Vila de Utopia encerra 2025 com balanço sobre a mineração, sustentabilidade e cultura

Foto: Carlos Cruz

Por meio deste balanço sumário do noticiário do ano que ora finda aqui publicado, este portal de notícias reafirma seu compromisso com a vigilância ambiental, econômica e social – e celebra a identidade literária e cultural de Itabira

Em 2025, este portal Vila de Utopia reforçou, reiteradamente, que Itabira vive o crepúsculo da mineração. Reportagens mostraram que a produção mineral está em queda e a arrecadação de royalties (Cfem) já declina.

O alerta é claro: sem alternativas econômicas reais, que não sejam associadas à mineração que ora finda, o município corre o risco de enfrentar um colapso social e financeiro, antes mesmo da exaustão definitiva de suas minas.

Não importa se o fim da mineração no distrito ferrífero de Itabira se dará daqui a 15 ou 35 aos. O fim da mineração em Itabira já não é apenas uma previsão distante: é um crepúsculo que se anuncia a cada queda na arrecadação municipal, reflexo direto da redução dos preços e da produção de minério, que vem caindo a cada novo ciclo inaugurando nova safra produtiva de minérios mais pobres.

A exaustão já ocorre antes mesmo da exaustão inexorável das jazidas, processo que avança de forma gradual e sequencial. Tanto que o município já sente os reflexos negativos na administração municipal, na zeladoria urbana, enfim, nas condições de vida na cidade.

Nem a abertura de novas frentes de lavra pela Vale, tampouco a readequação das plantas industriais de concentração de itabiritos mais pobres, têm sido capazes de deter esse sentimento de fim inexorável sem que se tenha um planejamento estratégico efetivamente em curso para reverter esse quadro de extrema dependência.

A própria mineradora Vale informa, por meio do relatório Form-20, que 2041 marca o horizonte do fim, ainda que o calendário possa se estender por alguns anos. Mas, seja em 2041 ou pouco além, o fim é inexorável.

E com ele se desfaz a ilusão de eternidade, frente à tamanha riqueza que se esvai – e que se tornou, como previu Drummond, um grande mal para Itabira, que nem mesmo impostos recebeu pela maior parte da hematita extraída do já exaurido pico do Cauê.

Persistindo a atual estrutura produtiva, sem alternativas reais à mineração, a cidade enfrentará não apenas o fim de um ciclo, mas uma “derrota incomparável”. Que assim não seja, amém!

Mas torcemos para que não venha a “derrota incomparável”. Para isso, este site tem dado sua colaboração jornalística, cobrando da que a mineradora a abertura da discussão sobre o Plano de Fechamento de Mina (PFM), já definindo usos futuros de áreas desocupadas pela mineração e que estão sendo descomissionadas, como são os casos dos diques alteados a montante nas barragens Pontal e Rio de Peixe.

O que a Vale apresentou até agora não traz compromissos claros para essa ocupação futura, como meio de gerar novas fontes de emprego, renda e impostos para o município.

Uma boa oportunidade Itabira terá em 2026, quando encerram os dez anos do prazo legal concedido de prorrogação pelo órgão estadual da licença ambiental, necessária para a Vale realizar a extração e beneficiamento de minério de ferro no distrito ferrífero de Itabira.

A cidade precisa se preparar e cobrar, por seus representantes legais e sociedade civil, para que, antes dessa renovação, seja realizada uma audiência pública em Itabira, para discutir pendências da LOC 2000, que ainda tem muitas condicionantes que não foram cumpridas integralmente.

Além disso, é hora de reivindicar novas condicionantes socioeconômicas ambientais, com medidas preventivas, mitigadoras de novos impactos ambientais, que são permanentes, como também compensatórias, muito além do que está previsto em lei.

Dívidas históricas

A questão hídrica também foi central em inúmeras reportagens. O portal mostrou que a Vale iniciou, com mais de 25 anos de atraso, as obras de captação no rio Tanque, em cumprimento ao TAC firmado com o Ministério Público de Minas Gerais.

A medida busca compensar a perda dos aquíferos locais, que foram prometidos no passado como “legados” da mineração, inviabilizados com a disposição de rejeitos nas cavas das Minas do Meio – e também pelo quase monopólio das águas superficiais pela mineração.

A compensação dessas perdas só virá com a conclusão das obras de transposição de água do rio Tanque, prevista para 2027.

Até lá, a cidade de Itabira enfrentará mais duas crises severas no abastecimento público, a exemplo do que ocorreu neste ano e também nos anos anteriores, há mais de três décadas.

Sustentabilidade: projetos não avançam

O balanço de 2025 também expõe a fragilidade dos projetos até aqui anunciados de transição econômica.

O projeto Itabira Sustentável, lançado em 2023 com apoio da Vale e da Prefeitura, permanece sem avanços robustos, salvo alguns avanços pontuais, que já vinham acontecendo de modo esporádico antes mesmo do lançamento, com pompa e circunstância, desse que seria o pilar da sustentabilidade da transição econômica.

Corre o risco de repetir o mesmo fracasso que foi o projeto Itabira 2025, lançado pela Associação Comercial e Industrial de Itabira (Acita), em 1993, sendo que a promessa era tornar a cidade independente da mineração até o presente ano que finda.

Não cumpriu o que prometeu, as empresas instaladas no distrito industrial, em sua maioria é prestadora de serviços à mineração, o avanço na medicina e na educação, só mais recentemente tem se tornado expressivo para tornar o município polo macrorregional nessas áreas.

