Produção na usina Cauê é retomada, mas deve parar por dois meses no fim do ano. Relatório Form-20 mantém exaustão em 2041

Fotos: Carlos Cruz

A histórica usina Cauê, em Itabira, retomou suas operações após um período de dois meses de manutenção preventiva planejada pela mineradora Vale. Uma nova parada, com o mesmo objetivo, está prevista para ocorrer no próximo período chuvoso, de outubro a dezembro, quando a empresa concluirá os serviços de manutenção e adequações.

A parada preventiva, segundo a empresa, é parte de um esforço estratégico para garantir a segurança, a eficiência e a sustentabilidade de suas operações no complexo Cauê.

Durante esse período, foram realizados ajustes e otimizações na planta industrial, além de treinamentos e capacitações para os colaboradores, visando à qualificação da força de trabalho.
Além disso, a mineradora implementou medidas de modernização tecnológica, com destaque para o ramp-up dando início à planta de filtragem de rejeitos da cava Cauê.

Esse processo marca a transição para a disposição a seco de rejeitos, uma prática mais sustentável e alinhada com as exigências globais de redução de impacto ambiental, inaugurando mais um ciclo tecnológico no complexo de Itabira.

Nesse intervalo de paralisação, a produção em Itabira foi concentrada nas usinas da mina Conceição, enquanto a Cauê se adapta ao novo ciclo tecnológico.

A Vale reforçou, por meio de nota oficial, divulgada em setembro do ano passado, que esses ajustes fazem parte de um plano de otimização da produção local, assegurando a competitividade do complexo minerador de Itabira em um mercado global cada vez mais desafiador.

Carregamento de minério partindo da usina Cauê, após a parada programada para manutenção, com destino ao Porto de Tubarão, no Espírito Santo

Pioneirismo

Pioneira na concentração de itabiritos, essa unidade operacional desempenha um papel fundamental no cenário da mineração nacional.

Desde a década de 1970, quando teve início o segundo ciclo tecnológico da mineração em Itabira, a usina Cauê transforma minério de ferro de teor médio em produto de exportação de grande relevância, principalmente o pellet-feed, um produto mais fino e de alta qualidade, utilizado na produção de pelotas de minério de ferro.

Essas pelotas são empregadas em processos siderúrgicos, com redução direta, que é uma alternativa mais sustentável e eficiente em termos de emissões de carbono. Por isso, têm grande procura no mercado internacional.

Relatório Form-20 deste ano mantém previsão de exaustão para 2041

Como se obaserva, o ano de 2025 reserva desafios e reestruturações para a mineração em Itabira, incluindo a paralisação da produção da usina nos dois períodos chuvosos, sendo a próxima parada programada para outubro a dezembro deste ano.

Fonte: Relatório Form-20 de 2024, divulgado pela Vale em 29 de abril deste ano

Além disso, como meio de otimizar a produção no Complexo Minerador de Itabira, o maior de Minas Gerais, com três usinas de concentração de itabiritos, a empresa está em processo de licenciamento ambiental para ampliar as cavas das minas do Meio e Conceição, além da instalação de uma nova pilha de estéril/rejeito.

A ampliação não resulta em aumento da produção local, pois essa está vinculada à capacidade operacional das três plantas de concentração, que é de 50 milhões de toneladas anuais. Esse limite nunca foi alcançado, apesar de ter chegado próximo em um passado já distante.

Fonte: Relatório Form-20 de 2024, divulgado pela Vale em 29 de abril deste ano

Em 2023, a produção de Itabira ficou em 31,2 milhões de toneladas anuais (Mtpa), subindo, em 2024, para 32,8 Mtpa, patamar que deve ser mantido nos próximos anos.

Embora a ampliação das cavas e da nova pilha nas minas de Itabira não aumente a capacidade produtiva do complexo, ela assegura a continuidade da extração e beneficiamento mineral em Itabira pelo menos até 2041.

