Abastecimento de água em Itabira segue vulnerável apesar do discurso otimista do Saae, mesmo com o El Niño
Reservatório da Pureza praticamente secou com a estiagem de 2025, que pode ser repetida neste ano, mesmo com previsão otimista da autarquia responsável pelo abastecimento na cidade
Foto: Divulgação/ Ascom/Saae
Release da autarquia anuncia avanços no monitoramento, mas realidade hídrica expõe dependência da Vale e fragilidades históricas
O Serviço Autônomo de água e Esgoto de Itabira (Saae) divulgou recentemente um comunicado reforçando medidas de planejamento e monitoramento para enfrentar a estiagem de 2026. Entre as ações estão o Boletim Operacional da Estiagem, o Plano de Emergência e Contingência e o acompanhamento contínuo dos mananciais Pureza e Gatos.
Otimista, a autarquia afirma que o cenário atual é mais favorável em relação a 2025, quando a cidade decretou Situação de Emergência Hídrica. E garante que não há risco imediato de desabastecimento. Será?
Essas iniciativas podem representar avanços com a ampliação da transparência e a capacidade de resposta aos moradores afetados por eventuais desabastecimentos, principalmente nos bairros mais vulneráveis, como têm ocorrido em Itabira há mais de 30 anos.
Mas o tom otimista do Saae contrasta com a realidade hídrica da cidade e com as previsões meteorológicas para este ano.
Isso porque o El Niño, fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, altera os padrões de circulação atmosférica em escala global.
No Brasil, especialmente em Minas Gerais, esse aquecimento provoca estiagens prolongadas, chuvas irregulares e temperaturas acima da média. Historicamente, em anos de El Niño, os veranicos se tornam mais frequentes e intensos, comprometendo ainda mais a recarga dos mananciais e a regularidade do abastecimento.
Além disso, o El Niño deste ano deve ser mais severo que o do ano passado, com probabilidade acima de 90% de se manter até o início de 2027 e atingir intensidade forte a muito forte.
No caso de Itabira, o impacto pode ser ainda mais severo. É que os sistemas Pureza e Gatos, que já operam com recursos escassos, sofrem diretamente com a redução da vazão e a irregularidade das chuvas.
A estiagem prolongada diminui a capacidade de armazenamento e acelera o esgotamento dos reservatórios, como já ocorreu em 2024 e 2025, quando o reservatório chamado “Milhão”, o principal para o abastecimento na cidade, chegou a zerar.
Sem a transposição do rio Tanque, cujas obras somente devem ser concluídas no final de 2027, qualquer prolongamento da seca coloca em risco imediato a segurança hídrica da população, mesmo com a mineradora Vale sendo obrigada a fornecer 160 litros por segundo (l/s) como reforço para o sistema de abastecimento na cidade.
Crises recorrentes e mananciais frágeis
Os sistemas Pureza e Gatos, mesmo com recursos escassos há anos, continuam sendo os pilares do abastecimento urbano.
Mas sem novos investimentos estruturantes, e mesmo com a ampliação da ETA Gatos, mas sem recursos hídricos viáveis disponíveis, uma vez que análises posteriores impediram captação na barragem Santana, pela má qualidade da água altamente contaminada por excesso de manganês, esses mananciais permanecem vulneráveis.
Em 2024 e 2025, bairros inteiros ficaram sem água por semanas, obrigando rodízio e captação emergencial. Em dezembro de 2025, diversos bairros ficaram sem abastecimento em diferentes momentos e por períodos prolongados.
Esses episódios mostram que, mesmo com todas as atuais estações operando em capacidade máxima, o que não é o caso em período de estiagem, o sistema não suporta estiagens prolongadas.
O Saae anuncia avanços no monitoramento, mas ainda sem a água do rio Tanque, nada justifica o tom otimista do release divulgado pela autarquia. A vulnerabilidade hídrica na cidade permanece.
E é preciso deixar claro, transparente, informar a população que ainda é grande o risco de desabastecimento de água neste ano na cidade.
