Autoridades de Itabira não podem ignorar os impactos sobre a saúde revelados pela dissecação da poeira por pesquisadores da Unifei/USP
Fotos: Carlos Cruz
Pesquisa científica identifica ferro, sílica, titânio, enxofre, vanádio, níquel, chumbo, arsênio, cádmio e cromo na poeira que polui a cidade. Pesquisadoras alertam para danos irreversíveis, riscos cardiorrespiratórios e neurodegenerativos
No encerramento da Semana do Ar, realizado na segunda‑feira (24) no auditório do campus da Unifei instalado no Distrito Industrial Maria Casemira Andrade Lage, em Itabira, foi apresentada pela pesquisadora e professora Rose-Marie Belardi a análise da composição química da poeira que polui a cidade, dissecada por fluorescência de raios X.
O estudo identificou, tanto na fração mais grossa (PM10) quanto na fração mais fina (PM2,5), elementos capazes de causar danos irreversíveis ao organismo, incluindo metais pesados cancerígenos e substâncias associadas a doenças respiratórias, cardiovasculares e neurodegenerativas.
Diante desse quadro, é urgente a necessidade de retomar os estudos epidemiológicos iniciados pela equipe do professor Paulo Saldiva no início deste século, e que não foram conclusivos, conforme explicou o especialista, para que Itabira compreenda plenamente os impactos da poluição atmosférica sobre saúde da população.
Danos são graves e podem ser irreversíveis

Conforme explicou a professora Rose‑Marie Belardi, os resultados da análise química da poeira de Itabira detectaram a presença de ferro, alumínio, silício, cálcio e titânio na fração PM10, elementos diretamente associados à atividade mineradora e à fragmentação das rochas ferríferas.
Na fração mais fina, o PM2,5, foram detectados enxofre, vanádio e níquel, provenientes da queima de combustíveis fósseis, inclusive da movimentação de equipamentos pesados de mina.
Essas partículas ultrafinas atingem os alvéolos pulmonares e entram na corrente sanguínea, podendo comprometer o coração. “Muitas pessoas morrem de infarto ou têm problemas cardíacos agravados e não sabem que pode estar ligado à poluição atmosférica”, afirmou.
A análise revelou ainda potássio, cloro e bromo, marcadores típicos da queima de biomassa, indicando que queimadas urbanas e rurais contribuem também significativamente para a composição da poeira.
A professora destacou que o manganês é neurotóxico e está associado ao desenvolvimento de doenças como o Mal de Parkinson, enquanto o enxofre, o vanádio e o níquel provocam doenças das vias aéreas superiores, como asma, rinite e bronquite.
Já o ferro, embora não seja tóxico isoladamente, atua como catalisador de reações químicas que geram estresse oxidativo nas células, agravando processos inflamatórios.
A pesquisadora alertou que metais pesados como chumbo, arsênio, cádmio e cromo, presentes tanto no PM10 quanto no PM2,5, são cancerígenos mesmo em pequenas concentrações – e têm caráter acumulativo no organismo. “Há danos que podem ser irreversíveis”, acentuou.
Estudos epidemiológicos precisam ser retomados com urgência
A gravidade dos resultados reforça a necessidade de dar continuidade ao estudo epidemiológico iniciado pela USP – e que não foi conclusivo, assim como as condicionantes estabelecidas para esse fim pela Licença de Operação Corretiva (LOC), concedida pelo órgão ambiental estadual no ano 2000.
A pesquisa foi realizada pela equipe do professor Paulo Saldiva. E apontou a necessidade de investigar a incidência de doenças cardiorrespiratórias em Itabira, cuja ocorrência pode ser agravada pela exposição contínua às partículas de minério em suspensão.
Com a análise química revelando a presença de metais pesados e elementos tóxicos, a retomada desse estudo se torna ainda mais urgente.
Responsabilidade municipal com a saúde pública
Diante da dissecação científica da poeira de Itabira, prefeito, vereadores, secretarias de Meio Ambiente e Saúde, Codema, Conselho Municipal de Saúde, sindicatos, Ministério Público não podem continuar indiferentes.
A análise apresentada pela Unifei e pela USP revelou uma composição química perigosa, com metais pesados e partículas finas capazes de causar danos irreversíveis – e isso não pode ser ignorado por quem tem obrigações constitucionais de zelar pela saúde da população.
