Vai nascer um Deus

Natividade, 1303 – Giotto de Bondone

Carlos Drummond de Andrade

Em novembro chegaram os signos.

O céu nebuloso não filtrava

estrelas anunciantes

nem os bronzes de São José junto ao Palácio Tiradentes

tangiam a Boa Nova.

Eram outros os signos

e viam na voz de iaras-propaganda

páginas inteiras de refrigerador e carro nacional

mas vinham.

O governo destinou somente 210 mil dólares

à importação de artigos natalinos

avelãs figos castanhas ameixas amêndoas

sóis luas outonos cristalizados

orvalho de uísque em ramo de pinheiro

champagne demi-sec pour lés connoisseurs

mas vinham

a fome sambava entre caçarolas desertas

e o amor dormia na entressafra

mas vinham

e petroleiros jatos caminhões nas BR televisores transistores corretores

descobriram subitamente

Jesus.

(Quem adquire a big cesta de natal Tremendous

no ato de pagamento de primeira prestação

recebe prêmio garantido

e concorre

na última quarta-feira de cada mês

– números correspondentes aos da Loteria Federal –

a visões como um apartamento

um jipe

uma lambreta

uma vedete

um lunik

um anjo eletrônico

e mais:

ajuda quinhentos velhinhos

a provar alegria

pois a Obra Senectude Evangélica

tem comissão em cada cesta vendida.)

… na manjedoura?

no presépio?

no chão, diante do pórtico arruinado, como em Siena o pintou

na capelinha torta de São Gonçalo do Rio Abaixo?

na big cesta de natal?

… repousa o Infante esperado.

As luzes em que o esculpiram tornam-lhe o corpo dourado.

A Natividade, 1896 – Paul Gaughin

O Cristo é sempre novo, e na fraqueza deste menino

há um silencioso motor, uma confidência e um sino.

Nasce a cada dezembro e nasce de mil jeitos.

Temos de pesquisa-lo até na gruta de nossos defeitos.

Ministros deputados presidentes de sindicatos

prosternam-se, estabelecendo os primeiros contatos.

Natividade, 1303 – Giotto de Bondone

Preside as assembleias de todas as sociedades

anônimas, anônimo ele próprio, nas inumerabilidades

de sua plenitude. E tenta re-nascer a cada hora

em que se distrai nossa polícia, assim como uma flora

sem jardineiro apendoa, e sem húmus, no espaço

restaura o dinamismo das nuvens. Sua pureza arma um laço

a astúcia terrestre com que todos nos defendemos

da outra face do amor, a face dos estremos.

inventou ser menino para ser contemplado,

senão querido (pois amamos a nosso modo limitado,

e de criança temos pena, porque submersos garotos

ainda fazem boiar em nós seus barcos rotos,

e a tristeza infantil, malva seca no catecismo, nunca se esquece.)

Assim o Cristo vem numa cantiga, não na prece

                                               com pandeiros alegres tocando

com chapéus de palhinha amarela

companheiros alegres cantando.

Reprodução

Ó lapinha,

menino de barro,

deus de brinquedo,

areia branca de córrego,

musgo de penhasco,

Belém de papel,

primeira utopia,

primeira abordagem

do território místico,

primeiro tremor.

Vi nascer um Deus.

Onde, pouco importa.

Como, pouco importa.

Vi nascer um Deus

em plena calçada

entre camelôs;

na vitrine da boutique

sorria ou chorava,

não sei bem ao certo;

a luz da boate

mal lhe debuxava

o mínimo perfil.

Vi nascer um Deus

entre embaixadores

entre publicanos

entre verdureiros

entre mensalistas,

no Maracanã,

em Para-lá-do-Mapa,

quando, que me importa,

quando os gatos rondam

a espinha da noite

os mendigos espreitam

os inferninhos

e no museu acordam as telas

informais

e o homem esquece

metade da ciência atômica:

vi nascer um Deus.

o mais pobre,

o mais simples.

 

[Revista Visão (SP), 25/12/1959. Pesquisa na Hemeroteca da BN-Rio – Pesquisa: Cristina Silveira]

Reprodução

 

 

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *