Jonas Bloch traz Manoel de Barros a Itabira. Viva a Lei Rouanet
Foto: Flavia Canavarro/ Divulgação
Um espetáculo imperdível e oportunidade para uma reflexão necessária sobre quem paga a cultura no Brasil
Na próxima sexta-feira (14), o teatro da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade recebe Delírio, monólogo de Jonas Bloch inspirado na poesia de Manoel de Barros.
Trata-se de uma chance rara de ver em cena um dos maiores atores brasileiros, que escolheu Minas como sua segunda casa, trazendo ao palco a delicadeza e o humor de um poeta que reinventou a linguagem.
Bloch, com mais de seis décadas dedicadas ao teatro, traduz para a cena o universo de Manoel de Barros, o poeta das coisas mínimas, capaz de transformar pedras, insetos, brinquedos quebrados e memórias da infância em ternura e poesia.
No palco, literatura e artes visuais se encontram para revelar a grandeza escondida no cotidiano, numa encenação que convida o público a desacelerar o olhar e redescobrir a beleza do simples.
As lembranças da infância, os cenários do Pantanal, a natureza, o humor e a forma inovadora com que o poeta reinventava as palavras ganham vida na interpretação de Jonas Bloch, em uma encenação que valoriza tanto a força do texto quanto a expressividade das imagens.
“Levar Delírio para Itabira tem um significado especial. É um espetáculo inspirado na obra de Manoel de Barros que chega justamente à cidade de Carlos Drummond de Andrade, promovendo um encontro simbólico entre dois grandes nomes da poesia brasileira”, diz a coordenadora do Teatro em Movimento, Tatyana Rubim.
”Tudo isso conduzido pela sensibilidade de Jonas Bloch, um artista que transforma poesia, teatro e artes visuais em uma experiência emocionante para o público”, afirma.
Mas se o espetáculo é imperdível, sua realização nos leva a um questionamento importante: afinal, quem paga a cultura no Brasil?
Mecenato de Estado, vitrine privada
Em Minas Gerais, e no Brasil como um todo, os grandes festivais e projetos culturais só se viabilizam graças à Lei Rouanet.
Por aqui, mineradoras e siderúrgicas aparecem como as grandes patrocinadoras, mas invariavelmente o fazem por meio da renúncia fiscal autorizada pelo Estado.
Portanto, não se trata de investimento direto de capital próprio. As empresas apenas redirecionam parte do imposto que deveriam recolher ao erário federal, como é o caso de Delírio, que tem patrocínio cultural da mineradora Vale, via Lei Rouanet.
Quando há aporte de recursos próprios, os percentuais são mínimos diante do volume que circula via a lei federal de incentivo de cultura.
Somente a Vale, exemplo mais próximo de Itabira, anunciou para este ano recursos, via Lei Rouanet, da ordem de R$ 62,1 milhões para 33 projetos culturais em Minas, incluindo a Orquestra Filarmônica, o Grupo Corpo, o grupo folclórico Aruanda e o plano plurianual do Instituto Inhotim.
Este último, sozinho, recebeu R$ 72 milhões entre 2021 e 2024, instalado em uma área minerada descomissionada, passivo ambiental de uma outra mineradora, a Itaminas, consolidando-se como o maior museu a céu aberto da América Latina.
O caso do Inhotim é emblemático porque une duas estratégias de marketing: o ambiental e o cultural.
Localizado em Brumadinho, cidade marcada pelo desastre-crime da barragem da Vale em 2019, o patrocínio ao museu funciona como uma forma de reposicionamento da imagem da empresa.
É o que se pode chamar de cultural washing, em paralelo ao greenwashing, que consiste em associar marcas a valores positivos sem investimento real de capital próprio, ao mesmo tempo em que se vende a ideia de mecenas moderno.
Desde 2020, o Instituto Cultural Vale já destinou R$ 1,42 bilhão a iniciativas culturais em todo o Brasil, sempre via Lei Rouanet.
A mineradora Anglo American também segue o mesmo caminho. Em Conceição do Mato Dentro, financiou a restauração da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição com R$ 8,9 milhões, além de investir R$ 3,6 milhões na restauração do núcleo histórico de Córregos e patrocinar o Festival Fartura de gastronomia e cultura.
São ações que reforçam a presença da empresa na região, mas que só se tornam possíveis porque a legislação permite o redirecionamento de impostos.
Siderúrgicas igualmente aparecem em Belo Horizonte e Santa Bárbara, apoiando projetos via Rouanet, reforçando que o mecanismo é amplamente usado como vitrine corporativa.
Entretanto, por mais importante que seja já Lei Rouanet, sem a qual possivelmente não haveria mecenas privados, esses investimentos culturais, na prática, quem os paga é o próprio público, já que os recursos vêm do erário federal.
Daí que é preciso reconhecer o mérito da Lei Rouanet, que garante a sobrevivência de eventos e instituições culturais, mas também é preciso olhar com olhos críticos para a contradição: empresas que defendem o Estado mínimo dependem dele para sustentar sua imagem cultural e ambiental.
