Querelas, de Genin Guerra, em exposição no Centro Cultural, é um convite à reflexão sobre Itabira e a mineração, diz Marco Antônio Lage

Arte: Genin

Em entrevista, o prefeito fala sobre consciência política, a dívida histórica da mineração e o projeto Itabira Sustentável; mais do que nunca é valida a provocação de Lenine: “o que fazer?”, para a cidade enfim romper com a letargia que a mantém paralisada há mais de um século

Carlos Cruz

A arte existe para provocar, abrir feridas e expor cicatrizes. Para fazer pensar e discutir. Para avançar, como a utopia.

Como escreveu Vladimir Maiakóvski na revista LEF (Levyi Front Iskusstv – Frente de Esquerda das Artes), publicada em Moscou nos anos 1920, “a arte não é um espelho para refletir o mundo, mas um martelo para forjá-lo.”

Pois é o que se observa na exposição Querelas, aberta na noite de quinta-feira (16), de Luiz Eugênio “Genin” Quintão Guerra, no Centro Cultural de Itabira, como parte da programação do 52º Festival de Inverno, da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade.

As novas paisagens na parede
Marco Antônio Lage acredita no avanço das negociações com a Vale para implementar projetos de curto e médio prazo do programa Itabira Sustentável (Foto: Carlos Cruz)

Em entrevista à Vila de Utopia, após abertura da exposição, o prefeito Marco Antônio Lage (PSB) falou sobre o papel da arte como consciência política. “É uma exposição belíssima, mas também politizada. Ela expõe Itabira diante de sua face que não pode ser esquecida. É consciência política.”

Lage defendeu que todas as crianças da rede municipal visitem a mostra. “É preciso olhar todo dia para essa face de Itabira. É preciso que cada itabirano entenda a dimensão da mineração, sua importância, mas também seus impactos negativos.”

É o que mostra em cores o artista plástico itabirano, que se reinventa sempre, agora como aquarelista, expondo em quadros as veias abertas da cidade.

Coração dilacerado: Genin Guerra transforma a dor e a exaustão em arte e consciência política através da delicadeza da aquarela (Foto: Divulgação/Genin)

E o artista revela o coração doente, a cava aberta dentro do peito, a moldura mineral que sufoca a paisagem e a vida na Cidadezinha Qualquer.

Trata-se da mesma Vila de Utopia de 1933 revisitada por Carlos Drummond de Andrade – que ainda não se reinventou, presa à letargia que a consome há mais de um século, que se mantém paralítica, de “braços cruzados” antes mesmo ter início, em 1942, a exploração em larga escala de sua hematita compacta.

Era a hematita compacta mais rica que havia na província mineral de Minas Gerais. Um minério símbolo da abundância que sustentou a exportação inicial para além-mar – e que se desmanchou no ar como tudo que era sólido, mas como parte também, ainda hoje, das partículas em suspensão que poluem o ar rarefeito de Itabira.

Foi assim, e ainda é assim, como toda riqueza fácil, que se esgota rapidamente. Restam à cidade apenas o vazio das cavas, alguns poucos itabiritos friáveis e compactos – e a dívida histórica eterna da mineração, que se não for paga um dia, virá mesmo a derrota incomparável.

Drummond foi atacado pela elite econômica, acusado de não gostar de Itabira por denunciar a Vale
O maior trem do mundo/Leva minha terra/Para a Alemanha/Leva minha terra/ Para o Canadá/(..)/ O maior trem do mundo transporta a coisa mínima do mundo/ Meu coração itabirano/Lá vai o trem maior do mundo/Vai serpenteando, vai sumindo/E um dia, eu sei não voltará/ Pois nem terra nem coração existem mais. Carlos Drummond de Andrade (Arte: Divulgação/Genin)

O prefeito lembrou que Drummond foi injustamente retratado como alguém que não gostava de Itabira. Mas a briga do poeta não era com a cidade. Era com a mineração que retornava, como ainda retorna muito pouco para o município.

Drummond denunciou em crônicas e poemas a exploração sem retorno. Em Vila de Utopia, crônica já citada, descreveu Itabira como “cidade paralítica”, presa à sua letargia histórica, incapaz de avançar ou recuar, mas que cuja permanência revelava também força e resistência.

Já na crônica Só isso, publicada em 1964 no Jornal do Brasil, apoiado em dados fornecidos pelo tributarista José Hindemburgo Gonçalves, Drumonnd cobrou da Vale e do mundo a dívida histórica com Itabira.

É que o minério de Itabira abasteceu a indústria bélica na Segunda Guerra Muncial, assim como também a recuperação da Europa no pós-guerra, sem que o município recebesse um único centavo em impostos ou compensações financeiras pela exploração mineral. A mineração só passou a pagar impostos a Itabira com o IUM, promulgado em 1966, mas só regulamentado em 1969.

Na visita que fizemos ao poeta no Rio, em 14 de fevereiro de 1981, o poeta foi claro ao dizer que nunca se afastou de Itabira. E que a sua briga era com a Vale, por não cumprir o seu estatuto de fundação. “A sua sede era para ser instalada em Itabira, nunca no Rio, conforme está em seu estatuto de fundação”, nos disse Drummond, contando uma de suas “brigas” com a então CVRD.