Essa é a data presumível de exaustão das minas locais, horizonte que está sempre mudando, mas que foi mantido no último relatório Form-20, divulgado no sábado (29), e que pode ser acessado aqui: https://viladeutopia.com.br/wp-content/uploads/2025/04/Form-20-F-2024.pdf.

Pioneirismo e os desafios para o futuro

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E quando essas luzes finalmente se apagarem, o que será de Itabira, caso não sejam encontradas alternativas econômicas? (Foto: Geraldo Andrade)

A usina Cauê é uma importante e pioneira planta de concentração de itabiritos. Foi inaugurada em 1972, transformando-se em um dos pilares da mineração nacional, além de ter assegurado a continuidade da exploração mineral de Itabira, mesmo após a quase exaustão da hematita da lendária mina homônima.

Com a exaustão da cava Cauê, ocorrida no início deste século XXI, e também com a quase exaustão ou redução das reservas de itabirito friável, a empresa buscou novas tecnologias para processar o itabirito duro, o que ocorreu em meados da década passada, com a construção de uma nova planta em Conceição e a adaptação tecnológica das duas plantas que já existiam no complexo de Itabira.

Projetos e perspectivas econômicas para Itabira

Desde os anos 1990, iniciativas como o projeto Itabira 2025, lançado pela Associação Comercial e Industrial de Itabira (Acita), têm buscado alternativas econômicas para o município, o que já deveria ter ocorrido, não fossem vários entraves, como a falta de recursos hídricos, em sua quase totalidade constituídos de outorgas da mineração.

A retomada das operações na usina Cauê, mesmo em meio aos desafios enfrentados e ainda tendo mais uma parada agendada para o fim do ano, reafirma a relevância histórica e econômica dessa unidade para a mineração brasileira.

Seu papel continua fundamental para manter a atividade econômica local, enquanto alternativas precisam ser urgentemente encontradas para a diversificação de sua base produtiva, único meio para assegurar a sustentabilidade do município.

Transparência e diálogo

Para isso, é hora de dar início à execução das ações e projetos do programa Itabira Sustentável, uma parceria público-privada entre a Vale e a Prefeitura, lançada com estardalhaço no ano passado, mas que até então pouco saiu do papel.

E, numa demonstração de transparência e diálogo, espera-se que a Vale reveja sua posição de não participar do grupo de trabalho criado pelo Codema para discutir e encaminhar o plano de fechamento das minas locais.

Para isso, que comece por divulgar desde já as sucessivas edições do Plano Regional de Fechamento Integrado das Minas de Itabira (PRFIMI), uma série que teve início em 2013, registrada na agência reguladora da mineração (DNPM, depois ANM).

Esses planos não foram divulgados pela empresa em Itabira. A cidade só conhece o PRFIMI-2013 por meio deste site e pode ser acessado aqui: Cultivo de plantas medicinais e novo hospital constam, em 2013, do Plano de Descomissionamento das Minas de Itabira

Que a empresa comece desde já a executar as ações compensatórias contidas nesses planos, por exemplo, com o reaproveitamento dos rejeitos de minério nas barragens, liberando espaços para os projetos contidos no PRFIMI.

Isso precisa acontecer enquanto o município ainda dispõe de itabiritos e pequenas reservas de hematita, mesmo que a exaustão possa ocorrer para além de 2041, que está logo ali, assim como 2025 estava próximo para os articuladores do projeto da Acita no início dos anos 1990, lançado em caráter de urgência, mas que pouco resultado obteve, quase nada.

O que se em de certo é que a mineração em Itabira se mantém resiliente com os sucessivos ciclos tecnológicos e possivelmente com outros novos que ainda estão por surgir e serem implementados.

Nesse quadro, a usina Cauê é o símbolo mais altaneiro dessa persistência que faz do complexo Mineradora de Itabira, que a Vale não é boba de abandoná-lo para virar sucata, como dizia o ex-superintendente Ricardo Dequech, uma importante unidade produtiva da indústria mineral brasileira.

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