Trabalho de conclusão em Jornalismo ressalta o papel do jornal O Cometa na difusão da crítica de Drummond à mineração
A turma do Cometa em visita ao poeta, em uma manhã de sábado luminoso, 14 de fevereiro de 1981, véspera de Carnaval
Foto: Humberto Martins/ Acervo O Cometa
Pesquisa da formanda Maria Elisa Penna Andrade evidencia a cumplicidade entre o poeta e o jornal, reafirmando seu vínculo afetivo com Itabira
Carlos Cruz
“Às vezes fico achando que sou uma invenção de vocês. Que eu não existiria se o Cometa não badalasse a minha existência, dando-me verossimilhança, forma, credibilidade…”.
Esse trecho é de autoria de Carlos Drummond de Andrade em carta publicada no jornal O Cometa Itabirano e recuperada no trabalho de conclusão de curso da jornalista itabirana Maria Elisa Penna Andrade, intitulado Carlos Drummond de Andrade nas páginas do Cometa Itabirano: memória, território e mineração (UFV, 2025),
Para a autora, esse registro revela não apenas a cumplicidade entre o poeta e o periódico, mas também o compromisso de ambos com a luta por direitos que Itabira nunca viu plenamente realizados.
“O Cometa Itabirano transformou Drummond em referência editorial, ícone de resistência e mediador crítico das tensões entre território, memória e mineração”, afirma Maria Elisa em sua monografia
“Ao publicar poemas inéditos e cartas, o jornal projetava a denúncia de Drummond e, ao mesmo tempo, reafirmava seu pertencimento à cidade natal, desmontando o mito de rejeição a Itabira”, observa.
O que se depreende desse intercâmbio e dessa cumplicidade com o jornal, portanto, não é uma reinvenção de sua imagem, mas a reafirmação de um Drummond comprometido com a defesa de sua terra natal.
E, por consequência, com a crítica à exploração mineral que corroía o território, a memória coletiva e o afeto do poeta por Itabira, preferindo guardar as boas lembranças da “fotografia na parede”.
O Cometa e a crítica de Drummond à mineração

Para desenvolver sua monografia, Maria Elisa Penna Andrade examinou 56 edições do Cometa Itabirano, publicadas entre 1979 e 1987. Nesse conjunto, identificou 163 textos que mencionam Carlos Drummond de Andrade, entre eles poemas inéditos, cartas enviadas ao jornal, crônicas e notas editoriais.
Ao publicar poemas com críticas proféticas em Lira Itabirana (“O Rio? É doce. / A Vale? Amarga. / Ai, antes fosse / Mais leve a carga”) e afiadas em O Maior Trem do Mundo (“Lá vai o maior trem do mundo / Vai serpenteando, vai sumindo / E um dia, eu sei, não voltará / Pois nem terra, nem coração existem mais”), o Cometa repercutia em Itabira a denúncia de Drummond contra a mineração “gulosa”, expressão usada pelo poeta em crônica publicada no Correio da Manhã, assinada sob o pseudônimo de Antonio Crispim.
Essa crítica, ao ser retomada pelo jornal O Cometa Itabirano, reforçava sua identidade editorial e aproximava o periódico da luta por direitos que nunca se concretizaram na cidade.
“O Cometa Itabirano transformou Drummond em referência editorial, ícone de resistência e mediador crítico das tensões entre território, memória e mineração”, observa Maria Elisa em sua monografia.
Para ela, o jornal não apenas dava visibilidade ao poeta em sua terra natal, mas também desmontava o mito de que ele não gostava de Itabira, mostrando que sua verdadeira disputa era com a Vale e com o modelo de exploração mineral adotado na cidade com a então estatal Companhia Vale do Rio Doce.
“Ao publicar poemas inéditos e cartas, o jornal projetava a denúncia de Drummond e, ao mesmo tempo, reafirmava seu pertencimento à cidade natal, desmontando o mito de rejeição a Itabira”, afirma a autora.
É nesse ponto que Maria Elisa destaca a relação de mão dupla: o jornal ganhava legitimidade ao se apoiar na voz de Drummond em suas críticas à mineração predatória, enquanto o poeta encontrava no Cometa um espaço de acolhimento e repercussão local.
