Nesta data em que se celebra o Dia da Árvore, Itabira permanece com uma das menores taxas de arborização urbana do país
Foto: Carlos Cruz
Mesmo com inúmeras atividades da Semana da Árvore, e com o programa Itabira Mais Verde, a cidade permanece com baixo índice de arborização urbana, exposto ao calor extremo e à poeira da mineração
Nesta segunda-feira (21), Dia da Árvore, Itabira chega à data ainda com um dos piores índices de arborização urbana do Brasil. Segundo dados do IBGE, apenas 25,2% das vias públicas da cidade possuem árvores, o que coloca o município na 4.980ª posição entre 5.570 cidades brasileiras.
O déficit não é recente: resulta de décadas de desmatamento urbano, da desafetação de áreas verdes para obras públicas, de cortes indiscriminados promovidos pela própria Prefeitura e do fracasso de programas como o Verde Novo, lançado pela Vale nos anos 1980.
O projeto prometia plantar 1 milhão de árvores no perímetro urbano, em resposta às ações civis públicas abertas a partir de inquéritos instaurados pelo então promotor José Adilson Marques Bevilácqua, que buscavam apurar responsabilidades pela poeira carregada de pó preto de minério e pela descaracterização paisagística da Serra do Esmeril, onde a vegetação foi removida de forma rasa tota a vegetação remanescente da Mata Atlântica – e que até hoje não foi recompensada com novos plantios. A promessa não se cumpriu pela mineradora e esse passivo ambiental permanece aberto.
Para mudar esse quadro, a atual administração municipal promete reverter décadas de descaso com a arborização por meio do projeto Itabira Mais Verde. A iniciativa, embora ainda tímida e marcada por avanços lentos, é apresentada como a principal aposta para reconstruir a cobertura vegetal da cidade.
A expectativa é de que o programa ganhe fôlego com a chegada do período chuvoso, quando os plantios têm maior chance de sobrevivência. Mas, enquanto isso não acontece, a população continua exposta ao calor extremo, à poeira da mineração e à ausência de sombra nas vias urbanas – uma realidade agravada por sucessivas gestões que cortaram árvores sem critério, desafetaram áreas verdes e nunca compensaram o que foi destruído.
As ações da Semana da Árvore acontecem no Parque Natural Municipal do Intelecto, no Parque Natural Municipal do Ribeirão São José, no Parque Estadual Mata do Limoeiro, em escolas municipais e nos distritos de Senhora do Carmo e Ipoema. São 26 atividades gratuitas, entre trilhas, oficinas, rodas de conversa, blitz ambientais e plantios comunitários.
A Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Proteção Animal (Semapa) reforça que discutir árvores é discutir água, temperatura, biodiversidade e qualidade de vida. Mas para que essa agenda ultrapasse a educação ambiental cardíaca, aquela que se limita a tocar corações e gerar comoção momentânea, é preciso que o discurso se converta em política pública consistente e de resultados robustos.
Para isso é preciso ter planejamento com transparência e comprometimento da população, com metas claras e continuidade. Sem isso, eventos da Semana da Árvore correm o risco de permanecer no campo da sensibilização simbólica, incapazes de enfrentar as causas estruturais do déficit de arborização.
Itabira só será uma cidade ambientalmente sustentável e melhor para se viver quando a consciência ambiental vier acompanhada de ações efetivas, capazes de reverter décadas de omissões, cortes indevidos e promessas não cumpridas, com ações que mudem a realidade de fato, e não de ficção, para deixar de ser uma das cidades menos arborizadas do país.
Impacto da mineração e o fracasso do Verde Novo
A arborização urbana de Itabira sofre com o impacto da mineração e de decisões equivocadas do passado. Em meados da década de 1980, após ações civis públicas instauradas pelo então promotor José Adilson Marques Bevilácqua, a Vale lançou o programa Verde Novo, prometendo plantar 1 milhão de árvores no perímetro urbano.
A promessa nunca se cumpriu. Sem diálogo com a população, sem parcerias comunitárias e sem planejamento técnico adequado, o programa resultou em quase nada. Poucos exemplares sobreviveram, principalmente nos bairros Campestre e Bela Vista, como testemunhas isoladas de um compromisso abandonado.
O fracasso do Verde Novo se soma a outras condicionantes ambientais não cumpridas, como a LOC 2000, que previa a implantação de cortinas verdes entre a cidade, as minas e a ferrovia, como meio de formar barreiras vegetais essenciais para reduzir poeira, ruídos e impactos diretos da atividade minerária. Após duas décadas e meia, Itabira ainda espera pela sombra que deveria minimizar as ondas de calor que se agrava a cada ano.
A baixa arborização de Itabira também é consequência de ações do próprio poder público. Na administração do ex-prefeito Ronaldo Magalhães (2017 a 2020), com a operação Cidade Limpa, a Prefeitura promoveu cortes de árvores sem critérios técnicos, com laudos emitidos após as derrubadas e assinados por profissional não habilitado. O Ministério Público arquivou o procedimento, mas o impacto permanece: ruas mais expostas, bairros mais quentes e uma população que sente no corpo a ausência de sombra.
Além disso, áreas verdes foram desafetadas para dar lugar a obras públicas, reduzindo ainda mais a cobertura vegetal urbana. A cidade que hoje precisa urgentemente plantar mais árvores é ainda a mesma que, por anos, removeu vegetação sem planejamento e sem compensação adequada pela mineração e também pela administração municipal.
A arborização urbana não é detalhe estético. É infraestrutura ambiental, necessária e urgente para se fazer frente às mudanças climáticas. Árvores reduzem ilhas de calor, filtram partículas de minério em suspensão, amortecem chuvas fortes, melhoram a drenagem e funcionam como barreiras naturais contra ruídos e poluição.
Em cidades mineradas, esses benefícios são vitais. Mas Itabira ainda opera com ações fragmentadas, simbólicas e de baixa escala. Trilhas, oficinas e plantios comemorativos sensibilizam, mas não substituem diagnósticos técnicos, metas públicas, cronogramas, manejo contínuo e integração com políticas de mobilidade, drenagem e uso do solo.
Itabira Mais Verde: esperança concreta, mas ainda insuficiente
Diante desse histórico, o programa Itabira Mais Verde representa uma esperança de que o município possa finalmente iniciar a reversão do quadro. O projeto inclui ações educativas, plantios comunitários e a criação de corredores ecológicos, além de iniciativas como o Itabira Planta Junto!.
Mas para que essa esperança se transforme em resultado, o programa precisa de metas públicas claras, cronogramas definidos, indicadores de impacto, escala ampliada, continuidade e participação comunitária real.
Sem isso, corre o risco de repetir o destino do Verde Novo com boas intenções que não se convertem em transformação urbana.
O Dia da Árvore deveria marcar um pacto público pela reconstrução da paisagem urbana. Para isso, é necessário reconhecer o déficit de arborização, fortalecer o Itabira Mais Verde, cobrar da Vale o cumprimento integral das condicionantes ambientais, envolver a população em ações contínuas e tratar a arborização como política de infraestrutura, não como evento comemorativo.
Nesta data em que se celebra o Dia da Árvore, Itabira reafirma a urgência de enfrentar sua realidade ambiental. A sombra que falta nas ruas não será resolvida com discursos ou plantios simbólicos, mas com compromisso, planejamento e responsabilidade compartilhada.









