Moraes mantém contatos suspeitos com Banco Central sobre Banco Master e bolsonaristas exploram denúncias
Alexandre de Moraes e Viviane Barci de Moraes
Foto: Divulgação/STF
Ministro falou quatro vezes com Galípolo sobre a instituição; silêncio sobre contrato da esposa alimenta suspeitas e narrativas políticas
Valdecir Diniz Oliveira*
Brasília – O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), está no centro de uma crise política e midiática após revelações de que manteve quatro contatos, por meio de três telefonemas e uma reunião presencial, com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para tratar da situação do Banco Master.
A instituição foi liquidada em novembro de 2025 por irregularidades bilionárias, e seu dono, Daniel Vorcaro, acabou preso.
Segundo apuração da colunista Malu Gaspar, de O Globo, Moraes teria defendido a operação de venda do Banco Master para o Banco de Brasília (BRB) e chegou a afirmar que “gostava de Vorcaro”.
Embora não haja transcrição oficial das conversas, os relatos de bastidores indicam que o ministro buscava evitar a liquidação da instituição.
O episódio ganhou contornos mais delicados porque o escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci, tinha contrato milionário com o banco, prevendo pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões e um total que poderia chegar a R$ 129 milhões.
O contrato incluía a defesa dos interesses da instituição junto ao Banco Central, Receita Federal e Congresso Nacional.
O silêncio sepulcral do ministro e da esposa
Até agora, nem Moraes nem Viviane Barci se pronunciaram publicamente sobre os contatos com Galípolo ou sobre o contrato.
O silêncio tem sido interpretado de diferentes formas: para críticos, como indício de conflito de interesse; para aliados, como prudência diante de uma investigação ainda em curso.
O decano do STF, Gilmar Mendes, saiu em defesa do colega, afirmando ter “absoluta confiança” em Moraes e destacando que o sistema institucional funcionou ao liquidar o banco.
Repercussão política
No Congresso, o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) articula a abertura de uma investigação sobre o contrato da esposa do ministro. Paralelamente, setores da oposição discutem a possibilidade de uma CPI e até de um pedido de impeachment.
Embora ainda não haja provas de favorecimento ilícito, o caso já se tornou combustível político em um ambiente polarizado.
A CPI, se instalada, teria poder de convocar testemunhas e requisitar documentos, mas dificilmente avançaria para além da disputa política, já que não há evidência concreta de corrupção.
O impeachment, por sua vez, esbarra em barreiras constitucionais e políticas: ministros do STF só podem ser afastados por crime de responsabilidade, e a abertura de processo depende de maioria qualificada no Senado.
Sem provas robustas, a chance de prosperar é mínima.
A manipulação bolsonarista
Grupos bolsonaristas têm explorado intensamente o episódio nas redes sociais, transformando suspeitas em certezas e apresentando os contatos de Moraes com o Banco Central como prova de corrupção.
Essa narrativa ignora que não há evidência de benefício pessoal do ministro e que o contrato era formalmente firmado pelo escritório de sua esposa.
A estratégia segue um padrão já conhecido: descontextualizar fatos e usar o episódio como arma para deslegitimar Moraes, relator do processo que resultou na condenação de Jair Bolsonaro pela tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023, frustrada pela ausência de apoio dos comandantes do Exército e da Marinha.
Reflexos sobre o julgamento de Bolsonaro
Apesar da ofensiva política e midiática, o caso não deve ter impacto sobre o julgamento de Bolsonaro.
A condenação do ex-presidente por tentativa de golpe já foi decidida pelo STF em colegiado, com votos de vários ministros, e não depende exclusivamente da atuação de Moraes.
Mesmo que novas investigações avancem sobre o Banco Master, elas não anulam decisões já tomadas, nem alteram o mérito do processo contra Bolsonaro.
O máximo que pode ocorrer é o uso político da narrativa bolsonarista para tentar enfraquecer a imagem de Moraes e, por consequência, questionar a legitimidade das decisões do Supremo.
Mas, juridicamente, o julgamento de Bolsonaro permanece sólido e não há mecanismo que vincule as denúncias atuais a uma revisão da condenação.
Como manter ex-presidente ativo mesmo preso
A oposição, especialmente os grupos bolsonaristas, pretende usar o caso para manter Bolsonaro politicamente ativo, mesmo condenado e inelegível.
A estratégia é clara: transformar Moraes em alvo permanente, reforçando a ideia de perseguição judicial e tentando mobilizar a base em torno da narrativa de injustiça.
Ao manter o ministro sob ataque, busca-se preservar Bolsonaro como protagonista, ainda que fora das urnas, e garantir sua relevância no debate público.
Estratégias nas redes sociais e a cortina de fumaça
Nas redes sociais, a campanha segue dois eixos principais: amplificação de suspeitas contra Moraes, com vídeos, memes e hashtags que apresentam o caso como prova de corrupção, e desvio de atenção de outros escândalos, como o episódio do dinheiro vivo encontrado no flat do deputado Sóstenes Cavalcante, líder do PL.
A narrativa contra Moraes funciona como cortina de fumaça, deslocando o foco da opinião pública e blindando aliados de Bolsonaro de questionamentos mais graves.
Essa dinâmica mostra como o caso do Banco Master, mesmo sem provas conclusivas, é instrumentalizado para manter Bolsonaro em evidência e proteger sua base política de desgastes.
Riscos institucionais e credibilidade do STF
O episódio expõe não apenas a vulnerabilidade de Moraes, mas também a fragilidade da percepção pública sobre a independência do Judiciário.
Ainda que não haja provas de corrupção, o simples fato de um ministro do STF interceder em favor de uma instituição que contratava sua esposa gera questionamentos éticos e abre espaço para ataques políticos.
A manipulação bolsonarista amplia esse desgaste, transformando suspeitas em certezas e alimentando a narrativa de perseguição.
O risco maior não é jurídico, mas institucional: a erosão da confiança no Supremo, que pode ser explorada para enfraquecer sua autoridade e relativizar decisões cruciais, como a condenação de Bolsonaro.
Nesse sentido, o caso do Banco Master funciona como um teste de resistência para o sistema democrático brasileiro, que precisa distinguir entre fatos, suspeitas e narrativas políticas sem permitir que a desinformação corroa a credibilidade das instituições.
*Valdecir Diniz Oliveira é cientista político, jornalista e historiador.
**Com informações de O Globo, Metrópoles, Folha de S.Paulo, Valor Econômico, e Correio Brasiliense.









