C.D. – há 101 anos 

Arte: Jayme Guerra

|Iniciais de Carlos Drummond. Assina pequenas notas sobre livros, crônicas e poema-em-prosa. Exemplos: “O Centenário” (Aurora Colegial, ano XIV, n. 187, 7-6-1918; “A ingênua sabedoria” (Para Todos…27-9-1924); “A noite entre os enigmas” (Diário de Minas, BH, 10-2-1925) e “Refrão do imortal desespero”  (Para Todos…, 4-7-1925). Fernando Py

Refrão do imortal desespero
C.D.

Dois olhos parados em minha frente. Um gato, um bruxo. Um gato, um bruxo, ou um fantasma? Dois olhos parados em minha frente.

A princípio, não via nada. A escuridão era profunda como um poço. Como um poço fundo! A escuridão era profunda. E eu me debatia com mãos desvairadas, girando em torno de mim mesmo, tropeçando, caindo, recomeçando. Minhas mãos arranhavam a escuridão. Minhas mãos tinham raiva. Súbito, uma vibração elétrica riscou a noite, e dois olhos ficaram parados em minha frente.

E são absurdamente verdes, esses olhos! Desde então, esse momento de espanto é ainda o momento em que vivo. O passado e o futuro descolaram-se de minha consciência como uma gravura se descola do quadro. Em vão tento recomeçar a corrida pela treva pegajosa. Os olhos verdes não deixam. Estão parados em minha frente, desde sempre e para sempre.

E a literatura me alucina. “Uma voz, uma voz para gritar!” A palavra de Poe badala nos meus ouvidos. E eu não grito! Sinto-me rodeado de relógios imperturbáveis, marcando todos o mesmo eterno minuto. E eu não grito! Minuto de aço e de horror. Debato-me e retorço-me. Tenho as mãos arranhadas, trêmulas, zig-zagueantes, desenhando ainda (desenhos inúteis) um gesto de libertação. Só a voz não sobe da garganta. Dois olhos que não perdoam estão parados em minha frente.

Sinto que a morte não vem, com passos abafados e mãos abafadoras, e que inutilmente perseguição os olhos implacáveis, parados em minha frente, dois olhos que são talvez os meus olhos, os meus próprios olhos apavorados!

Depois deu uma gargalhada, e pediu uma xícara de café.

Totem para Alice (2019) – Manoel Torres Bersan, de Itabira-MG.

C.D. – Há 102 anos –

A ingênua sabedoria

C.D

Os mais belos hinos e coragem são os tecidos pela covardia. Só os que fogem compreendem o heroísmo.

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Uma formula para a expressão de tortura geral: nós recuamos para o futuro.

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Jesus é o tédio da divindade. Jesus-homem baixou na terra para consolar-se das delicias do paraíso. Mas, era terrivelmente perfeito, e os homens crucificaram-no. E Jesus voltou a ser Deus, com certeza mais entediado ainda.

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Todos morrem. Ninguém vive. A vida é a morte que se diverte.

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“Era no tempo em que os animais falavam…” Hoje, os animais continuam a falar, mas são tão numerosos e falam tanto de uma só vez, que ninguém os entende.

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Incoerência! Meu pão de todos os dias…

[Fonte: Para Todos, 4-7-1925 – Pesquisa: Cristina Silveira)

 

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