tudo com antecedência) e suporta os quatro pregos para me esperar.

É tão fácil perceber que não está em condições de se libertar.

A morte que há em mim, e o amor que há nele não fazem mais que uma coisa só.

Sua inocência é meu pecado – há entre nós isso de vital, como um nó.

Se ele é o meu Redentor, onde se passaria isto, caso eu não tivesse pecado?

Os pregos doeriam menos ao corpo se eu próprio fosse menos culpado.

Firme é a cruz, mas como é de chumbo, com ela, o que pelo peso e pelo desejo se liga ao meu ser.

Tudo o que há nele de pesado tacitamente é meu, como um fruto que cumpre apenas recolher.

A Cabeça vista da esquerda

Está escrito no livro da Gênese, nessa história cheia de um mistério infinito

que José quando se lê que encontrou os irmãos, depois de longa permanência no Egito

fez sair toda a assistência, antes de lhes manifestar a face.

(Egito, que em hebreu quer dizer trevas, é por excelência esta terra em que vivemos, escura e baixa)

pois não convinha que alguém estivesse presente naquele instante sagrado,

do irmão que se virou para nós e pediu para ser encarado

Assim quis o Cristo, porque era forte o coração deles, ou talvez num amor imenso esteja o segredo,

a muitos santos e santas aqui em baixo só se mostrar do lado esquerdo.

Tudo que estes fazem, simula não ter reparado.

Quando rezam, dir-se-ia que escuta outra coisa, e seu rosto permanece voltado.

Mas eles sabem, sorriem, e nenhum se lastima,

e voltam tranquilamente para a semeadura e a vindima,

pois àquele que crê, a fé é suficiente.

O que a eternidade nos reserva, não é preciso vê-lo nesta vida presente.

Bons servidores, conheceis vosso dever, e é bastante.

A necessária luz é convosco e o caminho traçado de avante.

E quando vosso Criador se volta para vós, com seu olhar em que a cólera não mora,

Ele não quer nem que os homens nem que os anjos sejam testemunhas dessa hora.

Tradução de Carlos Drummond de Andrade

[Obras primas da poesia universal. Introdução, seleção e notas bibliográficas de Sérgio Milliet, SP, Martins, 1954, p. 210-212]

Detalhe do torso e do abdômen da imagem (fonte: GIVOA ART CONSULTING. Perícia nº 037-2020. Antônio Francisco Lisboa. São Paulo: Givoa, 2022). Fonte: Revista Restauro.

Imagens do homem
O Crucifixo

I – A cabeça vista da direita

“De todo o corpo crucificado, só a cabeça permanece flexível.

Os espinhos com que se teve o cuidado de cerca-la tornam qualquer apoio impossível.

Durante três horas ela reinou e rezou, durante três horas contemplamos a face divina.

É natural que tombe por fim, pois que sua força declina.

Eis chegado o momento por nós pacientemente esperado.

Podemos encarar a Cristo, que não nos vê seu olhar imobilizado.

Ei-lo no alto da cruz, tal como capitulou, tal como será.

Por mais que façamos daqui por diante, sabemos que não mudará.

Já não ergue a cabeça, permanece na transfixação de seus pés e na extensão definitiva de seus braços.

Não mudará nunca mais essa espécie de parcialidade.

Por mais que façamos, não volverá outro canto a cabeça para o nosso voltada.

Ele medita (sabia tudo com antecedência) e suporta os quatro pregos para me esperar.

É tão fácil perceber que não está em condições de se libertar.

A morte que há em mim, e o amor que há nele não fazem mais que uma coisa só.

Sua inocência é meu pecado – há entre nós isso de vital, como um nó.

Se ele é o meu Redentor, onde se passaria isto, caso eu não tivesse pecado?

Os pregos doeriam menos ao corpo se eu próprio fosse menos culpado.

Firme é a cruz, mas como é de chumbo, como ela, o que pelo peso e pelo desejo se liga o meu ser.

Tudo o que há nele de pesado tacitamente é meu, como um fruto que cumpre apenas recolher.”

II – A Cabeça vista da esquerda

“Está escrito no livro da Gênese, nessa história cheia de mistério infinito,

Que José, quando se lê que encontrou os irmãos, depois de longa permanência no Egito,

Fez sair toda a assistência, antes de lhes manifestar a face:

(Egito, que em hebreu quer dizer trevas, é por excelência esta terra em que vivemos, escura e baixa),

Pois não convinha que alguém estivesse presente naquele instante sagrado

Em que o irmão se virou para nós e pediu para ser encarado.

