Morre Dona Tita, matriarca mais idosa do Quilombo Morro de Santo Antônio
Foto: Divulgação Ascom/PMI
Comunidade perde a guardiã da memória quilombola, celebrada em seu centenário pela Prefeitura de Itabira e homenageada no Flitabira
No mesmo mês em que Itabira perde a escritora e líder comunitária Rosemary Alvares de Souza, a Dona Rosinha, falecida no dia 5 de junho, a cidade amanhece com a triste notícia de mais uma grande perda incomparável.
Morre na madrugada desta segunda-feira (22) outra matriarca da comunidade quilombola Morro de Santo Antônio, a também líder comunitária Maria Gregória Ventura, a Dona Tita, aos 102 anos.
O velório, assim como aconteceu com Dona Rosinha, deve acontecer na sede da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade, e posteriormente na Igreja de Santo Antônio, com sepultamento no cemitério da comunidade quilombola.
Referência ancestral
Dona Tita era a mulher mais idosa do quilombo Morro de Santo Antônio, considerada uma guardiã da memória coletiva e da ancestralidade negra.
“Ela foi uma referência ancestral depois de Tia Zefina (dona Josefina Lucas Evangelista, falecida aos 108 anos), dona de uma memória privilegiada”, recorda o ativista do movimento negro de Itabira, José Norberto “Bitinho” de Jesus.
“Até parece que existia entre Dona Rosinha e Dona Tita um acordo silencioso. Uma foi, e pouco depois a outra também seguiu seu caminho, sem nos dar tempo sequer para compreender a dimensão do que estava acontecendo. É como se dissessem: ‘Vou primeiro, depois você vem”, escreveu Bitinho, recordando a forte ligação que existia entre as duas matriarcas.

Ano Municipal do Centenário
Em 2024, a Prefeitura de Itabira sancionou a Lei nº 5.471, instituindo o Ano Municipal do Centenário de Dona Tita.
A iniciativa, proposta pelo ex-vereador Júlio Rodrigues e sancionada pelo prefeito Marco Antônio Lage, reconheceu sua importância como símbolo da luta antirracista e da valorização da cultura quilombola.
A lei foi celebrada com atividades culturais e educativas, reforçando o papel de Dona Tita como referência na construção de uma cidade mais justa, antirracista e inclusiva.
Homenagem no Flitabira
Ainda em 2024, o 4º Festival Literário Internacional de Itabira (Flitabira) dedicou parte de sua programação à matriarca quilombola.
Durante o festival foi exibido o documentário “Tita: 100 anos de luta e fé”, dirigido por Danilo Candombe, que retratou sua trajetória marcada pela fé, pela resistência e pela preservação da memória coletiva.
A homenagem integrou o esforço da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade, juntamente com o Flitabira, para valorizar a ancestralidade negra e reafirmar o compromisso da cidade com a diversidade cultural e com a luta antirracista.
Legado de fé e resistência

Com sua partida, Itabira perde não apenas uma matriarca, mas um elo vivo com a história de mais de três séculos do Quilombo Morro de Santo Antônio, o primeiro reconhecido oficialmente como espaço de resistência antiescravagista no município.
Dona Tita deixa como legado a preservação das tradições, das rezas e dos saberes ancestrais que marcaram sua vida.
Sua memória permanece como inspiração para as gerações atuais e futuras, que certamente continuarão a ecoar sua voz e sua história em Itabira e no quilombo que ela tanto amou e defendeu.
Saiba mais – Leia também









