Machado, Joaquim, Cornélio, Luís e Paulo
Fotos: BH-Rio/ Reprodução
Hoje publicamos dois artigos, um do nosso amável Cornélio Penna (1896-1959) sobre Machado de Assis (1839-1908), inédito até 1958; e Paulo Mendes Campos (1922-1991) sobre Luís Camilo (1904-1953).
Três mineiros e um carioca. Os três mineiros viveram e morreram no Rio.
Cornélio Penna tinha 22 anos quando, em 1918, escreveu a crítica “Machado de Assis” e havia 10 anos de falecimento de Machado.
Machado de Assis, de Cornélio Penna, a Vila de Utopia oferece a Carolina itabirana de Machado, a bela Graça Lima.
(Maria Cristina)
Machado de Assis

Por Cornélio Penna
Machado é um grande indiscreto. Ele serve-se dos livros como de grandes lentes através das quais esmiuça o nosso interior, esquadrinha o nosso coração e revira a nossa alma para depois rir de nós. Num riso silencioso e perverso.
Com um estilete ele vai vagarosamente, com requintes de operador até o fundo de amargura que existe em nós, e fá-la jorrar, e depois, sorrindo, nos diz que talvez seja fel, que preciso é tratar do fígado…
Que gelado pessimismo! Zombeteiro e mau ele vai suavemente nos convencendo de que talvez não exista aquilo que mais queremos que exista… e não nos convence, deixa-nos a dúvida, passando para outra crença, com a maior naturalidade.
Vingando-me das zombarias direi que cada vez que leio um livro dele sinto-me roubado em qualquer coisa e o que é pior, ridículo e espantoso, sua coragem de pedir socorro à polícia… É por isso que, despertado, eu não gosto dele absolutamente, não é meu amigo apesar de sua falsa bondade e mais falsa ainda modéstia.
São livros de triste desânimo, de imponente melancolia os dele, mas, para não se confessar vencido ele ri e zomba, arma dos fracos! É o verdadeiro realismo, a realidade não é o corpo é a alma. Zola fala-nos daquele e Machado só nos fala desta.
Não quero compará-los, são dois gigantes, mas de raças diferentes e entre eles eu não escolheria outro a não ser Machado de Assis.
Machado tem alma de mulher em corpo de velho. Tem a sagacidade, a curiosidade minuciosa e indiscreta daquela e a desilusão triste, tristíssima e sufocada deste.
Eu bem sei que caminho para lá, ó deserto de areias finas e movediças! Mas não terei o consolo de ter por companheiro, dentro de mim, um grande espirito, esmaecido e mutilado, mas grande ainda, sombrio na sua vaga decadência.
É por isso que Machado me faz sentir a estranha sensação de um salto que dou para o futuro… não, não quero esse declinar, grandioso nele, mas sinistramente em mim.
Escrito no Rio, em 1918.
[Jornal do Commercio, Rio 5/10/1958 – Pesquisa na hemeroteca da BN-Rio – Cristina Silveira]
Luís Camilo, de Minas

Por Paulo Mendes Campos
Deus do céu, está fazendo 18 anos que morreu Luís Camilo de Oliveira Neto, homem culto, correto, inteligente e bom – virtudes que em geral se atropelam neste país apressado. Adolpho Bloch, seu amigo, que o diga.
Fui seu vizinho na capital de Minas. Seu desligamento estabanado era um prazer para meus oito anos. Lembro-me do dia em que se mudou para o Rio. Muitos anos depois ele me explicaria com humor o motivo da mudança: tinha na sala de jantar uma mesa imensa, que atrapalhava o movimento da casa.
Aos poucos, a mesa foi crescendo tanto que a vida em Belo Horizonte foi-lhe ficando insuportável.
Pois, quando tudo estava arranjado para a viagem, no mesmo dia desta, um carregador de móveis, para desentulhar a passagem, empurrou a mesa para um canto da sala com uma precisão profissional: todos perceberam que naquela posição a mesa não criaria mais problema de espaço, mas era tarde.
“Percebi – disse-me – que a minha mudança para o Rio era inútil. Mas que fazer? Já estava de passagens compradas.”
Em 1949 fui encontrá-lo como diretor do Banco de Crédito Real. Um diretor de banco que estudava gramática grega, disfarçando-se atrás da escrivaninha quando um zangão da praça vinha propor-lhe uma transação complicada.
Um diretor de banco que tinha na gaveta as últimas novidades literárias, e que, quando eu lhe falava em 20%, retrucava: “Você não achou uma beleza o último livro do Cornélio Penna?”.
Um diretor de banco que também entendia de finanças, não para ficar rico, mas porque onde está o problema econômico, está o problema humano – vida e paixão de Luís Camilo.
Um mês antes do fim, já muito abatido pela doença, estava sereno, menos quando se falava sobre o Brasil ou sobre, por exemplo, a grandeza de Tolstói.
[Manchete (Rio), 18/9/1971. Hemeroteca BN-Rio – Pesquisa: Cristina Silveira]









Cristina Silveira, como sempre, enriquecendo o acervo de publicações inéditas, pelo menos para os tempos atuais, a que a Vila de Utopia, desde o nascedouro, vem se dedicando. Graças às preciosidades que a Vila de Utopia constantemente publica, relativamente à memória cultural desta terra do Matto Dentro, jogamos luzes sobre as sombras que acabam levando tudo ao umbral do esquecimento. Cristina Silveira, inteligentemente movida pelo apreço à nossa história, traz-nos agora esse diálogo intrigante entre grandes mestres da Literatura, todos de nosso apreço. Agora, me alçar ao ” assento etéreo” de Carolina, é homenagem desmedida de Cristina Silveira.