Plumas, miçangas e paetês: memórias do carnaval de Itabira entre o brilho da avenida e a sombra da repressão
Major Brito, guardião da moral e dos bons costumes da família itabirana, prende os travestis após o desfile no carnaval de 1980
Foto: Luiz Zanon/ Acervo O Cometa
Dos clubes, com suas matinês e noites carnavalescas, às escolas de samba desfilando na avenida até a decadência marcada pelos festejos pouco momescos na Mauro Ribeiro
O carnaval de Itabira sempre viveu de ciclos. Nos clubes Atlético, Valério e Parente, a festa era movimentada, com bailes que marcaram gerações. Depois, as escolas de samba tomaram as avenidas, copiando o modelo carioca, muito pouco criativo, mas que fizeram sucesso na época.

Teve até vinda de ala da Portela desfilando em Itabira, trazida pelo ex-prefeito Daniel Grisolia no fim dos anos 1960. O desfile da escola carioca em Itabira inspirou a criação de agremiações locais.
Vieram a fanfarra do Tobias e a Gente Humilde, pioneiras. Logo depois, jovens do Bela Vista fundaram o bloco Apaches da Belinha, que em 1975 virou a Mocidade Independente da Belinha. Seus sambas-enredo, escritos por Marconi Ferreira, sempre se destacavam, mesmo quando a escola ficava em terceiro lugar.
Unidos de Itabira: a escola da liberdade

Em 1976 nasceu o Grêmio Recreativo Unidos de Itabira, liderada pela incansável Durcelina Camila Gomes (1931-2013), a Dona Durce, a “Dama da Alegria”.
Diferente da conservadora Belinha, a Unidos era liberal, acolhia travestis e gays, tornando-se símbolo de resistência. Foi nela que desfilou Michele, travesti que dizia: “A glória do travesti é o carnaval”.
Durce não apenas abriu espaço para os marginalizados, como também os protegia contra a homofobia. Sua escola sagrou-se várias vezes campeã e se tornou referência de acolhimento e ousadia.

A 9 de Outubro e a elite itabirana na avenida
No mesmo período surgiu a Escola de Samba 9 de Outubro, fundada por TiMurilo e Zeca, trazendo a elite para a avenida.
Com o estilista Zefferino, a escola desfilava com pompa e circunstância. O célebre Beto Tutti-Frutti também brilhou ali, desenhando e bordando suas próprias fantasias.
Marconi Ferreira (in memoriam), em entrevista a este site, recordou o primeiro samba-enredo da 9 de Outubro, de autoria de Zeca:
“Alô meu povo itabirano, a 9 de Outubro te saúda / pela vez primeira que desfila, vinda do Pará / pede passagem alegremente, para alegria dessa gente / vamos festejar / Que a nossa escola acaba de passar.”

Juriti e Flor de Lis: novos brilhos
Nos anos 1980, a Canto da Juriti, do Campestre, chegou “linda, maravilhosa”, como recorda Marconi Ferreira.

Em 1985, homenageou o cometa Halley com o samba “E os astros contam a estória”. Parecia até que Joãosinho Trinta havia baixado no terreiro da Juriti, tamanha era a beleza.
Já em 1988, surgiu a Flor de Lis, do Juca Batista, campeã com o samba “Para não dizer que não falei das flores”, de Raimundo João de Souza. Foi o último grande brilho antes do declínio.
Repressão em tempos de abertura

Mas junto ao luxo, alegria e ziriguidum, também havia repressão. Em 1980, durante o desfile da Unidos de Itabira, o delegado Major Brito mandou prender todos os travestis que se apresentavam.
Foram retirados à força da avenida e levados para a masmorra medieval da cadeia da Major Paulo, onde ficaram até o desfile acabar, impedidos de participar com os demais foliões.
Era a terça-feira gorda. A repressão aos travestis itabiranos ocorreu justamente quando o país vivia a chamada abertura política, iniciada pelo general-presidente Ernesto Geisel, seguida pelo seu sucessor, general-presidente João Batista Figueiredo, e que só se consolidaria com a Constituição de 1988.
A contradição era evidente: a ditadura se distendia, mas a repressão seguia viva em Itabira. Foi Dona Durce quem interveio, junto com Myriam Souza Brandão, gestora da cultura, para libertar os foliões.
Saíram cantando alegres e felizes, tendo Beto Tuti-Fruti à frente: “O delegado é bamba na delegacia, mas nunca fez samba, nunca virou Maria”, lembrando a canção de Chico Buarque.
Drummond na Sapucaí exalta Itabira em verso e samba

Apesar da censura e do conservadorismo que ainda marcavam os carnavais de Itabira, houve momentos de grandeza no cenário nacional. Em 1987, o Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira levou para a avenida o samba-enredo O Reino das Palavras, em homenagem a Carlos Drummond de Andrade.
Foi um reconhecimento histórico: o poeta de Itabira, tantas vezes criticado por sua crítica social, foi celebrado em vida como símbolo da poesia brasileira. A verde e rosa exaltou sua cidade natal em versos que ecoaram país afora – e também, como não poderia deixar de ser, em sua cidade natal:
“Itabira / Em seus versos ele tanto exaltou / Com amor / Eis aí a verde e rosa / Cantando em verso e prosa / O que ao poeta inspirou.”

Naquele carnaval, Drummond foi consagrado como patrimônio cultural do Brasil. A homenagem da Mangueira eternizou sua obra e colocou Itabira no centro da maior festa popular do país.
Enquanto as escolas locais exaltavam apenas riquezas e belezas, sem ousar tratar da pobreza ou da falta de democracia, na Sapucaí o poeta era celebrado como voz crítica e universal.
Esse contraste reforça a narrativa e a contradição em tempos de abertura política. Enquanto em Itabira, a repressão ainda prendia travestis, no Rio, Drummond era exaltado como símbolo da liberdade criativa.
Ciclos carnavalescos, decadência e renascimento

O ciclo das escolas de samba terminou em 1993. A última campeã foi a Gente Humilde, do Tobias, renascida e desbancando todas as outras.
Depois veio a fase do axé baiano, também mal copiado, com concentração popular na avenida Mauro Ribeiro – e que não deixou saudade.
Após essa fase, o carnaval itabirano se restringiu aos bairros Campestre e Pará. Já é tempo de se propagar por outros bairros, democratizando e descentralizando ainda mais o carnaval itabirano.