Críticos chegaram a dizer que o periódico “gigolava” o poeta, mas a autora mostra que, mais do que se aproveitar de sua imagem, o jornal se tornava aliado de Drummond na crítica à mineração e na defesa da memória coletiva de Itabira.
O afeto e a colaboração de Arp Procópio

Tratando do mesmo objeto de pesquisa, mas por um ângulo diferente, na dissertação Palavra e terra de Carlos Drummond de Andrade em O Cometa Itabirano (PUC Minas, 2000), a professora Ângela Maria Vaz Sampaio Rosa analisa as cartas enviadas por Drummond ao jornal.
E também evidencia nelas o tom de proximidade e afeto que o poeta mantinha com “a turma do Cometa”. Para Ângela, essas correspondências revelam um Drummond que se sentia parte do projeto editorial do periódico, reconhecendo nele um espaço de acolhimento e cumplicidade.
A autora lembra que Arp Procópio de Carvalho, que foi aluno de Drummond no antigo Ginásio Sul-Americano, em Itabira, contribuiu bastante para essa aproximação do poeta com o jornal.
É verdade também que o jornal serviu de ponte para a reaproximação do ex-professor do Instituto Tecnológico da Aeronáutica, cassado pela ditadura militar, com o poeta, já com os dois residindo no Rio de Janeiro.
Essa relação pessoal que se firmou refletiu no jornal, uma vez que Arp foi um dos que mais divulgaram a obra drummondiana nas páginas do Cometa, contribuindo para uma maior aproximação entre o poeta e o periódico.
Drummond nunca brigou com Itabira
A professora, assim como faz a jornalista anos mais adiante, evidencia que a crítica do poeta se dirigia à mineração e às suas consequências econômicas, sociais e ambientais – e não à sua cidade natal.
É assim que ambas desmontam o mito da rejeição do poeta a Itabira e reafirmam o pertencimento do poeta à cidade, o que fica evidente nas páginas do jornal O Cometa Itabirano.
Se houve alguma briga, essa foi com a mineração. Este site Vila de Utopia republicou crônicas de Drummond no Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, disponibilizada e pesquisada por Cristina Silveira na Biblioteca Nacional – Rio, nas quais o poeta e cronista itabirano já denunciava os impactos negativos da mineração sobre sua cidade natal.
Textos como A montanha pulverizada e outros assinados pelo autor, e também sob o pseudônimo de Antonio Crispim, revelam que suas críticas antecedem o Cometa e atravessam décadas.
Ao publicar poemas inéditos e cartas no jornal itabirano, Drummond reforçava a mesma denúncia que já fazia em suas crônicas, mostrando que sua relação com Itabira era de pertencimento, apoio, reverência e memória, não de rejeição.
A memória que permenece
A análise de Maria Elisa e Ângela Sampaio mostra que o Cometa não apenas deu voz a Drummond em sua terra natal, mas também se consolidou como espaço de resistência cultural e política.
Essa cumplicidade continua viva hoje neste site Vila de Utopia, que preserva a memória crítica e afetiva do poeta com Itabira, republicando suas crônicas e reunindo artigos e reportagens de colaboradores sobre o mesmo tema.
Assino este artigo como testemunho e participante dessa história. Fui um dos fundadores e diretor-responsável pelo Cometa em sua fase inicial e, posteriormente, até o ano 2000. O jornal seguiu até o início da segunda década deste século, já sem minha participação.
Não posso ocultar isso dos leitores de ontem e de hoje — inclusive dos novos, que talvez ainda não conheçam esse legado de cumplicidade e afeto.
É parte de uma história que continua a ecoar entre o poeta, sua cidade natal e os conflitos persistentes com a mineração — espaços de memória e resistência. Que siga assim para sempre, “amém”, como diria o professor Arp Procópio.
Fontes:
- TCC de Maria Elisa Penna Andrade (UFV, 2025) Título: Carlos Drummond de Andrade nas páginas do Cometa Itabirano: memória, território e mineração Repositório da UFV (Locus): ufv.br – TCCs de Graduação
- Dissertação de Ângela Maria Vaz Sampaio Rosa (PUC Minas, 2000) Título: Palavra e terra de Carlos Drummond de Andrade em O Cometa Itabirano Link direto no repositório da PUC Minas: pucminas.br – Dissertação Ângela Sampaio









