“O Mobral não faliu”, dizia Darcy Ribeiro, por deseducar o povo. Mais do que nunca ele acertou, como mostra a política nacional

Darcy Ribeiro: “A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto.”

Foto: Reprodução/
WikimediaCommons

O avanço do ovo da serpente, símbolo do nazifascismo ressuscitado, no Brasil e no mundo, é alimentado pelo fundamentalismo religioso, pela manipulação ideológica e pela fragilidade da modernidade líquida

No final da década de 1970, Darcy Ribeiro publicou na Revista Civilização Brasileira uma análise contundente sobre o Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização), criado pelo regime militar em 1967.

Para ele, o programa não havia fracassado, como muitos acreditavam, mas cumprira com perfeição os objetivos que lhe foram traçados: alfabetizar de forma mínima, ensinar os iletrados a assinar o próprio nome e a decifrar frases utilitárias, sem jamais estimular o pensamento crítico ou a consciência política.

Foi assim que, segundo Ribeiro, o Mobral não fracassou, tornou-se um instrumento de domesticação social, uma política deliberada de deseducação. Foi nesse contexto que o antropólogo e educador cunhou uma de suas frases mais célebres: “A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto.”

Com ela, Darcy denunciava que a precariedade educacional não resultava de incompetência ou acaso, mas de uma estratégia consciente das elites para manter o povo em estado de submissão, incapaz de questionar as estruturas de poder. A alfabetização funcional, sem reflexão, servia para integrar os trabalhadores ao mercado, mas não para emancipá-los como cidadãos.

Essa crítica dialogava diretamente com as ideias de Paulo Freire, que defendia a educação como prática da liberdade e via na alfabetização um processo de conscientização política. Enquanto Freire propunha uma pedagogia voltada para a emancipação, o Mobral representava a pedagogia da obediência, moldada para perpetuar o autoritarismo.

Décadas depois, a advertência de Darcy Ribeiro mostra-se profética. A ausência de uma educação crítica continua a ser explorada por projetos políticos que dependem da manipulação ideológica e da desinformação.

O resultado é um país em que, mesmo diante de avanços sociais e econômicos, parcelas significativas da população permanecem vulneráveis ao discurso fundamentalista e ao populismo autoritário.

O Mobral foi extinto em 1985, mas sua lógica de deseducação sobrevive, atualizada pelos algoritmos das big techs e pela propaganda religiosa e midiática, que seguem moldando corações e mentes sem promover reflexão.

Paulo Freire: educação como prática da liberdade
Paulo Freire (Foto: Slobodan Dimitro/Wikimedia)

Em contraponto ao Mobral, Paulo Freire defendia que alfabetizar era também politizar. Em Pedagogia do Oprimido (1968), escreveu: “Ninguém educa ninguém, ninguém se educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo.”

Freire via a educação como prática da liberdade, capaz de formar cidadãos críticos. O regime militar, ao adotar o Mobral, rejeitou essa proposta emancipadora e preferiu um modelo de alfabetização funcional, sem consciência política.

Décadas depois, o Brasil vive uma polarização que confirma a advertência de Darcy Ribeiro. O país se encontra dividido entre o campo democrático, liderado pelo presidente Lula, e candidaturas da extrema direita.

Fundamentalismo religioso e poder econômico

Segundo o Censo 2022, os evangélicos já representam 26,9% da população brasileira, contra 21,6% em 2010. Entre os jovens de 10 a 14 anos, o percentual sobe para 31,6%.

Esse crescimento demográfico tem impacto direto na política: estudos indicam que, em 2030, católicos e evangélicos terão proporções semelhantes na sociedade, cerca de 39% cada.

Entre os líderes evangélicos mais influentes estão Silas Malafaia e André Valadão, da Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte.

Valadão mantém relações próximas com empresários como o dono do Banco Master, mostrando como religião e poder econômico se entrelaçam na sustentação de projetos políticos conservadores.

Esses líderes atuam como correias de transmissão ideológica, mobilizando milhões de fiéis em torno de pautas que reforçam o obscurantismo e a rejeição a qualquer projeto de transformação social.

Conquistas e paradoxos

Apesar dos avanços recentes, com o Brasil registrando em 2025 a menor taxa de desemprego da série histórica, 5,2%, mais de 103 milhões de pessoas em atividade e renda média recorde, Lula enfrenta resistência de uma parcela significativa da população.

Esse paradoxo revela o poder da educação precária e da manipulação ideológica: mesmo diante de conquistas concretas, milhões permanecem fiéis a projetos neoliberais e antipopulares, que vão contra aos seus interesses.

A atual gestão lulista conseguiu retirar novamente o Brasil do Mapa da Fome da ONU, ampliou o Bolsa Família com exigências de vacinação e frequência escolar, retomou a política de valorização do salário mínimo, aprovou a primeira etapa da reforma tributária e reduziu o desmatamento na Amazônia em mais de 50%, recolocando o país como liderança climática global.

Houve também recomposição de recursos para universidades e institutos federais, reativação de bolsas de pesquisa e investimentos em infraestrutura social.

