Meditação do Eleitor 3144
Carteira de Reservista de CDA – Reprodução de foto do Acervo do Memorial Carlos Drummond de Andrade, em Itabira – MG. Data 25-04-2009
Foto: Rogério Reis, Tyba
Carlos Drummond de Andrade
|Fim do Estado Novo (1930-1945). Eleição presidencial: Eurico Gaspar Dutra (PSD-Partido Social Democrático), votos: 3.251.507, 55,39% dos votos; Eduardo Gomes (UDN-União Democrática Nacional), votos: 2.039.341 votos, 34,79% dos votos; Yedo Fiúza (PCB- Partido Comunista Brasileiro) votos: 569.818, 9,71% dos votos. Total de votos: válidos: 5.870.667, brancos: 70.328; nulos: 65.214; Total geral de votos: 6.006.209|
Nota da redação – Convidado a colaborar na Folha da Manhã de São Paulo, com a garantia de que teria plena liberdade de pensamento, o nosso companheiro Carlos Drummond de Andrade escreveu para aquele diário um artigo que foi publicado, porém com a supressão de um trecho referente à Assembleia Constituinte. Publicamos abaixo seu texto integral que o matutino paulista se permitiu mutilar.
Na fila, pois se a guerra acabou, as filas não, aguardava a minha vez de receber o título de leitor, virgula, esse papel forte de que tanto nos havíamos separado, a ponto de esquecê-lo dos seus característicos formais, no seu sentido político e na sua função social. Fazia sol, mas não nos castigava na varanda em que, expectantes sentíamos desenvolver-se lenta, silenciosa e burocraticamente, o processo de democratização do país.
Varanda de uma escola, não de um museu, porque a autoridade sapientíssima fechara a escola para transformá-la em museu. E como não há tempo nem gosto nestes dias afobados, para a gente se deleitar na contemplação de coisas pretéritas, lá está ele, o edifício escolar, vazio de crianças como também de adultos. Enferrujando ao ar livre, cilindros de ferro tirados a velhas peças de artilharia lembram lutas contra o invasor remoto; dentro, barbas de daguerreótipo, tabaqueiras donjoaninas e papéis bolorentos dão-se ao incauto que ande à procura do tempo perdido.
Mas não há incautos e o museu ronca, na santa paz da tarde de sol em Copacabana. Roncava. Hoje, duas tabuletas tomaram os ângulos da casa e avisavam a quem passe que ali funciona esperança da pátria, um cartório eleitoral. E senão o edifício, pelo menos seus corpos laterais se animam de uma população adventícia, efêmera de eleitores, “ex-ofício”, comuns que vão apresentar ou buscar papéis, tanto por obrigação, porque o artigo tal pune de multa e prisão o faltoso, como por anseio legítimo de ver o Brasil melhorar, vontade de ajudar essa melhoria e ainda curiosidade, oh! uma tremenda curiosidade de ver como se vota, para que serve o voto, que é afinal o voto como se pega na cédula e …
A rua não é longa e nem revela os estigmas de decomposição da energia humana, evidentes nessas trágicas filas do anoitecer na cidade, à espera do ônibus. É fila de depois do almoço, barbeada, ainda firme, otimista e inédita. Os empregados do cartório são amáveis ou quando menos, quando menos, corteses, e tudo se resolve sem tortura. Apenas, estamos ainda no número três mil e tantos e cidadãos mais afoitos, alistados em números altos, e que vêm indagar do título são convidados a voltar daí a quinze dias.
Desanimo da senhora gorda, que contava já poder regressar para casa munida de sua arma cívica: tendo esperado sete anos, custam-lhe esses quinze dias. Mas o senhor enxuto, óculos pretos, vagamente ex-parlamentar, conforma-se e parte em boas condições morais; ele sabe que o fascismo não se destrói num dia, que uma democracia custa edificar-se. Os muitos moços não sabem nada, apenas ouviram falar de uma eleição no futebol, que o governo tinha manobrado. A fila confia no futuro.
Meu modesto título número n. 3.144, da 5ª. zona do Distrito Federal, de 15 x 10 centímetros, a maneira de ficha comercial – ponho-me a contemplar-te com interesse e logo verifico: refletes as transformações da vida e os horrores do tempo. Lembro-me de outro título que possuí em uma de nossas muitas repúblicas. Nele estava meu retrato e a cartolina era melhor.
Documento que guarde nosso retrato, adquire certo parentesco conosco; impõe-se, prezâmo-lo. Tu, meu caro, trazes logo à lembrança os recibos do protocolo das repartições, os cupons de racionamento de açúcar, os mil e um papeizinhos, papeletas e papelotes que enchem a existência de alguns anos para cá, quando um homem nada faz nem obtém senão a poder do carimbo e estampilhar. Teu papel modesto lembra o colapso das importações e custo astronômico da produção da indústria nacional infantil.