Calçadas de hematita do centro histórico foram entregues à Vale em pagamento de dívida
“Tudo que é sólido desmancha-se no ar”, a exemplo do que aconteceu com a antiga Cadetral de Itabira, em 1970, tombada pela incúria humana (Arte: Divulgação/Genin)

Além da hematita do Cauê, não foi só ela – e a alma – que Itabira entregou à Companhia Vale do Rio Doce. Em 1959, a Prefeitura autorizou a venda das calçadas de hematita do centro histórico para a Vale, em pagamento de dívidas.

As pedras, com mais de 70% de ferro, foram parar nos Estados Unidos e na Europa. E Itabira perdeu seu calçamento único no mundo, substituído pelo asfalto, que representava o desenvolvimentismo da época.

Foi assim, com mais essa perda incomparável, que a cidade foi perdendo a sua identidade mineral até nas ruas históricas, mais um símbolo da espoliação.

Esse episódio serve hoje para ilustrar a cobrança que o município ainda faz, meio timidamente e até aqui sem a força necessária para fazer valer seus direitos históricos.

É nesse ponto que o prefeito Marco Antônio Lage insiste, dizendo que é preciso transformar memória em ação. E o caminho começa pela revitalização do centro histórico.

Itabira Sustentável: planejamento e estratégia
Paisagem de Itabira dilacerada pela mineração: Querelas é testemunho visual em aquarelas das veias abertas da cidade, transformando memória e crítica em arte (Arte: Divulgação/Genin)

Para isso, é preciso centrar forças no programa estratégico Itabira Sustentável, que reúne 61 projetos, distribuídos em 15 eixos estratégicos: educação, saúde, mobilidade, meio ambiente, economia criativa, saneamento e diversificação econômica.

Foi lançado em 2023 com pompa e circunstância, mas apenas parte dos recursos está assegurada, menos de 10% do total previsto.

“Agora há planejamento, técnica. Não tem mais desculpa”, disse o prefeito, sustentando que não procede mais o argumento que a mineradora usava de que não investia em Itabira por falta de projetos consistentes e viáveis.

O plano prevê cabeamento subterrâneo, nova iluminação, reforma das redes de esgoto e drenagem, além de restauro de casarões.

O investimento é estimado em R$ 56 milhões, mas apenas parte está assegurada pela Vale para ser alocado entre 2026 e 2029.

“Pelo menos uma fase (do projeto de revitalização do centro histórico) devemos executar ainda em nossa gestão, o restauro do antigo hospital Nossa Senhora das Dores, o cabeamento subterrâneo nas ruas Tiradentes, Major Paulo, Lago do Batistinha”, disse o prefeito.

Novo Distrito Industrial e Avenida Parque

Outro projeto do programa Itabira Sustentável, o novo condomínio industrial, previsto para ser instalado na antiga fazenda Palestina, tem investimento estimado em R$ 131 milhões. Até agora, porém, a Vale só se comprometeu com a doação do terreno.

Marco Antônio Lage ressaltou que o Distrito Industrial é estratégico para o futuro da cidade, pois representa a possibilidade de diversificação econômica e redução da dependência da mineração.

Segundo ele, o município já fez sua parte ao estruturar os projetos, com apoio técnico da consultoria Arcadis, contratada pela Vale. “Agora há planejamento e técnica. Não tem mais desculpa”, disse, lembrando que a mineradora sempre se esquivou dos compromissos com Itabira alegando falta de projetos viáveis.

Lage detalhou que o condomínio industrial terá 43 lotes, divididos em etapas. A primeira etapa inclui a infraestrutura viária, áreas comuns e cerca de 20 terrenos já preparados para receber empresas.

Ele acredita que essa fase inicial será concluída até o fim de seu mandato, em dezembro de 2028. As etapas seguintes contemplarão os demais lotes e a expansão da estrutura.

O programa Itabira Sustentável inclui também o projeto da Avenida Parque, ligando a rua Santana à Prefeitura, entre as avenidas Carlos Drummond de Andrade e Carlos de Paula Andrade.

O projeto prevê a revitalização do canal,  sem fechamento, por exigência ambiental, além de saneamento e criação de um espaço público integrado.

Ao ser indagado se esse projeto também seria concluido em seu mandato, respondeu evasivamente. “É possível. Mas precisamos de recursos”, disse o prefeito.

A cava exaurida do Cauê, acima de Itabira, retratada pelo artista: cicatriz mineral transformada em memória e denúncia histórica (Arte: Divulgação/Genin)
Orçamento e responsabilidade

Embora Itabira disponha para o próximo ano de um orçamento vultoso, previsto em R$ 1,14 bilhão, a maior parte é “verba carimbada”, destinada para educação, saúde e folha de pagamento.

Apenas uma fração menor, proveniente de recursos tributários, é de livre aplicação. E esse percentual tem caído ano após ano com a redução da produção de minério de ferro.

“Investimentos estruturantes têm que vir da Vale. É compensação. É legado. É dívida histórica, moral, social, cultural, ambiental”, afirmou Lage, que espera avançar nas negociações com a mineradora para viabilizar os projetos de curto e médio prazo desde já – e assim impedir que Itabira sofra mais uma derrota incomparável.

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