Essas conquistas se somam às de gestões anteriores, quando Lula criou o Bolsa Família, expandiu o ensino superior com novas universidades e institutos federais, levou energia elétrica a milhões de famílias com o programa Luz para Todos.

Fortaleceu a agricultura familiar e promoveu aumentos reais sucessivos do salário mínimo, que ampliaram o poder de compra dos trabalhadores e consolidaram uma nova classe média.

O Brasil foi reconhecido internacionalmente como exemplo de crescimento com inclusão social, mas, paradoxalmente, parte da população continua a rejeitar esse projeto democrático-popular, preferindo discursos de ódio e fundamentalismo.

O “ovo da serpente”: o nazifascismo ressuscitado

Esse contraste entre avanços socioeconômicos e resistência ideológica mostra como a ausência de uma educação crítica e a força da manipulação midiática e religiosa ainda moldam corações e mentes, perpetuando o ovo da serpente em pleno século XXI.

A metáfora do “ovo da serpente”, imortalizada por Ingmar Bergman, é hoje mais atual do que nunca. O nazifascismo não morreu em 1945; apenas permaneceu incubado.

Na Europa, partidos de extrema direita lideram governos na Itália, Hungria e Polônia; na Alemanha, o AfD conseguiu eleger prefeitos; em Portugal, o partido Chega saltou de um deputado em 2019 para 58 parlamentares em 2025.

Nos Estados Unidos, Donald Trump é acusado de estimular teorias conspiratórias e práticas autoritárias que ameaçam a democracia.

É assim que o ovo da serpente está sendo chocado em escala global, alimentado por crises sociais, pelo medo e pela desinformação.

Bauman e a modernidade líquida
Zygmunt Bauman, em 2010 (Foto: MichalNadolski/Wikimedia Commons)

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) descreveu a sociedade contemporânea como marcada pela fluidez e fragilidade dos laços sociais. Em Modernidade Líquida (2000), afirmou: “Na modernidade líquida, nada é feito para durar. As relações são frágeis, os compromissos são temporários e a identidade é fluida.”

Essa análise se conecta diretamente ao impacto da internet e ao poder crescente das big techs, que hoje avançam sobre todos os espaços da vida social e política.

Com algoritmos invisíveis, essas corporações filtram o que deve ou não ser compartilhado, determinam quais conteúdos ganham visibilidade e quais são silenciados. E passam a indicar o que deve ser lido, visto e absorvido pela opinião pública em escala global.

O que antes era papel da imprensa tradicional, o selecionar, hierarquizar e interpretar os fatos, agora é mediado por sistemas automatizados que privilegiam engajamento e lucro, não necessariamente verdade ou relevância histórica e factual.

Esse controle algorítmico cria bolhas de desinformação, reforça preconceitos e alimenta radicalismos, pois cada usuário é exposto a conteúdos que confirmam suas crenças, isolando-o de visões divergentes.

Casos recentes, como o escândalo da Cambridge Analytica nas eleições norte-americanas de 2016, ou a disseminação massiva de fake news durante as eleições brasileiras de 2018 e 2022, mostram como plataformas digitais podem influenciar diretamente processos democráticos.

A realidade líquida digital intensifica o individualismo e a transitoriedade das relações, tornando mais fácil a disseminação de ideologias extremistas e a manipulação política em larga escala.

O resultado é uma sociedade em que corações e mentes são moldados por plataformas globais que operam acima dos Estados nacionais, sem regulação efetiva e com poder de influenciar eleições, movimentos sociais e até crises internacionais.

A promessa inicial de uma internet democrática e plural converteu-se em um espaço dominado por poucos conglomerados, que controlam não apenas o fluxo de informações, mas também a própria percepção da realidade.

Hannah Arendt e a banalidade do mal
 Hannah Arendt (Foto: AlfredBernheim/Britannica)

A filósofa alemã de origem judaica, Hannah Arendt, acompanhou o julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém, em 1961, e dali extraiu uma das mais perturbadoras conclusões do século XX.

Em Eichmann em Jerusalém (1963), escreveu: “O mal não é radical, ele não possui profundidade. Ele pode se espalhar como um fungo na superfície. É banal.”

Para Arendt, Eichmann não era um monstro sanguinário, mas um burocrata medíocre, incapaz de pensar criticamente sobre seus atos, que se limitava a cumprir ordens e a obedecer à máquina estatal nazista.

Essa percepção rompeu com a ideia de que o mal é sempre fruto de indivíduos excepcionais. E revelou que ele pode emergir da obediência cega, da incapacidade de refletir e da renúncia à responsabilidade moral.

A força dessa análise está em mostrar que o mal pode ser reproduzido por pessoas comuns, quando se deixam capturar por sistemas ideológicos ou estruturas burocráticas que naturalizam a violência e a exclusão.

A banalidade do mal não é apenas a execução de crimes hediondos, mas a indiferença cotidiana, a aceitação passiva de injustiças e a repetição acrítica de discursos que legitimam o autoritarismo.

Hoje, essa banalidade reaparece em novas formas: nos discursos fundamentalistas que demonizam adversários políticos e minorias; nos algoritmos das big techs que disseminam ódio e reforçam preconceitos.

