Presidente da Câmara diz que Vale deve compensação a Itabira por desmatamento da Serra do Esmeril na década de 1980
A Serra do Esmeril antes do desmatamento, quando ainda preservava sua cobertura vegetal original que a mineração apagou
Foto: Tibor Jablonsky/ Ney Strauch/IBGE
Cobrança do vereador Carlinhos “Sacolão” ocorre no Dia da Árvore, durante apresentação pela secretária Elaine Mendes, do Meio Ambiente, do plano de arborização urbana com o projeto Itabira Mais Verde
No Dia da Árvore, celebrado nesta segunda-feira (21), o presidente da Câmara Municipal de Itabira, vereador Carlos Henrique “Sacolão” Silva Filho (Solidariedade), fez duras críticas à mineradora Vale ao cobrar compensações ambientais pelo desmatamento da Serra do Esmeril, ocorrido na década de 1980, para a abertura das Minas do Meio.
Sacolão lembrou que era ainda menino quando a Vale prometeu plantar 1 milhão de árvores no perímetro urbano por meio do projeto Verde Novo, um compromisso assumido após ação civil pública movida pelo então promotor José Adilson Marques Bevilácqua em 1985. “O projeto ficou só no papel, sem reparação até hoje”, disse ele, referindo-se a mais uma das muitas perdas incomparáveis ocorridas em Itabira após o advento da mineração em larga escala, com a criação da Companhia Vale do Rio Doce, em 1942.
A cobrança do presidente da Câmara ocorreu logo após a secretária municipal de Meio Ambiente e Proteção Animal (Semapa), Elaine Mendes, apresentar o plano de arborização urbana e as ações do governo para tentar reverter o quadro de Itabira ser uma das cidades menos arborizadas do país, agravado pelo fato de conviver, há mais de oito décadas, lado a lado com uma das maiores minerações a céu aberto do Brasil.

Carlinhos “Sacolão” se referiu ao corte raso que a Vale realizou na Serra do Esmeril, no início da década de 1980, após adquirir as hoje chamadas Minas do Meio da Acesita.
Foi quando suprimiu de uma só vez a vegetação nativa, remanescente da Mata Atlântica, uma devastação completa que cobriu a cidade de poeira, com índices superiores a 500 microgramas por cúbico, sujando a tudo e agravando doenças cardiorespiratórias. “E até hoje essa área não foi recomposta, não houve compensação. Até hoje a Vale não devolveu à cidade o que tirou”, afirmou.
O presidente lembrou que o projeto Verde Novo foi lançado com estardalhaço como resposta à ação civil pública movida por Bevilácqua. “A Vale prometeu plantar 1 milhão de árvores. Era para ser reparação histórica. Era para ser o início de uma nova relação com a cidade. Mas o que aconteceu? Nada. Ficou só no papel”, lamentou o presidente da Câmara de Itabira.
Sacolão também relacionou o passado ao presente. “A Vale continua expandindo suas operações. Estamos discutindo novas licenças para pilhas de estéril. E o que fica para a cidade? Poeira, calor, ausência de sombra. Se tivéssemos cortinas verdes nas faixas de divisa com a mineradora, como manda a LOC 2000, Itabira não sofreria tanto. Mas não temos. E não temos porque a empresa não cumpriu.”
Arborização como política de sobrevivência urbana
O vereador Hudson “Yuyu da Pedreira “ Junior Diogo Santos (PSB), que convidou a secretária para apresentar o plano, fez uma intervenção extensa e contundente, ampliando o debate para o campo da adaptação climática e da saúde pública.
“Hoje não é dia apenas de celebrar árvore. É dia de entender que sem árvore a cidade não aguenta o calor que está vindo. A árvore não é só sombra. É saúde pública. É qualidade do ar. É proteção contra poeira. É vida. E Itabira precisa de vida”, afirmou.
Yuyu destacou que Itabira já sente os efeitos da emergência climática. “O super El Niño está aí. A cidade está mais quente. A poeira está mais intensa. As pessoas estão sofrendo. E quem mais sofre são os bairros mais pobres, que são também os menos arborizados. Isso é racismo ambiental.”
Ele reforçou que arborização não é estética. “Não é para deixar a cidade bonita. É para deixar a cidade habitável. É para garantir que as pessoas possam sair de casa sem sentir que estão entrando num forno.”
Yuyu também fez um apelo à participação popular. “Não adianta plantar árvore sem engajamento. A comunidade precisa participar, cuidar, proteger. O Itabira Mais Verde só vai funcionar se o povo abraçar o projeto.”
Itabira Mais Verde como resposta ao déficit histórico

