Passado o efeito rebote, pesquisas mostram disputa apertada e mantêm aberta a possibilidade de virada de Lula

Foto: Lula Oficial e Charles Vieira/
Campanha Flávio Bolsonaro/Agência Brasil

A semana pós‑primeiro turno revela redes sociais mobilizadas, onda estudantil, debates decisivos e pesquisas mais apertadas, redesenhando o cenário eleitoral

Valdecir Diniz Oliveira*

Com o avanço da campanha de segundo turno, o chamado “efeito rebote”, fenômeno em que o candidato que vence o primeiro turno aparece melhor nas primeiras pesquisas, impulsionado pela euforia inicial e pela percepção momentânea de força, já começa a se dissipar.

As pesquisas divulgadas nesta terça‑feira (13) mostram que a diferença entre Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) diminuiu de forma consistente, abrindo espaço para uma disputa tecnicamente empatada e mantendo o viés de virada no segundo turno.

O levantamento BTG/Nexus registrou Flávio com 52% dos votos válidos contra 48% de Lula. O PoderData/AYA apresentou números ainda mais apertados: 51% a 49%. Em ambos os casos, a diferença está dentro da margem de erro.

Mas, mais relevante ainda é a comparação com a rodada anterior do PoderData, divulgada logo após o primeiro turno, quando Flávio aparecia com 53% contra 47% de Lula. A vantagem caiu de seis para dois pontos, indicando que o impulso inicial não se consolidou.

Esses dados são públicos, registrados, verificáveis – e sustentam a tese jornalística que defendo neste texto de que a possibilidade de virada existe, não por torcida, mas porque a realidade medida pelas pesquisas já aponta nessa direção.

Redes sociais, o Exército de Lula e a reorganização da narrativa digital

Se a extrema direita dominou o ambiente digital no turno inicial, o segundo turno apresenta uma mudança significativa, com a entrada organizada de comunidades culturais, os chamados fandons, e de influenciadores jovens, o que alterou a dinâmica das redes.

Grupos de fãs de K‑pop, streamers, criadores de conteúdo, coletivos de cultura pop e jovens políticos recém‑eleitos passaram a atuar de forma coordenada em defesa de Lula, produzindo conteúdo em ritmo acelerado e com estética própria.

Isso enquanto o próprio candidato passou a aparecer nas redes em um formato mais solto e jovial, adotando a linguagem do público jovem e ampliando sua presença digital.

A essa mobilização soma‑se o chamado Exército de Lula, estrutura criada originalmente pelo deputado André Janones em 2022 e reativada com força em 2026. O grupo opera principalmente pelo WhatsApp, coordenando ações que rapidamente se espalham para TikTok, Instagram e X.

Embora não existam métricas públicas sobre o número exato de participantes, uma vez que grupos de WhatsApp não são mensuráveis por auditorias independentes, o crescimento é perceptível pela multiplicação de grupos, pela velocidade de disseminação de conteúdos e pela capacidade de pautar debates nas redes.

A força dessa mobilização gerou reação da campanha adversária, que levou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma série de pedidos contra o canal “Exército do Lula”.

O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, atendeu às demandas da candidatura do PL e determinou a suspensão do grupo, condicionando a retomada ao registro formal na Justiça Eleitoral e à adoção de regras de monitoramento pela Meta.

As decisões de Kassio entraram em choque com despachos do corregedor-geral eleitoral, Ricardo Villas Bôas Cueva, que havia autorizado provisoriamente o funcionamento do canal e defendido análise mais ampla antes de derrubá-lo.

O impasse, marcado por uma “guerra de decisões” dentro da Corte, provocou desconforto entre ministros e reacendeu o debate sobre o uso político das instituições e os limites da atuação da presidência do TSE em processos eleitorais.

A reação da posição comprova que esse conjunto de movimentos com os fandons, influenciadores, Exército de Lula e a repercussão institucional reorganiza a narrativa digital, rejuvenesceram a imagem do candidato e ampliaram o alcance orgânico de conteúdos. A dinâmica lembra o “exército digital” de 2022 de Janones, mas agora com uma base mais ampla, mais jovem e mais culturalmente diversa.

As redes sociais, atualmente já mais centrais do que a televisão, têm potencial para influenciar eleitores que não votaram no primeiro turno, especialmente jovens e trabalhadores informais – e também idosos que vêm o perigo do retorno de políticas autoritárias e excludentes. É nesse terreno que a disputa se intensifica.

