No Dia Nacional das Artes, é hora de cobrar a revitalização dos Caminhos Drummondianos e visitar os espaços de cultura em Itabira
Monumento revitalizado da Maria Fumaça em Itabira, com o poema O Maior Trem do Mundo: registro da memória e da crítica de Drummond à mineração
Fotos: Carlos Cruz
Data celebra a arte como identidade e crítica social, mas revela urgências na preservação da memória de Drummond e inspira reflexões
O Dia Nacional das Artes, celebrado nesta quarta-feira (12), foi instituído para marcar a fundação da Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios em 1816 e a regulamentação da profissão de artista em 1978. Mais do que uma efeméride, é um chamado à valorização da cultura e à lembrança de que a arte é memória, identidade e crítica social.
Em Itabira, berço de Carlos Drummond de Andrade, essa data expõe a urgência de revitalizar os espaços que guardam a obra e o pensamento do poeta.
É o caso do Museu de Território Caminhos Drummondianos, que, junto a outros espaços de memória, busca reconciliar a cidade com seu filho mais ilustre e com a própria história – revolvendo-a, expondo as contradições de uma terra que se deixou levar pelo brilho da hematita e que, de tudo, ficou pouco.
Trata-se de uma cidade que se tornou símbolo da mineração predatória e da poesia, e que hoje vive o crepúsculo da atividade mineral, sem saber ao certo como será o futuro quando cessar o fluxo da riqueza levada pelo maior trem do mundo.
Caminhos Drummondianos: poesia espalhada pela cidade, mas incompleta

Os Caminhos Drummondianos são um museu a céu aberto, criado em 1997, que espalha 44 placas com poemas de Carlos Drummond de Andrade por ruas, praças e pontos de memória de Itabira.
A proposta é que o visitante percorra a cidade como quem percorre a obra do poeta, encontrando versos em lugares citados nos poema, construindo uma experiência de leitura integrada à paisagem urbana.
É um projeto pioneiro de museu territorial, que transforma a cidade em livro e a memória em roteiro cultural.
Da sacada da Casa de Drummond, o poeta via o Pico do Cauê ainda intacto, montanha que depois seria pulverizada pela mineração, transformando-se em pó de ferro e ausência na paisagem. Essa visão moldou sua poesia e deveria estar registrada nos Caminhos Drummondianos, mas não está.
À exceção de O Maior Trem do Mundo, outros textos críticos à mineração predatória, como Lira Itabirana ( “O rio? É doce. A Vale, amarga. Ai antes fosse mais leve a carga”) não estão presentes nesse museu a céu aberto.

Falta também A Montanha Pulverizada (“Britada em bilhões de lascas / Deslizando em correria transportadora / Entupindo 150 vagões / No trem-monstro de 5 locomotivas — trem maior do mundo, tomem nota — / foge minha serra, vai deixando no meu corpo a paisagem / mísero pó de ferro, e este não passa”.
São poemas e também crônicas, sobretudo as publicadas no Correio da Manhã, em que o poeta demonstra poeticamente e com dados objetivos seu descontentamento com a atividade que provoca poeira, degradação paisagística.
E que pouco retorna à cidade, usufruindo de isenções e deixando de recolher tributos devidos.

Hoje, quando Itabira vive o já quase fim de seu ciclo mineral, esses versos se tornam ainda mais necessários para compor a narrativa crítica dos Caminhos Drummondianos, sem ficar apenas nas lembranças do menino antigo que aqui viveu a sua infância.
A ausência desses poemas explica-se, em parte, pelo fato de as atuais placas terem sido confeccionadas sob patrocínio da mineradora Vale, o que é em si uma contradição, dado o embate que Drummond manteve com a empresa.
Sem esses textos, o caráter crítico do museu se enfraquece, tornando-se apenas turístico e nostálgico.

Daí que é preciso revitalizar os Caminhos Drummondianos, cuidando dos locais onde se encontram, como também ampliando seu conteúdo, para que cumpram o papel de consciência social e não apenas de atração turística-cultural.
Defesa da Natureza
Assim como é fundamental também incorporar ao museu de território os poemas em que Drummond ergue sua voz em defesa da natureza contra a sanha assassina da motosserra, denunciando a devastação das matas e a perda irreparável da biodiversidade da Mata Atlântica, como ocorreu na Serra do Esmeril.
Estender os Caminhos Drummondianos até as unidades de conservação abertas ao público é também uma boa ideia, como forma de ampliar o alcance desse museu territorial, conectando a poesia à experiência da paisagem preservada, um contraponto à mineração predatória.
Assim, o visitante poderia percorrer não apenas as ruas e praças da cidade saboreando a eterna presença drummondiana, mas também trilhas e reservas ambientais, encontrando nos versos do poeta um chamado à consciência ecológica.
Essa ampliação daria novo fôlego ao projeto, transformando-o em instrumento de educação ambiental e cultural, capaz de articular memória, crítica social e defesa do patrimônio natural.
Casa de Drummond: memória e programação

O sobrado colonial onde o poeta morou guarda uma exposição permanente que recria o ambiente doméstico da família Andrade, com móveis originais, objetos pessoais e documentos que ajudam a compreender a infância de Drummond em Itabira.
Da sacada, o poeta contemplava o Pico do Cauê, montanha que se tornaria símbolo da cidade e que depois seria pulverizada pela mineração. Essa memória visual, agora transformada, pulverizada, é parte essencial da visita.
É um espaço que aproxima visitantes da intimidade de Drummond e reafirma a literatura como prática de luta comunitária, viva e pulsante.
E que precisa ser sempre fortalecido como centro de convivência cultural, ampliando sua programação e atraindo novos públicos.
Memorial Niemeyer: poesia no Pico do Amor

No alto do Pico do Amor, no Parque Natural Municipal do Intelecto, no bairro Campestre, encontra-se o Memorial Carlos Drummond de Andrade, concebido por Oscar Niemeyer, amigo do poeta e cúmplice na tarefa de transformar poesia e memória em arquitetura.
O espaço abriga manuscritos, fotografias e objetos pessoais do poeta, e também da filha Maria Julieta, mas vai além de ser apenas acervo: é uma proposta de permanência, uma obra que traduz em concreto e curvas a delicadeza da poesia.
O Memorial é também símbolo da amizade entre poesia e arquitetura, mas também da tensão entre paisagem e mineração, pela sua própria localização.
Da sua esplanada, o visitante contempla a cidade e, à frente e também ao fundo, os rastros da exploração mineral predatória que Drummond denunciou em versos e crônicas.
Essa vista panorâmica é ao mesmo tempo deslumbrante e incômoda, pois revela a beleza da terra natal do poeta e as cicatrizes deixada pela mineração predatória, as veias abertas de Itabira.
Portanto, além de ser um espaço de visitação e contemplação, o Memorial é também um convite à reflexão sobre o papel da arte como ponte entre passado, o presente e o futuro que ninguém sabe como será.
O Memorial, que guarda documentos e objetos do poeta, exige cuidado constante e investimento público para seguir sendo não apenas um marco arquitetônico, mas também um espaço de consciência crítica.
É onde a poesia de Drummond ecoa como denúncia e esperança de um futuro sem fantasmas a assombrar quem ainda teme pela derrota incomparável.









Importante incluir o poema Onda, escrito e publicado em Itabira, em 1918.