Jovem violista descobre na música e na luteria caminhos para a inclusão através da arte
Foto: Nicolle Ferreira/ Divulgação
Aluna da Orquestra Filarmônica Ramacrisna encontrou na música um espaço de inclusão e desenvolveu uma habilidade que começa a se transformar em profissão
A música pode ser uma forma de expressão, um espaço de convivência e também um caminho para descobrir novas habilidades. Para Helena Maria Tobias, aluna da Orquestra Filarmônica Ramacrisna, de Betim, essa experiência reúne tudo isso.
Portadora do Transtorno do Espectro Autista (TEA), a jovem, hoje com 20 anos, encontrou na prática musical um ambiente de acolhimento e desenvolvimento pessoal. Foi também nesse percurso que descobriu uma habilidade que ampliou seus horizontes: a luteria, atividade especializada na construção, manutenção e restauração de instrumentos musicais.
Helena conta que seu primeiro contato com a música clássica aconteceu por meio da flauta doce e, posteriormente, iniciou aulas de viola erudita. Quatro anos depois, ingressou na Orquestra Filarmônica Ramacrisna e se apaixonou ainda mais pela viola.
“Meu primeiro contato com a música clássica foi aos 11 anos, quando comecei a tocar flauta doce. Depois, resolvi experimentar a viola, entrei para a Orquestra e me apaixonei pelo instrumento. A música foi se tornando cada vez mais importante para mim”, relembra.
O maestro Eliseu Barros acompanha essa evolução e destaca a dedicação da aluna.
Segundo ele, Helena mantém uma rotina de estudos consistente. Além das aulas presenciais, ela costuma enviar vídeos dos exercícios técnicos a cada dois dias para receber orientações e corrigir detalhes de sua execução.
“Ela demonstra um interesse muito grande e, junto com o interesse, tem a motivação. É muito dedicada, quer ser uma boa violista e trabalhar profissionalmente com o instrumento”, afirma.
Da viola à luteria
Enquanto aprimorava cada vez mais sua técnica, Helena passou a explorar a área da luteria, na qual a atenção aos detalhes e a precisão do trabalho manual se tornaram importantes aliadas.
O seu interesse em se tornar uma luthier surgiu em uma conversa com o próprio maestro, que a indagou sobre atividades que gostaria de desenvolver além da prática musical.
Eliseu conta que, ao notar o interesse, a incentivou. “Fui dando pequenos reparos para ela fazer e observando se tinha uma mão boa para isso, com calma, atenção aos detalhes e perfeccionismo. A luteria exige muito cuidado, porque qualquer falha pode comprometer o trabalho. E ela demonstrou uma habilidade excepcional nessa atividade”, conta.
Segundo a jovem, o desafio a instigou. “Eu já tinha vontade de aprender a fazer manutenção de instrumentos de cordas. Quando tive a oportunidade de começar, fui aprendendo aos poucos, primeiro com pequenos reparos. Depois, comecei a construir instrumentos inteiros. É muito interessante poder conhecer o instrumento por dentro e entender como cada detalhe faz diferença. ”, explica.
À medida que avançava com os trabalhos, os desafios aumentaram. O que começou com a manutenção de instrumentos evoluiu para a fabricação de peças completas.
Atualmente, Helena já produziu quatro instrumentos do zero: duas violas e dois violinos. Todos estão em uso, três deles, foram vendidos, dois a estudantes do ensino superior da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e um terceiro para um colega da própria orquestra.
Entre os instrumentos fabricados está a própria viola que ela utiliza na Orquestra. O trabalho reúne, em uma única peça, as duas habilidades que vêm marcando sua trajetória: a prática musical e o conhecimento técnico necessário para construir um instrumento de cordas.
“Construir minha própria viola foi uma experiência muito especial, porque é o instrumento que eu toco. É diferente de simplesmente aprender a tocar: você também entende como ele é feito e todo o trabalho necessário para que funcione bem”, relata.
Além da realização pessoal, a venda dos instrumentos, é um importante passo na independência financeira da jovem. O maestro Eliseu, realiza a avaliação financeira de cada instrumento, baseado em critérios como medidas corretas, ângulo, sonoridade, entre outras.
“Eu faço uma avaliação tanto visual como técnica, texto este instrumento durante uma semana de acordo com os critérios necessários, como o tamanho certo, ângulo, resultados sonoros, entre outras coisas. E tudo isso ela já faz com perfeição. Hoje ela tem confeccionado instrumentos que valem no mercado cerca de R$5 mil e, por estar iniciando a carreira, tem vendido por cerca de R$3.500 mil”, explica.
Música como espaço de acolhimento e participação
Para além do aprendizado musical, a experiência na Orquestra Filarmônica Ramacrisna representa a oportunidade de participar de um grupo, construir vínculos e desenvolver interesses em um ambiente que respeita suas particularidades.
Neste caso, o acolhimento dos colegas e o acompanhamento do maestro contribuíram para que ela se sentisse confortável nas atividades.
A experiência de Helena dialoga com pesquisas que investigam a relação entre música e o TEA. Uma publicação da revista científica Frontiers in Psychiatry deste ano, onde foram reunidos 33 estudos independentes sobre o tema, encontrou resultados favoráveis das intervenções musicais na comunicação e na interação social.
Os pesquisadores também identificaram efeitos positivos, embora pequenos, na linguagem.
Na trajetória da jovem musicista, a inclusão aparece na possibilidade de aprender, compartilhar experiências e desenvolver suas capacidades em um ambiente coletivo.
O maestro Eliseu conta que em algumas ocasiões, o excesso de estímulos sonoros pode causar desconforto a jovem em função do TEA. Mas a atenção a essas necessidades, aliada ao respeito dos outros integrantes, a ajuda no dia a dia.
“Os alunos criaram um ambiente muito legal para ela, e eu também procuro sempre contribuir para que ela se sinta à vontade e acolhida. Ela é uma jovem muito querida e respeitada pelo grupo, está integrada socialmente e convive muito bem com os colegas”, relata.










Muito talentosa, Helena é um exemplo de como uma pessoa com autismo quando bem encaminhada e incentivada pode ter uma vida normal e uma história muito bonita. Que ela continue seguindo essa trajetória de sucesso!!!