T. – há 100 anos
Capa do catálogo da Exposição da Semana de Arte Moderna de 1922, São Paulo
Foto: Reprodução/ MCS
| Com esta inicial é subscrito o poema-em-prosa “Viver” (D. de Minas, 17-12-1926). É reproduzido: a publicação original deu-se no mesmo periódico a 2-8-1924 com a assinatura de Carlos Drummond. Repr.: P. Todos, Rio, 3-4-1926 e no D. de Minas, 17-12-1926 (assinado pela letra T.). Fernando Py |
Viver
Minha alma espreita ao canto dos olhos; minha alma agita-se ao fundo da garganta. Mas nem os olhos a denunciam nem os lábios a revelam. Vou atravessando a vida com a serenidade ridícula dos fantoches, sem tristeza nem ódio, sem amargura nem êxtase.
Às vezes minha alma tenta debruçar-se nos olhos, mas recua: tenta subir à garganta mas detém-se. E nem lanço ao mundo o olhar de ternura e perdão, nem prenuncio a palavra de bondade. Os homens passam por mim e eu passo pelos homens.
O olhar que trocamos é frio, como vaga é a saudação que balbuciamos. Às vezes qualquer coisa vai perturbar-me; qualquer coisa vai subir-me aos lábios e aos olhos, mas os olhos se fecham e os lábios disfarçam… E nem me alegro e nem me enterneço; a boca não sorri e os olhos não choram.
Assim eu vou passando a vida. Súbito uma mulher roça por mim. Sinto cá dentro uma palavra subindo; talvez uma palavra de amor… A mulher se distancia sem que nada perturbe a minha máscara. Mas dentro de mim, a alma chora em silêncio. E há quem me chame futurista!
[Diário de Minas, 17-12-1926 – Pesquisa: Cristina Silveira)