Com esses dados agora públicos, não há mais espaço para omissão. Cabe ao poder público municipal exigir a continuidade dos estudos epidemiológicos, revisar políticas de controle das emissões, melhorar e expandir o monitoramento da qualidade do ar e adotar medidas efetivas de controle da poluição e de proteção à saúde da população.
Monitoramento insuficiente e limites permissivos agravam o quadro

A também cientista e professora da Unifei, Ana Carolina Vasques, coordenadora do projeto ItabiraAR, lembrou que a rede automática de monitoramento da qualidade do gerida pela própria Vale, principal emissora de particulados da cidade, é limitada e não reflete a realidade da poluição em toda a cidade.
É que as quatro estações existentes não cobrem toda a área urbana, deixam regiões críticas sem medição e monitoram apenas material particulado, sem registrar gases como ozônio, NOx e SO₂, essenciais para modelar a dispersão dos poluentes.
“Não há como modelar adequadamente a dispersão dos poluentes sem medir gases”, afirmou.
Além disso, ela destacou que algumas estações estão cercadas por vegetação, o que interfere na dispersão e pode reduzir artificialmente as concentrações medidas, criando uma falsa sensação de conformidade.
A pesquisadora defendeu que Itabira avance para o padrão intermediário 3 antes de 2033, que é a data estabelecida pelo Conama para seguir a redomendação do STF com base nas novas recomendações da OMS, como já fez ao adotar o padrão intermediário 2 antes da resolução Conama 506/2024.
“Não faz sentido esperar até 2033 para adotar limites mais protetivos quando já sabemos que os atuais são insuficientes”, disse.
Ela apresentou dados mostrando que, durante ondas de calor registradas em 2023, houve picos simultâneos de PM2,5 e aumento de internações por infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral. “O efeito combinado da poluição com a onda de calor é mais nocivo do que cada fator isolado”, explicou.
Condicionantes não cumpridas e a urgência de rever políticas públicas
Também foi lembrado que condicionantes da LOC 2000, estabelecidas para melhorar o controle da qualidade do ar em Itabira, não foram cumpridas integralmente.
O corredor verde entre as minas, a ferrovia e a cidade, previsto para reduzir a dispersão de particulados, permanece incompleto e distante do padrão necessário para cumprir sua função.
Além disso, o estudo epidemiológico das doenças respiratórias iniciado pela USP, que deveria avançar para a etapa mais sensível, que vem a ser a correlação entre poluição atmosférica e internações cardiorrespiratórias, não teve continuidade.
Sem essa investigação, Itabira permanece sem respostas essenciais sobre os impactos da poeira na saúde de sua população.
Com isso, torna‑se inadiável aprofundar a relação entre a poluição e o adoecimento cardiorrespiratório em Itabira. Assim como é urgente rever políticas públicas para proteger a população dessa poluição atmosférica, agora com os dados que a ciência já demonstrou com clareza.
Responsabilidade compartilhada, mas não igual
Ao final do encontro, o engenheiro florestal e professor da Unifei, Gláucio Marcelino Marques, que coordenou o debate, sintetizou o espírito da discussão ao afirmar que responsabilidade de todos só faz sentido se cada “todos” tiver nome.
Os nomes foram relacionados. São os moradores que queimam lixo, proprietários que acumulam material combustível e fazem queimadas, são os piromaníacos que ateiam fogo pelo prazer de ver o mato seco arder em chamas.
São também os gestores que precisam avançar no plano de arborização, brigadistas que combatem queimadas e incêndios diários, pesquisadores que produzem dados.
E, sobretudo, a responsabilidade é da mineradora Vale, maior emissora de particulados da cidade, com automonitoramento questionado e condicionantes pendentes. “Responsabilidade compartilhada não é responsabilidade igual”, ressaltou o professor da Unifei.
Itabira agora sabe o que respira e a sua composição. Sabe que a poeira contém metais pesados, elementos tóxicos e partículas finas capazes de causar danos irreversíveis. A ciência já mostrou o risco. E sabe também que a administração municipal precisa agir com urgência para proteger a saúde da população.