A secretária Elaine Mendes apresentou o plano de arborização urbana com uma fala técnica e direta, dado o pouco tempo que tinha para a sua apresentação. “As cidades, para ficarem mais resilientes, têm que trabalhar piamente na arborização urbana e nas soluções baseadas na natureza. Este é o único caminho”, afirmou.
Ela explicou que o Itabira Mais Verde não é apenas plantio, mas planejamento. E que integra e conta com recursos do Fundo Municipal do Plano Estratégico Itabira Sustentável (Fumpeis).
“Temos que plantar a árvore certa no lugar certo. Tem que integrar com saúde, educação, urbanismo, comunidade”, disse, apresentando também a regra internacional 3–30–300, que explicou: cada pessoa deve enxergar três árvores da janela, os bairros devem ter 30% de cobertura vegetal e todos devem viver a até 300 metros de uma área verde. “Estamos muito distantes disso. Os bairros com mais vulnerabilidade são os que têm menos cobertura vegetal. A ligação é direta.”
A secretária repetiu o termo que cunhou, a arborofobia, uma rejeição às árvores existente em Itabira em muitos bairros, possivelmente surgido após o fracassado projeto Verde Novo, da Vale, que saiu quebrando passeios para plantar mudas refugadas que trouxe do viveiro da Reserva de Linhares, ES, sem diálogo com moradores, sem planejamento e sem manejo.
A maioria morreu. Poucos exemplares sobreviveram nos bairros Campestre, Bela Vista, Pará. Mas o trauma permanece. E a ausência de compensação pelo corte raso da vegetação da Serra do Esmeril ainda é uma ferida aberta na encosta da cidade.
“O itabirano tem medo de árvore perto de casa”, afirmou a secreetária, adiantando que a Prefeitura vai realizar um inventário arbóreo na cidade, já em fase de licitação, considerado essencial para reduzir esse medo, ao identificar riscos reais, orientar podas e evitar cortes desnecessários.
Elaine reconheceu que o programa Itabira Mais Verde ainda é tímido, mas afirmou que ganhará força com o período chuvoso. “Plantar hoje é viver melhor amanhã.”
Para isso, ela anunciou um edital para plantio de árvores na porta de casa, em parceria com os moradores, quando a secretaria não apenas doará a muda, mas executará o plantio com espaçamento correto, adubação, proteção e manejo. “É arborização responsável”, assegurou a secretároia, que espera com isso acabar com a arborofobia na cidade.
Vale destrói, então deve ajudar

O vereador Cidnei “Didi do Caldo de Cana” Camilo Rabelo (PL) foi incisivo ao reforçar a cobrança do presidente da Câmara. “Se a Vale destrói, então tem que replantar”, cobrou.
Didi continuou com a crítica com base em sua experiência pessoal. “Eu trabalhei na Vale, trabalhei na Anglo American. Onde tem mineração, destrói o meio ambiente. Destrói mesmo. Acaba com água, acaba com vegetação, acaba com tudo. E depois quem fica com o prejuízo é a cidade.”
Ele reforçou que a mineradora precisa participar do projeto Itabira Mais Verde. “A Vale desmatou tudo ali também perto do Itabiruçu para implantar uma pilha de terra, que eles chamam de estéril. E agora? A cidade precisa de árvores. A Vale tem que ajudar.”
Reinaldo Lacerda (PSB) fez uma intervenção emocionada. “Dói meu coração quando alguém pede para cortar árvore. Dói mesmo. A árvore é vida. É sombra. É beleza. É saúde.”
Ronaldo “Capoeira” Meireles de Sena (PRD) defendeu que para cada árvore cortada seja compensada com dez novas mudas. “Não é exagero. É necessidade. A cidade precisa recuperar o que perdeu.”
Ele pediu que o projeto entre nas escolas. “As crianças precisam aprender desde cedo a cuidar do meio ambiente.”
A vereador Jordana Madeira (PSB) falou sobre desigualdade ambiental. “A Chapada precisa de arborização. O Boa Esperança precisa. O Vale das Pedras precisa. São bairros quentes, secos, sem sombra”, disse ela, alertando para a escolha correta das espécies. “Tem que plantar a árvore certa no lugar certo.”
Com o projeto Itabira Mais Verde, a expectativa é de que seja uma esperança real, rompendo com a ficção das promessas não cumpridas para se transformar em política pública de fato, com participação comunitária, manejo técnico, justiça ambiental e responsabilidade compartilhada.









