Rompimento de barragem em Brumadinho: sete anos de dor, luta e impunidade
Foto: Antônio Cruz/ Agência Brasil
Famílias destruídas, turistas soterrados e um rio contaminado. A tragédia-crime segue sem justiça, impune
Neste domingo (25), é hora de não se esquecer de lembrar da tragédia-crime ainda sem punição, com o rompimento da Barragem 1 da mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, da mineradora Vale.
A estrutura, construída pelo método a montante, foi mantida de forma irresponsável acima de instalações industriais e do restaurante da própria empresa — e assim permaneceu, mesmo diante de advertências técnicas sobre o risco iminente de ruptura, ignoradas pela cúpula da companhia.
Sete anos se passaram desde que a estrutura cedeu, liberando milhões de metros cúbicos de rejeitos. A lama tóxica transformou-se em avalanche, varreu comunidades inteiras, atingiu trabalhadores, turistas e moradores, e contaminou o rio Paraopeba — um impacto permanente e continuado.
O mais grave: deixou 272 vidas interrompidas. Entre os mortos estavam empregados da Vale, trabalhadores terceirizados, moradores da região e turistas, como a família que havia viajado de São Paulo para conhecer o Instituto Inhotim, um dos maiores museus de arte contemporânea a céu aberto do mundo, localizado em uma mina desativada, em Brumadinho.

Esses turistas foram soterrados em pousadas próximas à barragem. Em entrevista à Agência Pública, Helena Taliberti, que perdeu os filhos Luiz e Camila, o pai deles, a nora grávida e a esposa do ex-marido, conta como transformou sua dor em militância.
Ela fundou o Instituto Camila e Luiz Taliberti, que atua em defesa da memória das vítimas e pela conscientização sobre os riscos da mineração, principalmente no estado de São Paulo. Na entrevista, Helena resumiu o sentimento de muitos: “Justiça não foi feita”.
Outros parentes também relatam como a vida foi interrompida. Viúvas descrevem a dificuldade de sustentar os filhos sem apoio, pais falam da ausência que nunca se preenche. Tudo isso enquanto moradores da região convivem com o medo constante de novas tragédias. O luto se mistura à indignação diante da lentidão da Justiça e da sensação de abandono.
Além do Instituto Taliberti, outras organizações mantêm viva a memória e a luta em Brumadinho. Entre elas estão a Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem da Vale (Avabrum), que reúne parentes em busca de justiça.
Há, ainda, o Memorial das Vítimas de Brumadinho, instalado na cidade como espaço de lembrança e resistência.
Também atuam a Associação dos Atingidos pelo Rio Paraopeba (Aparopeba) e o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), que denunciam a impunidade e cobram reparação integral.
O rio contaminado e a paisagem devastada

Embora a Vale apresente em seus relatórios resultados positivos da chamada recuperação e reabilitação ambiental, o que se observa no território atingido é uma situação bem diferente – uma realidade que não aparece nos documentos oficiais.
O rompimento não apenas matou centenas de pessoas, mas também comprometeu de forma duradoura o ecossistema da região. O rio Paraopeba continua contaminado por metais pesados, inviabilizando o consumo de água e afetando a fauna aquática.
Moradores relatam que o uso da água para irrigação e pesca permanece arriscado. Estudos independentes reforçam que os níveis de poluição seguem muito acima do aceitável.
Dessa forma, a recuperação ambiental é considerada incerta.
Especialistas afirmam que os danos podem se estender por décadas, já que a contaminação se infiltra no solo, nas nascentes e nos lençóis freáticos.
A vegetação nativa, em muitos pontos, não consegue se regenerar, e áreas antes férteis foram transformadas em terrenos áridos e instáveis.
A paisagem de Brumadinho, marcada pela lama tóxica, tornou-se símbolo da devastação provocada pela mineração sem controle.
É assim que o contraste entre os relatórios oficiais e o que se vê no cotidiano das comunidades atingidas reforça a percepção de que a reparação ambiental anunciada pela empresa está longe de corresponder à realidade vivida por quem permanece às margens do Paraopeba.
Justiça tarda e falha

Apesar das denúncias contra executivos da Vale, entre eles o então presidente Fábio Schvartsman, e contra técnicos da consultoria alemã TÜV SÜD, responsável por atestar a suposta “estabilidade” da barragem, os processos criminais seguem sem conclusão. A investigação apontou que havia laudos e alertas técnicos sobre o risco iminente de ruptura, mas mesmo assim a estrutura foi mantida em operação.
Em 2024, Schvartsman conseguiu um habeas corpus que suspendeu a ação penal contra ele, decisão firmemente contestada pelo Ministério Público. Desde então, o caso tem se arrastado nos tribunais superiores.
Em dezembro de 2025, a 6ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) já havia formado maioria parcial (2 votos a zero) para reabrir as ações penais contra o ex-presidente da Vale, acusado de homicídio qualificado e crimes ambientais, mas o julgamento foi novamente suspenso por pedido de vista, prolongando ainda mais a indefinição .
No âmbito estadual, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) determinou em novembro de 2025 uma nova audiência de contextualização, voltada à apresentação de resultados científicos preliminares sobre os impactos do desastre, reforçando a complexidade do processo e os atrasos nas fases preliminares .
Atualmente, 17 réus , sendo 15 pessoas físicas e duas empresas, respondem por crimes relacionados ao rompimento da barragem.
As audiências de instrução e julgamento vem ocorrendo desde fevereiro de 2026 e devem se estender até maio deste ano, no plenário do Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF6), em Belo Horizonte. Foram arroladas 166 testemunhas, incluindo 24 de acusação e 141 de defesa, o que indica a dimensão e a complexidade do processo .
Nenhum dos acusados foi condenado até hoje. Para os familiares das vítimas, cada adiamento representa não apenas um atraso processual, mas é também uma nova violência, quando se renova a dor da perda e a justa revolta diante da impunidade. A sensação é de que o tempo corre a favor dos acusados, nunca das vítimas.
O outro lado: o que diz a Vale