E também no próximo ano, pelo menos até que a água do rio Tanque chegue para abastecer a cidade. E com excedente para servir como atração de novas indústrias para diversificar a economia local.
O TAC do Rio Tanque e a dívida histórica da Vale
A solução definitiva para o histórico desabastecimento na cidade foi condicionante da Licença de Operação Corretiva (LOC) de 2000, mas só começou a sair do papel em 2020, com a assinatura do Termo de Ajustamento de Conduta que obriga a mineradora a cumprir a sua obrigação, por deixar a cidade sem os seus principais mananciais, monopolizados pela mineração.
O projeto prevê a captação de 600 l/s, mas apenas no final de 2027 a água deve chegar às torneiras itabiranas. Além disso, ainda persiste a dúvida sobre quem arcará com o custo energético dessa transposição: se a Vale ou a população.
Pelo TAC firmado, a mineradora deveria assumir esse custeio caso viesse a utilizar parte do recurso. No entanto, com a adoção da mineração a seco, que reduz a demanda por grandes volumes de água, e sem a obrigação de manter o fornecimento de 160 l/s como reforço ao sistema, a empresa busca se eximir dessa responsabilidade.
Trata-se, porém, de uma obrigação legal, moral e histórica. Afinal, foi a própria Vale que obriga Itabira a buscar água a mais de 30 quilômetros de distância, enquanto retém para si a água de classe especial ainda existente na Serra do Esmeril e dos aquíferos locais.
Esses aquíferos chegaram a ser prometidos pela mineradora como legado para a cidade após a exaustão das Minas do Meio, mais uma promessa entre tantas que não vai se tornar realidade, mais uma perda incomparável causada pela mineração.
A justificativa da mineradora para o atraso da transposição da água do Rio Tanque foi de que haveria sobra hídrica com a exaustão das minas do Meio, com a disponibilidade de águas subterrâneas dos aquíferos, o que não se realizou, figurando como mais uma promessa não cumprida pela mineradora. Serviu apenas para adiar a transposição de água do Tanque.
Reforço necessário
Enquanto não chega a água do rio Tanque, a Vale continua obrigada pelo TAC firmado com o Ministério Público de Minas Gerais a fornecer 160 l/s para reforçar o sistema, justamente para não agravar ainda mais o abastecimento na cidade.
Esse volume representa quase a metade da demanda atual urbana, que é de 400 l/s. Isso enquanto a Vale detém 75,25% das outorgas de uso da água em Itabira, ficando apenas 19,18% destinados ao consumo humano na cidade. Essa é a principal causa pela escassez hídrica que tanto atormenta a população, principalmente na estiagem.
Otimismo do Saae mascara a vulnerabilidade

O Saae cumpre seu papel ao reforçar o monitoramento e a comunicação com a população.
Mas não há razão para manter um discurso de normalidade quando o abastecimento depende de mananciais frágeis e da boa vontade da Vale em cumprir obrigações atrasadas há décadas.
Além disso, o otimismo da autarquia mascara a vulnerabilidade estrutural dos atuais mananciais que abastecem a cidade.
Enquanto não forem concluídas as obras de captação, adução e tratamento da água do rio Tanque, Itabira continuará refém de crises hídricas recorrentes e da disputa desigual pelo uso da água entre a mineração e a população.
O El Niño é mais um agravante dessa realidade, e que não pode ser ignorado pelos gestores responsáveis pelo abastecimento na cidade.

Serviço
O Saae informa que os moradores podem acompanhar os boletins da estiagem e registrar reclamações ou ocorrências diretamente pelos canais oficiais:
- Telefone: 115
- Site institucional: saaeitabira.com.br
- Aplicativo de atendimento disponível para Android e iOS
- Novo canal digital via WhatsApp: mande um “oi” para 31 3839-1345 e tenha acesso a segunda via de conta, histórico de consumo, leituras e atendimento humano, de forma simples e rápida, a qualquer momento.