A vida está cara, os papéis eleitorais não devem ser suntuosos. Tudo em ti é emergência e pelo que vejo servirás apenas para três eleições, o que dispensa o pergaminho e as [flariturasilegível]. Mas que servisse apenas para uma, ainda assim serias precioso. Tu nos reintegras num hábito perdido, ou de esforços para fazê-lo; vem lembrar aos brasileiros verdades soterradas, mas vivas, de uma vida remitente e agora mais poderosa, depois das grandes batalhas que não somente assistimos, porque delas também participamos. (Se as coisas tivessem corrido do outro modo, nos Apeninos, não estaríamos hoje aqui recebendo esse papelzinho simbólico que nos habilitará a escolher nossos dirigentes, orientar nossa vida, arranjar nossos negócios gerais).
Resta agora saber o uso que faremos de ti, amigo papel. É tão simples, tão impessoal em teus dizeres manuscritos, de uma letra feminina que me esforço por interpretar (que bela morena te preencheu, aplicada, medrosa de afundar na lagoa ortográfica, e ao mesmo tempo aflita para chegar à hora do amor?), tão isento de faccionismo e cálculo que eu teria pena de te ver aproveitado para fins personalistas ou baixas combinações de interesses.
Arma delicada, posta em mãos que há muito não te exercitam, é preciso recordar-te o fundamento, medir-te o alcance e, sobretudo, usar-te com propósito. Tenho vontade de gritar aos meus irmãos de fila, porque não há apenas essa pequena fila do cartório de Copacabana, o Brasil inteiro é hoje uma fila à porta das eleições. Não desperdicem os seus votos. E, claro, que cada um de vocês poderá fazer do voto que bem entenda, guiado pelos cabos eleitorais ou por sua própria consciência política. O mesmo com seu dinheiro, seus objetos e propriedades e até sua vida.
Mas presume-se que o eleitor queira acertar e, nesse caso, esteja atento. Há em redor homens desatinados, ou que fingem sê-lo, convocando os homens calmos para o mesmo desvario. Há o mau emprego das boas palavras, a promessa erigida em medicamentoso polivitamínico, a glorificação pessoal do lugar da exposição de ideias, o ataque personalista em vez da crítica objetiva, a demagogia, a ilusão e a mágica. Todos esses perigos rondam o voto, espreitam-no.
Ora, a eleição não resolve por si mesma nenhum problema, se não for uma eleição consciente, preparada por uma vasta campanha de esclarecimento popular em que programas e diretrizes sejam medidos, pesados, esquadrinhados e dissecados; em que não se procura simplesmente obter um resultado imediato, uma simples substituição de nomes com a permanência dos mesmos vícios e mitificações dos velhos males sociais e econômicos, mas antes alguma coisa mais orgânico e vitalizante, que seja de fato um passo à frente para a democracia e para o bem-estar de nossa gente.
Os mais velhos correm o menor risco de enganar-se. Eles assistiram a outras lutas eleitorais. Viram o resultado delas. As grandes palavras retumbaram pelo Brasil afora, na boca dos candidatos diferentes na roupa e iguais no conservantismo, e depois foram amortecendo e, empossado, o presidente eleito, (a tiro ou à fraude, não importa), eram recolhidas ao depósito, mas voltavam nas vésperas de outra eleição.
Estamos assistindo agora à volta das palavras, verdade seja que estão um tanto desmoralizadas e os acontecimentos internacionais bem com o amadurecimento político do nosso homem do povo, já não lhes assegura o mesmo êxito entorpecente. Mas voltaram, estão enchendo os comícios, o rádio, os jornais, os muros, desprevenidos e apregoam-se as virtudes do cidadão X ou Y, como se apregoa o melhor remédio para prisão de ventre e o povo que se precavenha com essa farmácia cívica.
Que fazer então de ti, meu branco título de eleitor, onde as armas da república se esboçam ao fundo, num apelo ao patriotismo e ao bom senso de todos? É simples: não te pôr a serviço de homens. Colocar-te a serviço de ideia, das melhores ideias. Uma arma não se usa à toa. E és realmente uma arma, como não se cansa de lembrar aquele jovem partido que veio da perseguição e da luta e que em meio ao choque de ambições e ressentimentos propôs a solução lógica da Constituinte –, ou seja, um largo caminho para o futuro.
Irmão de fila, cuidado com o teu voto, não o estrague, nem o deixes perder-se na confusão, irmão brasileiro.
[Tribuna Popular (RJ), 16-10-1945. Fonte: BN-Rio – Pesquisa: Cristina Silveira]