Em nota à imprensa, a mineradora Vale sustenta que a reparação dos impactos do rompimento avançou. Até dezembro de 2025, segundo a empresa, 81% do Acordo Judicial de Reparação Integral já havia sido executado, com investimentos que vão além das indenizações.
“As ações incluem recuperação socioambiental, garantia de abastecimento hídrico e iniciativas de diversificação econômica”.
Diz que o pagamento de indenizações cíveis, extrajudiciais e trabalhistas permanece como prioridade. E que até o fim de 2025, mais de 17,5 mil pessoas foram contempladas, somando R$ 4 bilhões pagos.
Esclarece que esses valores não fazem parte do Acordo de Reparação, firmado em 2021 com o Governo de Minas Gerais, Ministérios Públicos e Defensorias Públicas.
A companhia informa ainda que segue investindo na segurança de suas barragens. O Programa de Descaracterização de Estruturas a Montante atingiu 63% de execução, com 19 das 30 estruturas eliminadas.
Em agosto de 2025, a Vale anunciou que não possui mais nenhuma barragem em nível máximo de emergência, após a redução do risco da barragem Forquilha 3, em Ouro Preto (MG).
“Cada avanço, dos 81% do Acordo já executados e as mais de 17,5 mil pessoas indenizadas, representa o compromisso que assumimos com profundo senso de responsabilidade. Nosso objetivo é contribuir para um futuro mais seguro e sustentável para Brumadinho e toda a região do Paraopeba”, declarou a diretora de Reparação da Vale, Gleuza Jesué.
Segundo a mineradora, o acordo também prevê projetos definidos a partir de consulta popular.
“Entre as entregas já realizadas estão 125 mil equipamentos e veículos para a saúde; apoio a 192 produtores rurais; instalação de 112 usinas fotovoltaicas; entrega de 520 veículos para a Defesa Civil; fornecimento de 150 máquinas para produção rural e manutenção de vias; além de capacitação de 574 pessoas em gestão agrícola.”
Diversificação e reparação ambiental

A Vale afirma ainda que busca reduzir a dependência da mineração na economia de Brumadinho.
Entre as iniciativas estão o Programa de Turismo de Brumadinho, premiado nacionalmente em 2025, o incentivo ao empreendedorismo no Córrego do Feijão, o Programa de Fomento à Agricultura, a implantação de um Parque de Desenvolvimento Econômico, além da expansão da cobertura de internet 4G com o Projeto Brumadinho Digital.
Na frente ambiental, a empresa informa que já recuperou 240 hectares com o plantio de 300 mil mudas nativas, além de avançar na dragagem dos rejeitos no rio Paraopeba.
O monitoramento da água e da biodiversidade é feito em quase 300 pontos, com resultados que, segundo a Vale, se aproximam dos níveis anteriores ao rompimento.
No abastecimento de água, a mineradora diz ter fornecido 4,4 bilhões de litros de água potável, perfurado 100 poços e construído mais de 500 estruturas hidráulicas, beneficiando comunidades locais e propriedades rurais.
E informa que estão ainda em andamento mais de 550 obras de abastecimento que devem atender cerca de 5 milhões de pessoas na Região Metropolitana de Belo Horizonte e na bacia do Paraopeba.
Memória e resistência

Mesmo com os aportes de recursos e projetos anunciados pela Vale, fruto do acordo de reparação firmado em 2021, a dor dos familiares persiste. Para eles, nada substitui a ausência dos que se foram e, sobretudo, nada apaga o fato de que o crime segue sem castigo.
Mas a indignação transformou-se em resistência. Famílias organizam vigílias anuais, atos públicos e projetos sociais reforçam que o desastre não foi acidente, mas resultado de negligência e busca incessante por lucro.
O Instituto Taliberti, a Avabrum e outras iniciativas familiares e populares mantêm viva a memória das vítimas.
Seguem denunciando a impunidade e exigindo mudanças na fiscalização das barragens, para crimes como esse e de Mariana, não voltem a acontecer como tragédia anunciada e negligenciada.
Brumadinho permanece como um crime sem castigo, com famílias destruídas, turistas soterrados, comunidades adoecidas pela poluição continuada, um rio contaminado…
*Com informações da Agência Brasil (EBC), Agência Pública, Folha de S.Paulo, O Globo, assessoria de comunicação da Vale.









Um dos crimes da mineradora infame. Mas nada dura para sempre.
Como dorme o sr. Schvartsman? tem parente na Almanha?