História e contradição
Na Grécia clássica, Péricles financiava as artes em homenagem aos deuses, entendendo que cultura era também poder político e afirmação cívica. Em Roma, Caio Mecenas sustentava poetas como Virgílio e Horácio, e seu nome acabou se tornando sinônimo de patrono das artes.
No Renascimento, os Médici bancaram Michelangelo e Leonardo da Vinci, transformando Florença em capital artística da Europa. Já nos Estados Unidos, famílias como Rockefeller e Guggenheim criaram fundações culturais que até hoje mantêm museus, orquestras e universidades.
No Brasil, essa tradição privada nunca se consolidou. Aqui, o mecenato moderno só se tornou viável com a criação da Lei Rouanet, em 1991. O Estado assumiu o papel de mecenas, permitindo que empresas redirecionem parte dos impostos devidos para financiar projetos culturais. É um modelo híbrido: a vitrine é privada, mas o financiamento é público.
Essa contradição revela o traço singular do nosso mecenato contemporâneo. Diferente dos Médici ou dos Rockefeller, que investiam recursos próprios para afirmar poder e legado, as grandes empresas brasileiras dependem do erário federal para sustentar sua imagem cultural.
O resultado é um sistema que garante a sobrevivência da cultura, mas que também expõe a dependência estrutural do Estado, mesmo exercido por parte de corporações que defendem o “Estado mínimo” em outras áreas.
Crítica à crítica rasteira
Mesmo reconhecendo seus méritos e admitindo as ressalvas necessárias, a Lei Rouanet continua sendo alvo de ataques sistemáticos da extrema direita, que insiste em apresentá-la como instrumento de enriquecimento ilícito de artistas ligados à esquerda.
Essa narrativa, repetida à exaustão, não se sustenta em fatos. Trata-se de desinformação, construída com base em números distorcidos, transformados em fakes para alimentar preconceitos e narrativas negacionistas.
São discursos tão falaciosos quanto os que hoje circulam contra as vacinas, em um momento em que doenças antes erradicadas voltam a ameaçar a saúde pública.
Na prática, a realidade é outra. Sem a Lei Rouanet, a cultura brasileira seria ainda mais frágil, desigual e concentrada nos grandes centros urbanos.
A lei de incentivo à cultura não enriquece artistas, mas viabiliza projetos que dificilmente aconteceriam em cidades do interior sem o apoio do Estado.
É graças a Lei Rouanet que festivais literários, espetáculos teatrais, orquestras e museus conseguem sobreviver e chegar ao público.
Assim, desmontar a crítica rasteira é fundamental para que se compreenda o papel da Lei Rouanet não como privilégio, mas como política pública de acesso à cultura, que garante diversidade e descentralização, mesmo quando usada como vitrine corporativa por grandes empresas.
Itabira precisa aproveitar mais da Lei Rouanet

Ainda na terra de Drummond, por exemplo, o Festival Literário Internacional de Itabira (Flitabira) só existe porque há a Lei Rouanet, mecanismo pelo qual a mineradora o patrocina, no que faz muito bem, ainda que cerceando, em certa medida, o cronista crítico da mineração, que ainda não entrou na programação do evento literário.
Sem esse incentivo, dificilmente o festival teria se consolidado em Itabira. É a renúncia fiscal que garante a viabilidade de um evento dessa dimensão, permitindo que escritores, artistas e leitores se encontrem em torno da obra de grandes escritores, incluindo o poeta maior. Portanto, viva a Lei Rouanet. Sem ela, a cultura brasileira seria ainda mais frágil e desigual.
Nesse contexto, a Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade deveria apresentar mais projetos para captar recursos não apenas da Vale, mas também de outras empresas instaladas e ou prestando serviços na região.
Defender a Lei Rouanet é defender a cultura. Mas é preciso reconhecer que, no Brasil, o verdadeiro mecenas é o Estado, aquele mesmo que empresários querem mínimo para não atrapalhar seus negócios, mas ao qual recorrem sempre que precisam, inclusive para patrocinar o chamado cultural washing.
O espetáculo Delírio, com Jonas Bloch, é um bom exemplo de como a cultura se sustenta nesse modelo de patrocínio cultural. Sem ele, o ingresso não estaria sendo vendido a preço tão acessível. Que o teatro da FCCDA esteja cheio em Itabira na sexta-feira (14), com o monólogo inspirado na poesia de Manoel de Barros.
E que se repita à exaustão: cultura nunca é demais, especialmente nesses tempos líquidos, em que tudo que é sólido desmancha no ar.
Serviço
Espetáculo Delírio – Com Jonas Bloch
Data: sexta-feira, 14/08/2026
Horário: 20h
Local: Teatro da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade – Avenida Carlos Drummond de Andrade, 666 – Centro, Itabira
Patrocínio: Vale, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet).
Apoio: Prefeitura de Itabira e Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade
Ingressos: Vendas pelo Sympla no link https://www.sympla.com.br/evento/delirio-com-jonas-bloch/3518019
Valores: R$ 50,00 – inteira / R$ 25,00 – meia









