Fiuk expõe medo de diagnóstico de autismo na vida adulta e reacende debate sobre camuflagem social e estigma

 

Neurologista Matheus Trilico explica por que adultos interrompem a investigação diagnóstica, alerta para a banalização do TEA e detalha impactos da camuflagem ao longo da vida

O relato do cantor e ator Fiuk, que afirmou suspeitar estar no espectro autista e confessou não ter concluído a investigação diagnóstica por medo de ser visto de forma diferente, reacende uma discussão frequente entre adultos que buscam avaliação para o Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Em vídeo publicado em suas redes sociais na terça-feira (25), o artista disse ter iniciado o processo, mas interrompido por receio do julgamento de pessoas próximas.

Segundo o neurologista Matheus Trilico, referência em TEA e TDAH em adultos, o medo do diagnóstico funciona como uma barreira terapêutica.

Ele observa que muitos adultos abandonam a avaliação por receio do impacto nas relações familiares, profissionais e sociais. Para o especialista, o medo é legítimo, mas se torna prejudicial quando impede o acesso a informações que poderiam melhorar a qualidade de vida.

O médico ressalta que é essencial diferenciar sentir-se diferente de ser autista. Não se encaixar em grupos sociais ou ter uma personalidade considerada excêntrica não configura, por si só, um diagnóstico.

O TEA é uma condição do neurodesenvolvimento que exige critérios clínicos específicos, como déficits persistentes na comunicação e interação social, padrões restritos de comportamento e prejuízo funcional em múltiplos contextos, conforme o DSM-5-TR.

Trilico afirma que quando uma figura pública fala sobre autismo, abre-se uma oportunidade de informar corretamente milhares de adultos que vivem dúvidas semelhantes.

Ele alerta, porém, que reconhecer características que lembram o espectro não substitui avaliação clínica especializada.

Camuflagem social: quando atuar se torna estratégia de sobrevivência

Ao relacionar sua trajetória como ator à necessidade de esconder características autísticas desde a infância, Fiuk descreveu um fenômeno conhecido na literatura científica como camuflagem social.

Trata-se de estratégias para mascarar comportamentos autísticos e atender às expectativas sociais.

De acordo com Trilico, a camuflagem é um fator de risco para problemas de saúde mental e está associada a pior qualidade de vida.

Pesquisas em andamento na Universidade de São Paulo investigam se as taxas de camuflagem são mais elevadas no Brasil do que no Reino Unido devido às particularidades das normas sociais brasileiras.

O neurologista explica que “aprender a atuar para ser aceito” gera custo funcional alto. A camuflagem consome energia mental, provoca exaustão e aumenta o risco de ansiedade e depressão.

Para ele, o relato de Fiuk ilustra a sensação de viver interpretando um papel para se encaixar. O alívio de compreender esse processo é real, mas não resolve os prejuízos acumulados ao longo dos anos.

Pessoas que camuflam, afirma, geralmente não conseguem comunicar suas necessidades reais, o que gera colapsos internos invisíveis para quem está ao redor.

Estigma impede adultos de concluir a investigação diagnóstica

O neurologista observa que o Brasil enfrenta um cenário de subdiagnóstico severo em adultos.

Um estudo publicado na Revista de Psicologia e Saúde em Debate (2026) aponta que a resistência ao diagnóstico é motivada por medo, estigma e desconhecimento. Pesquisas de Paula e colaboradores (2020), na revista Autism, confirmam que o estigma é um desafio compartilhado em toda a América Latina.

Dados do Censo Demográfico de 2022 mostram prevalência de TEA de 2,6% em crianças de 5 a 9 anos, mas apenas 0,3% em adultos com 30 anos ou mais, segundo estudo de Santos e colaboradores (2026).

Para Trilico, essa queda não reflete menor incidência, mas ausência de identificação. Ele afirma que o Brasil vive o fenômeno da “geração perdida”, semelhante ao descrito pelo King’s College London em 2025, que apontou que entre 89% e 97% dos adultos autistas com 40 anos ou mais permanecem sem diagnóstico no Reino Unido.

O neurologista relata que muitos adultos atendidos passaram décadas sem compreender suas dificuldades específicas e, ao receberem o diagnóstico, vivenciam alívio e luto pelo tempo perdido.

O custo emocional de parecer o que não se é

A frase de Fiuk — “cansei de parecer o que eu não sou” — sintetiza o esgotamento produzido pela camuflagem.

Trilico explica que não se trata de escolha estética, mas de esforço cognitivo contínuo para sustentar comportamentos que não correspondem ao funcionamento natural do cérebro.

Quando esse esforço cessa, surge alívio, mas as relações construídas sob camuflagem podem sofrer abalos. Para o neurologista, buscar compreensão da própria neurodivergência é um ato de responsabilidade interpessoal.

Sem diagnóstico, a pessoa não comunica suas necessidades de forma clara, o que sobrecarrega cônjuges, familiares e colegas de trabalho. A avaliação clínica permite reorganizar o entorno de maneira mais saudável.

Por que o autodiagnóstico não substitui avaliação clínica

Trilico reforça que suspeita e diagnóstico são etapas distintas. A suspeita é ponto de partida, mas o diagnóstico exige entrevista clínica detalhada, história do desenvolvimento e verificação de prejuízo funcional.

Ele alerta para o movimento de romantização do autismo nas redes sociais, que apresenta características como superpoderes ou dons.

Segundo o neurologista, essa narrativa invisibiliza o sofrimento real de adultos que enfrentam dificuldades para manter empregos e autonomia.

Características como foco intenso podem vir acompanhadas de exaustão, hipervigilância e alterações sensoriais que interferem no cotidiano.

O diagnóstico, afirma, é ferramenta clínica para estratégias de melhora, não rótulo identitário.

Estudos de Sukiennik e colaboradores (2022) e Do Nascimento Marques e colaboradores (2025) destacam a importância de profissionais especializados e instrumentos validados para a população brasileira.

Trilico afirma que o próximo passo para quem se identifica com o relato de Fiuk é buscar avaliação estruturada, incluindo exclusão de outras condições que podem mimetizar o espectro.

“O diagnóstico não muda quem a pessoa é, mas oferece uma lente para entender por que certas coisas sempre foram difíceis. A partir dessa compreensão, é possível construir estratégias que respeitem o funcionamento real do indivíduo, sem máscaras exaustivas”, conclui o neurologista.

 

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