É assim que o portal tem enfatizado que Itabira acumula planos ambiciosos que não saem do papel, mantendo-se a extrema dependência da mineradora. Que o projeto Itabira Sustentável não se torne mais um plano ambicioso que se mantém apenas no papel.

Futuro incerto e perdas tributárias

Em reportagem publicada recentemente, a Vila de Utopia destacou que a “realidade presente e futura incerta de Itabira” precisa ser conhecida pelo presidente Lula em sua visita à cidade.

O texto advertiu que, sem alternativas econômicas sólidas e sem políticas públicas efetivas, Itabira corre o risco de repetir ciclos de dependência e estagnação.

A reportagem lembrou que a dívida histórica com Itabira não é apenas da Vale, mas também da União. Durante a Segunda Guerra Mundial, o minério de ferro (hematita) extraído do pico Cauê foi decisivo para abastecer a indústria bélica dos Estados Unidos e da Europa, permitindo que os aliados derrotassem o nazifascismo.

No entanto, a cidade nada recebeu em impostos por essa imensa contribuição.

Somente em 1969, com a instituição do Imposto Único sobre Minerais (IUM), Itabira passou a receber uma parcela ínfima, apenas 20% do rateio do que era apurado.

Essa lógica de subtributação persiste até hoje com a Lei Kandir, que isenta de impostos a exportação de commodities minerais, mantendo o município como subsidiário de um modelo extrativo que pouco retorna em benefícios sociais.

Em 2025, essa realidade se tornou ainda mais evidente. A Prefeitura estimou uma redução de R$ 186 milhões no orçamento, resultado da queda de 40% na arrecadação da Cfem e de 23% no ICMS.

Para conter o impacto, foram anunciadas medidas de austeridade, como corte de despesas com pessoal, revisão de convênios e bloqueio de novas obras com recursos próprios.

O portal enfatizou que Itabira precisa, também, do apoio do governo federal, sob pena de perpetuar a injustiça histórica para com o município.

Itabira forneceu minério para o esforço de guerra e para o desenvolvimento industrial do país, mas continua sem receber proporcionalmente pelo que perdeu em devastação do seu território, água e qualidade de vida com o crescimento urbano desordenado.

Meio ambiente: poeira de minério e retrocessos na coleta seletiva

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Poeira em Itabira é poluição recorrente que precisa ser mitigada com mais eficácia com revegetação e aplicação de polímeros em áreas com solo e pilhas de estéril expostos

Outra questão importante abordada pelo site tem sido a recorrente poluição do ar por partículas de minério advindas das minas da Vale – e que agravam as doenças respiratórias na cidade.

Neste ano, a mineradora investiu um pouco mais no controle de particulados em suas áreas expostas, parte com revegetação, mas principalmente com aplicação em área mais extensa de polímeros, que formam uma camada impermeabilizante que impede o arraste de poeira pelo vento.

A medida, espera-se que, com a instalação da fábrica de polímeros – que vem a ser uma unidade de produção de resina biodegradável a partir de plástico reciclado –, possibilite um maior controle da emissão de poeira nas minas, cobrindo amplamente as áreas descobertas, desprovidas de vegetação, com esse material biodegradável.

Coleta seletiva precária
Em dia de coleta de resíduos comuns, material reciclável segue também para o aterro sanitário, tudo junto e misturado

Também foi abordada, em relação ao meio ambiente, a precária gestão de resíduos no perímetro urbano.

Reportagens mostraram que Itabira, referência nacional em coleta seletiva nos anos 1990, hoje recolhe resíduos comuns e recicláveis sem separação.

Isso quando a rigor, somente os não recicláveis deveriam ir para o aterro sanitário, sendo que o orgânico deveria ser transformado em composto orgânico para adubação de  plantas.

É assim que o calendário de coleta, que antes era amplamente divulgado, tem sido desrespeitado tanto por moradores, que não fazem a segregação dos resíduos úmidos dos recicláveis, como também pela Itaurb e suas contratadas. É o que se observa por toda a cidade.

A ausência de campanhas educativas e de fiscalização ao comércio agrava o problema.

O portal alertou que, mantida essa prática, o aterro sanitário do Borrachudo pode voltar a se transformar em lixão – um retrocesso ambiental que, assim acontecendo, marcará negativamente a atual administração municipal. A sua vida útil também pode ficar comprometida em pouco tempo.

Cultura: resistência pela poesia e pela folia

Se o cenário ambiental é de alerta, a cultura manteve viva a identidade de Itabira. A Vila de Utopia acompanhou o Flitabira, que celebra anualmente, em outubro/novembro, a memória de Carlos Drummond de Andrade e aproximou escritores e leitores.

A Semana Drummondiana reafirmou, também, principalmente nas escolas, o vínculo da cidade com o poeta.

Isso enquanto o Festival de Inverno trouxe diversidade de atrações musicais e teatrais, dinamizando o turismo e reforçando a imagem de Itabira como “cidade da poesia” e, vá lá, também da cultura.

Em fevereiro, o portal também registrou o Carnaval de 2025, destacando que a folia não é apenas celebração, mas também movimenta a economia criativa, beneficiando artistas e comerciantes.

A cobertura mostrou que a cultura popular, ao lado da literatura, compõe o mosaico de resistência e vitalidade da cidade – e que pode ser mais incrementada com maior participação de moradores e atração de turistas.

Que assim seja, amém, como diria o professor Arp Procópio, de boas e eternas lembranças.

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