Ministério Público Eleitoral pede impugnação da candidatura de Eduardo Cunha
Eduardo Cunha faz uso da palavra em culto evangélico em Itabira, utilizando a Bíblia como instrumento de sua campanha eleitoral
Foto: Reprodução
Ex-deputado cassado por corrupção tenta se reinventar em Minas pelo Republicanos, mas enfrenta acusações que podem barrar sua volta à política
Os correligionários e apoiadores bolsonaristas de Itabira que abraçaram a exdrúxula e oportunista candidatura de Eduardo Cunha (Republicanos) a deputado federal podem ficar “viúvos” antes mesmo da campanha eleitoral começar.
É que sua candidatura corre risco de não ser homologada, uma vez que o Ministério Público Eleitoral (MPE) pediu a impugnação de seu registro ao Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG), que intimou Cunha a prestar esclarecimentos em até sete dias.
O ex-presidente da Câmara já esteve em Itabira em pelo menos três ocasiões, sempre recebido por pastores da Assembleia de Deus e pelo empresário Wilson Campos, candidato a deputado estadual pelo Republicanos, com apoio de parte da direita itabirana, que se divide em múltiplas candidaturas.
Acusações e histórico de condenações
Cunha foi cassado em 2016 por quebra de decoro parlamentar, após ser acusado de mentir sobre contas secretas na Suíça. Pouco depois, foi preso pela Operação Lava Jato e condenado por corrupção e lavagem de dinheiro, com penas que somaram mais de 15 anos.
Em 2019, sofreu nova condenação por improbidade administrativa em ação civil pública na 10ª Vara de Fazenda Pública do Rio de Janeiro, que determinou a suspensão de seus direitos políticos por oito anos.
Embora tenha conseguido liminar em 2022 para recuperar temporariamente seus direitos políticos, a decisão foi posteriormente revogada, mantendo sua inelegibilidade até 2027.
O MPE sustenta que, por força da lei, Cunha não pode disputar eleições antes desse prazo.
Além do pedido do Ministério Público, há também uma ação de impugnação apresentada pela vereadora Roberta Lopes (PL), de Juiz de Fora, reforçando a pressão contra sua candidatura.
Candidatura paraquedista em Minas Gerais

Após fracassar em São Paulo em 2022, quando obteve apenas 5.044 votos, Cunha transferiu seu domicílio eleitoral para Belo Horizonte em 2025 e teve sua candidatura homologada pelo Republicanos em convenção estadual neste ano.
Sua estratégia tem sido buscar apoio em igrejas evangélicas e rádios religiosas, como a Rede Maravilha FM, sediada no Triângulo Mineiro.
Em Itabira, participou de cultos da Assembleia de Deus, subindo ao púlpito ao lado de pastores e líderes locais, numa tentativa de se aproximar do eleitorado religioso evangélico.
A presença de Cunha em cultos gerou desconforto entre fiéis que não concordam com o uso político da igreja.
Investigações recentes e reincidência no modus operandi
Mesmo sem mandato, Cunha voltou a ser alvo da Polícia Federal. É acusado de manipular a destinação de emendas parlamentares, beneficiando 29 municípios mineiros com mais de R$ 6 milhões em recursos para saúde.
O esquema envolvia servidores da Câmara e deputados aliados, que formalizavam as indicações como se fossem próprias, mas na prática atendiam às ordens de Cunha.
Em julho de 2026, o ministro Flávio Dino, do STF, determinou o bloqueio de R$ 6,15 milhões de seus bens e suspendeu a execução das emendas sob suspeita.
Esse modus operandi repete práticas que marcaram sua carreira, fundada na política de bastidores, manipulação de votações e uso de recursos públicos como moeda política.
Foi assim que articulou o impeachment golpista de Dilma Rousseff em 2016 e é dessa forma que tenta se reerguer agora em Minas Gerais.
O risco para Itabira
A chegada de Cunha e de outros paraquedistas, somada à histórica divisão entre os políticos locais, coloca Itabira diante do risco de repetir a mesma história de ficar sem representantes próprios.
A última vez que o município conseguiu eleger simultaneamente um deputado estadual e um federal foi em 1988, com Luiz Menezes (PFL) e Li Guerra (PDT).
Desde então, a pulverização dos votos tem impedido a consolidação de lideranças locais, agravada pelo baixo recall das candidaturas à direita, em sua maioria figurantes, meros balões de ensaio para a eleição municipal de 2028.
Na legislatura passada, Bernardo Mucida (ex-PSB, agora no Avante) assumiu vaga como suplente em 2021, mas não se reelegeu em 2022.
Agora tenta uma vaga de deputado federal, enfrentando novamente a divisão de votos em sua principal base eleitoral, perdendo apoio à esquerda, mas buscando compensar com votos à direita.
Se até recentemente parecia que Itabira só teria candidaturas locais à esquerda, o cenário mudou com a entrada da primeira-dama Raquell Guimarães (Rede) como suplente ao Senado na chapa de Áurea Carolina (PSOL), e da advogada Núbia Citty (Rede) como candidata a deputada estadual.
Ambas reforçam a presença da federação PSOL-Rede e ampliam a participação feminina na disputa, trazendo novas alternativas de representação política para o município.
Perdas incomparáveis, mas previsíveis
Enquanto isso, Itabira enfrenta o desafio da exaustão gradual de suas minas de ferro e da necessidade urgente de construir alternativas econômicas sustentáveis.
Sem candidaturas locais viáveis eleitoralmente, continuará dependente de políticos de fora para defender suas demandas, que são históricas e invariavelmente postergadas.
A presença de Eduardo Cunha em cultos religiosos na cidade, e sua articulação com lideranças políticas e religiosas locais, mostra como os paraquedistas aproveitam a fragilidade política do município para angariar votos entre os incautos eleitores itabiranos.