Encontra-se também entre líderes que se apresentam como salvadores da pátria, mas que, na prática, corroem instituições democráticas.

É assim que o “ovo da serpente” está sendo chocado não apenas por figuras como Bolsonaro ou Trump, mas por uma rede de instituições, corporações e indivíduos que, sem refletir, perpetuam o obscurantismo e normalizam práticas autoritárias.

A lição de Arendt é clara: quando a sociedade abdica da reflexão crítica e da responsabilidade ética, abre espaço para que o mal se torne rotina, para que a violência se torne aceitável e para que o autoritarismo se disfarce de ordem e progresso.

É nesse terreno fértil que o nazifascismo ressuscitado encontra condições para prosperar, multiplicando-se em escala global e ameaçando novamente a convivência civilizada.

O que fazer?

A célebre pergunta de Lênin permanece atual: “O que fazer?” Investir em educação crítica é indispensável, mas não suficiente. A alfabetização política e cultural precisa ser acompanhada de uma ação firme contra os novos mecanismos de dominação que se instalaram na era digital.

É preciso enfrentar a realidade líquida descrita por Bauman, em que tudo se desfaz rapidamente, e o capitalismo que, como lembrava Marx, “se desmancha no ar”, reinventando cada vez mais voláteis e predatórias.

Nesse cenário, as big techs assumiram um papel central ao funcionarem como difusoras globais de ideologias extremistas, controlando algoritmos que determinam o que deve ser lido, visto e compartilhado.

Elas não apenas organizam a informação, mas moldam a própria percepção da realidade, criando bolhas de desinformação e reforçando preconceitos.

O escândalo da Cambridge Analytica nas eleições norte-americanas de 2016, a avalanche de fake news nas eleições brasileiras de 2018 e 2022 e a manipulação digital em pleitos europeus mostram que a democracia está sendo corroída por sistemas invisíveis que operam acima dos Estados nacionais.

Para enfrentar esse desafio, torna-se urgente a regulação internacional das plataformas digitais, impondo transparência nos algoritmos e limites ao uso de dados pessoais para manipulação política e comercial.

É igualmente necessário fortalecer a imprensa independente e o jornalismo profissional, capazes de oferecer contrapontos à desinformação e recuperar o papel de mediador crítico da realidade.

A educação midiática e digital deve ser incorporada desde cedo nas escolas, ensinando como identificar fake news, compreender o funcionamento dos algoritmos e desenvolver pensamento crítico diante da avalanche informacional.

As big techs precisam ser responsabilizadas legalmente pelos conteúdos que disseminam ódio, racismo, misoginia e ataques à democracia. Marcos regulatórios nacionais e regionais, como a Lei dos Serviços Digitais da União Europeia, podem servir de modelo para países latino-americanos.

Também é fundamental incentivar a diversidade de plataformas e redes sociais, evitando a concentração de poder em poucos conglomerados e estimulando alternativas descentralizadas e democráticas.

Sem esse freio, a serpente continuará chocando seus ovos em escala mundial, alimentada pela ignorância, pelo medo e pela manipulação algorítmica.

Nesse cenário distópico, a democracia, já fragilizada, corre o risco de se tornar uma fachada, enquanto a convivência civilizada se dissolve na liquidez da desinformação e do autoritarismo.

O desafio é imenso, mas a resposta passa por combinar educação crítica, regulação digital e fortalecimento das instituições democráticas. Só assim será possível impedir que o ovo da serpente se transforme novamente em uma ameaça global.

*Valdecir Diniz Oliveira é cientista político, jornalista e historiador.

 

Fontes consultadas

Obras e Pensadores
• Darcy Ribeiro – A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto (frase registrada em discursos e textos diversos; crítica ao Mobral publicada na Revista Civilização Brasileira, final da década de 1970).
• Paulo Freire – Pedagogia do Oprimido (1968).
• Zygmunt Bauman – Modernidade Líquida (2000).
• Hannah Arendt – Eichmann em Jerusalém: Um relato sobre a banalidade do mal (1963).
• Karl Marx – Manifesto Comunista (1848) e O Capital (1867).
• Vladimir Lênin – O que fazer? (1902).

Dados e Estatísticas
• IBGE – Censo 2022: crescimento dos evangélicos no Brasil (26,9% da população; 31,6% entre jovens de 10 a 14 anos).
• IBGE – PNAD Contínua 2025: taxa de desocupação de 5,2%, menor da série histórica, com mais de 103 milhões de pessoas ocupadas.
• ONU – FAO / Programa Alimentar Mundial: retirada do Brasil do Mapa da Fome em 2023.

Política Internacional e Big Techs
• Cambridge Analytica – relatórios e investigações sobre manipulação digital nas eleições dos EUA em 2016.
• Estudos sobre fake news no Brasil – análises de 2018 e 2022 publicadas em veículos como Folha de S.Paulo, BBC Brasil e The Guardian.
• União Europeia – Digital Services Act (Lei dos Serviços Digitais): marco regulatório para plataformas digitais, referência internacional.
• The New York Times, The Guardian, Brookings Institution – análises sobre populismo autoritário e o papel das redes sociais na radicalização política.

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