Assim quis o Cristo, porque era forte o coração deles, ou talvez num amor imenso esteja o segredo,

A muitos santos e santas aqui em baixo só se mostrar do lado esquerdo.

Tudo o que estes fazem, simula não ter reparado.

Quando rezam, dir-se-ia que escuta outra coisa, e seu rosto permanece voltado.

Mas eles sabem, sorriem, e nenhum se lastima,

E voltam tranquilamente para a semeadura e a vindima.

Pois aquele que crê, a fé é suficiente.

O que a eternidade nos reserva, não é preciso vê-lo nesta vida presente.

Bons servidores, conheceis vosso dever, e é bastante.

A necessária luz é convosco e o caminho traçado de avante.

E quando vosso Criador se volta para vos, com seu olhar em que a cólera não mora,

Ele não quer nem que os homens nem que os anjos sejam testemunhas dessa hora.”

Poema de Paul Claudel. Pela tradução – C.D.A.

[C. da Manhã, Rio, 16.04.1954]

Giclês dos XIV Passos da Via Sacra, de Portinari (1903-1962), de Brodowski-SP

DRUMMOND

O Crucifixo

(Poema de Paul Claudel)

I

A cabeça vista da direita

De todo o corpo crucificado, só a cabeça permanece flexível.

Os espinhos com que se teve o cuidado de cercá-la tornam qualquer aroma impossível.

Durante três horas ela reinou e rezou, durante três horas vimos a face divina.

É natural que tombe por fim, de vez que a força termina.

Eis chegado o momento por todos nós pacientemente esperado:

Podemos encarar o Cristo, pois já não nos vê seu olhar imobilizado.

Ei-lo no alto da cruz, tal como capitulou, e assim será conservado.

Por muito que nos esforcemos, é certo que não mudará nunca mais.

Já não ergue a cabeça, permanece na transfixação dos pés, e os braços esticados não se moverão jamais.

Não há de mudar nunca essa espécie de parcialidade.

Inútil desviá-la, foi para junto de nós que se inclinou sua vontade.

Sabia tudo com antecedência, e medita; suporta os quatro cravos para me esperar.

É tão fácil perceber que não está em condições de se libertar.

A morte que habita em mim, o amor que nele reside constituem uma coisa só.

Sua inocência é meu pecado – há entre nós isso de vital, como um nó.

Se é ele o meu Redentor, como se passaria isto, se eu não tivesse pecado?

Os cravos não lhe pungiriam tanto, se eu próprio fosse menos culpado.

Firme é a cruz, mas como pesa, com ela, o que pelo desejo se agarra no meu ser!

Tudo o que há nele de pesado tacitamente é meu, como fruto que resta apenas recolher.

II

A Cabeça vista da esquerda

Está escrito no livro da Gênese, nessa história de mistério infinito,

Que José, ao encontrar os irmãos, após longa temporada no Egito,

Mandou sair toda a assistência, antes de manifestar-lhes seu rosto.

(Egito, que em hebreu quer dizer trevas, é por excelência a terra em que vivemos, de escuridão e desgosto),

Pois não convinha que alguém estivesse presente naquele instante sagrado.

Em que o irmão se volta para nós e deseja ser contemplado.

Assim resolveu Cristo, porque forte era o coração deles, ou talvez um amor intenso fosse o segredo,

A muitos santos e santas, cá em baixo, só se mostrar do lado esquerdo.

Em tudo que eles fazem, simula não ter reparado.

Quando rezam, parece não dar ouvidos, e seu rosto continua voltado,

Porém eles compreendem, sorriem, e nenhum se lastima.

Retornam tranquilamente à semeadura e à vindima,

Pois aquele que crê, a fé é suficiente.

E o que a eternidade nos reserva, não é preciso vê-lo nesta vida presente.

Bons servidores, conheceis vosso dever, e é o bastante.

A necessária luz vos assiste, e o caminho traçado desde antes.

E quando o vosso Criador se volta para vós, num olhar em que a cólera não se instala.

Ele não quer nem que os anjos sejam testemunhas na sala.

[Jornal do Brasil, Rio, 12.4.1979 – Pesquisa Cristina Silveira]

 

 

 

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