A onda vermelha e o impacto simbólico das universidades

Paralelamente à mobilização digital, o país assistiu ao surgimento de uma onda estudantil que começou em Niterói e rapidamente se espalhou para o Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Recife e Porto Alegre.

Os atos nas universidades, além de reunirem milhares de jovens, criaram uma estética política própria, marcada por cartazes, vídeos, músicas e performances que viralizaram nas redes.

O impacto desse movimento vai além do ato presencial. Ele produz pertencimento, reforça identidade política e mobiliza eleitores que se abstiveram no primeiro turno.

Em eleições polarizadas, a mobilização estudantil costuma ter efeito real, especialmente quando há grande número de pessoas que não compareceram às urnas – e que podem retornar agora.

É assim que a abstenção elevada no primeiro turno é um dos elementos centrais desta disputa. O contingente de eleitores que não votou é composto majoritariamente por jovens, trabalhadores informais e pessoas de baixa renda. São grupos que têm menor engajamento político, mas maior sensibilidade a mobilização digital e cultural.

A campanha de Lula parece ter entendido esse ponto, investindo em linguagem própria das redes sociais, influenciadores, fandons e movimentos estudantis, enquanto Flávio Bolsonaro aposta na disciplina de voto da direita tradicional e no apoio dos demais candidatos do campo conservador.

Esse movimento pode consolidar a direita tradicional, mas também pode gerar rejeição entre eleitores liberais e moderados que não se alinham à extrema direita. Parte desse grupo pode migrar para Lula, votar nulo ou se abster.

O efeito real desse apoio só será conhecido nas próximas pesquisas, mas ele adiciona complexidade ao cenário.

Daí que a pergunta que se impõe é simples e direta: quem mobiliza melhor os ausentes no primeiro turno e que podem ser decisivos agora no segundo? A resposta, porém, só será conhecida nas próximas pesquisas – e, em definitivo, nas urnas do dia 25.

Debates televisivos podem ser também decisivos

Ao menos dois debates estão confirmados para o segundo turno: Band e Globo. Além deles, a Globo realizará entrevistas individuais com os candidatos no Jornal Nacional, formato que costuma ter grande repercussão.

Outras emissoras como SBT/UOL/Folha, Record e CNN Brasil ainda não anunciaram oficialmente seus eventos, mas historicamente promovem sabatinas ou debates no segundo turno, o que pode ampliar ainda mais a exposição dos candidatos.

Na era das redes sociais, o debate ao vivo tem menos impacto direto do que no passado, mas sua repercussão digital pode ser decisiva – e serve como matéria‑prima para conteúdos que serão replicados em TikTok, Instagram, YouTube, WhatsApp, Telegram e no horário eleitoral dos candidatos.

Um erro, uma frase marcante ou um confronto inesperado pode dominar as plataformas por dias. Em disputas apertadas, cada debate é um round que pode alterar o clima eleitoral, reorganizar narrativas e influenciar indecisos.

Nesse ambiente midiático, a possibilidade de novas denúncias envolvendo o caso Vorcaro/Flávio, ou contra Lula, seu filho ou correligionários, adiciona mais um elemento de imprevisibilidade ao segundo turno.

Não se trata de prever impacto eleitoral, mas de reconhecer que escândalos têm potencial de reorganizar narrativas, especialmente quando o eleitorado está polarizado e os indecisos são poucos.

O mito da imparcialidade

Os dados das últimas pesquisas mostram que o efeito rebote passou. A vantagem inicial de Flávio Bolsonaro diminuiu. As pesquisas apontam disputa apertada — e a possibilidade de virada está aberta. Não por assim desejar, mas porque a realidade indica essa possibilidade.

Com debates, mobilização digital, atos estudantis, denúncias e novas pesquisas previstas para os próximos dias, o segundo turno se apresenta como uma das disputas mais acirradas da história recente do país pós‑redemocratização.

A expectativa é grande, e a tensão nacional é evidente: qualquer que seja o desfecho, o clima de polarização não deve se dissipar tão cedo. O que se espera — e se exige — é que a democracia seja preservada, que as instituições resistam e que nós, como sociedade, consigamos atravessar este período sem que o tecido social se rompa de vez.

O segundo turno está aberto e a realidade em movimento mantém o país inteiro atento – e apreensivo, de um lado e de outro, a depender do resultado final.

*Valdecir Diniz Oliveira é cientista político, jornalista e historiador

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *