Milton Hatoum, novo imortal da ABL, cita Drummond em discurso de posse

Posse na Academia Brasileira de Letras (ABL)

Foto: Reprodução/ABL/
Youtube

Escritor amazonense defende a imaginação como força vital da literatura, exalta a educação pública e afirma que “enquanto houver vida neste mundo em chamas, haverá histórias a ser narradas”

Ao assumir a cadeira de número 6 da Academia Brasileira de Letras (ABL), nessa sexta-feira (24), o escritor amazonense Milton Hatoum fez um discurso de posse defendendo a imaginação como força vital da literatura.

“Não vivemos apenas no real, vivemos também no imaginário, nos sonhos, na literatura, nas artes, no teatro, essa arte viva. Vivemos também no devaneio”, afirmou. Ele é o primeiro escritor nascido no Amazonas a ocupar uma cadeira na Casa de Machado de Assis.

O escritor citou Carlos Drummond de Andrade, ao lembrar o célebre verso de A máquina do mundo: “A máquina do mundo se abriu diante de mim”.

E, também, T.S. Eliot, poeta e crítico literário, nascido nos Estados Unidos e naturalizado britânico, considerado um dos maiores nomes da poesia modernista, reconhecido com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1948. “A humanidade não pode suportar tanta realidade”.

Ao citar Drummond e Eliot, Hatoum estabeleceu um elo entre a tradição brasileira e a modernista anglo-americana, reforçando que a literatura é tanto memória quanto resistência diante das crises históricas.

Hatoum concluiu seu discurso de posse com uma síntese de sua visão. Enquanto houver a vida neste mundo em chamas, haverá histórias a ser narradas, lidas e ouvidas.”

Em seu já histórico pronunciamento, o escritor fez questão de agradecer aos leitores e professores, exaltando a educação pública, da qual disse ser fruto.

“Sou filho dessa educação pública, do pré-escolar até a universidade. O salto qualitativo do nosso país passa pela educação pública de qualidade.”

Quem é Milton Hatoum

Nascido em Manaus, em 1952, Hatoum é um dos mais importantes romancistas brasileiros contemporâneos.

Autor de nove livros de ficção, entre eles Relato de um certo Oriente (1989), Dois irmãos (2000) e Cinzas do Norte (2005), tendo conquistado três vezes o prêmio Jabuti.

Sua obra já foi traduzida para mais de 17 idiomas, com mais de meio milhão de exemplares vendidos.

Em 2025, concluiu a trilogia O lugar mais sombrio, composta por A noite da espera, Pontos de fuga e Dança de enganos, que entrelaça dramas familiares à história da ditadura militar brasileira.

Além da ficção, publicou coletâneas de contos, crônicas e ensaios.

Formado em arquitetura pela USP, Hatoum cursou pós-graduação em literatura em Paris.

Atuou como professor universitário no Brasil e em instituições internacionais, como Berkeley e Sorbonne.

Hatoum no Flitabira

Milton Hatoum no Flitabira: “Não é hora de silêncio.”(Foto: Carlos Cruz)

Hatoum esteve em Itabira, terra natal de Drummond, participando do 5º Festival Literário Internacional de Itabira (Flitabira), realizado no final de outubro e início de novembro do ano passado.

Na ocasião, emocionou o público ao denunciar o genocídio em Gaza. “Só quem desconhece a história da opressão que os palestinos sofrem há 80 anos não chama o que está acontecendo por lá de genocídio. Não é hora de silêncio.”

Sua fala em Itabira reforçou que a literatura não deve se limitar ao estético, mas assumir também uma dimensão ética e política.

Ao lado de Ana Maria Machado e Miriam Leitão, Hatoum defendeu que escritores têm a responsabilidade de dar voz às vítimas da violência e da opressão.

O episódio marcou sua passagem pela cidade de Drummond como um momento de afirmação da literatura engajada e consciente.

Representatividade

A entrada de Hatoum na ABL amplia a representatividade regional da instituição, trazendo a voz da Amazônia para a Casa de Machado de Assis.

Além disso, sua posse reafirma a literatura como espaço de resistência e consciência crítica.

O discurso de posse de Hatoum na ABL é um lembrete de que a palavra escrita deve permanecer viva, comprometida com a verdade.

E, também, com a dignidade humana, como sempre foi na obra de Drummond e como continua sendo na de Hatoum.

Fontes: ABL, G1, Vila de Utopia.

 

 

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