Itabira tem riquezas culturais e econômicas que precisam ser mais bem exploradas no pós-pandemia
José Norberto de Jesus*
O município de Itabira é rico nos mais variados aspectos: agronegócio, extrativo, na saúde e educação também tem seus valores. No turismo e cultura ainda estamos muito a desejar, embora se tenha avançado sobremaneira em alguns aspectos. Mas falta muito para poder se vangloriar.
Na área cultural nem se fala. É lacônico o quadro. A falta de uma secretaria municipal de Cultura torna o seu futuro fatal. Não é possível que continuem a subestimar nossos valores culturais, artísticos e educacionais, a essa altura do contexto clínico, sanitarista, em que estamos vivendo nesse universo de tantas interrogações.
Diante de um quadro aterrorizador, fruto desta pandemia, é preciso ser cauteloso nas ações para não provocar mais retrocessos.

Há mais de 35 anos acompanho o dia a dia cultural de Itabira. Posso afirmar, sem medo de errar, que há muito o que mudar se é que se quer sonhar com uma Itabira altaneira, com os predicados que poderão torná-la soberana ante a tanto descaso que há com o nosso fazer cultural.
A começar pela ausência de um projeto audaz, robusto e transformador, gerador de referências e riquezas culturais, que instigue e dê vontade de aqui, ser visitado pela sua excelência. Não vai aqui, nenhuma crítica em especial à superintendência de Cultura, pois aonde não existe um orçamento no tamanho da receita do município, temos muito pouco que esperar.
E se a participação de uma empresa que mais dilapida o nosso patrimônio não passa de R$ 50 a R$ 100 mil de contribuição para um festival de inverno, pode-se dizer e afirmar que vamos mal, muito mal.
Quem conhece o Vale do Aço, conhece a Usiminas e os valores que a empresa aplica e quanto se envolve com a cultura local. Existem outros exemplos. Uma pena que falta diplomacia para atrair, por exemplo, o patrocínio de uma Petrobras, do Banco do Brasil, e tantas outras empresas que teriam imenso prazer em associar o seu nome a Carlos Drummond de Andrade.
O que observo é o uso em demasia da expressão “cultural”, o que torna, em princípio, redundante. Mas é a palavra que mais se adequa ao nosso empobrecimento cultural e educacional que há muito é notório.
Aos governantes faltam diplomacia, o alargamento de nossas relações para além fronteira com outros municípios, estados e países. Mas para isso é preciso dispor de gestores mais ousados, capazes de ampliar nossos horizontes.

Lutar por uma Itabira grandiosa, capaz de dizer à mineradora Vale que Itabira é muito mais do que uma cratera geradora de partículas de minério, é tarefa imperiosa.
Uma empresa que se alimenta vorazmente de sua riqueza, como quem aqui nunca veio para reconstruir as entranhas que sangram dilapidadas por ações detratoras, que extraem e deixam para trás migalhas em troca das centenas de vagões que diariamente transportam o minério de ferro, que bamburram os cofres fortes dos orientais.
Pois bem, realizar investimentos que tornem possível tirar nosso colegiado estudantil da pobreza é fundamental. Isto eles não fazem, preferem manter o histórico da miséria de um povo alienado, que é mais fácil comandar a manada, como bem disse o atual ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, sob os aplausos calorosos dos neofascistas que estão no poder.
É inadmissível que o município continue nesse estágio letárgico. É preciso tirar o estudante dessa condição de ignorância cultural letal, para transformá-lo num cidadão vistoso, orgulhoso e criador de um novo futuro para essa terra que tanta gente vem ajudando.
Para tal nobreza é necessário que ele aprenda a ser cidadão. É preciso, contudo, de investimento. Sobretudo, acreditar que esse potencial, a longo prazo, vai proporcionar o retorno de que todos precisam e sonham.
É certo também que para aprofundar um pouco mais além do assunto é preciso que seja respeitada a opinião de quem aqui não está para se manifestar. Mas o desabafo vem numa hora em que todos os pré-candidatos a prefeito e vereadores se lançam para o embate de mais uma eleição municipal.
Nesse momento, é salutar politizar o debate para o crescimento político e florescimento das ideias. Os candidatos tanto a vereador quanto a prefeito têm de apresentar projetos consistentes sobre as questões emergentes que afligem a população, com visões de futuro resolutivas.
Chega de trocas efêmeras do tão costumeiro fisiologismo do “toma lá dá cá”, tão fugaz e inconsequente. A presença de um candidato voltado para a cultura e para o seu real desenvolvimento urge para Itabira.
Que seja uma pessoa ilibada, estudiosa, conhecedora dos problemas críticos e estruturais que passem pela juventude, saúde, educação, cultura, meio ambiente, todas essas secretarias são primordiais.
Mas que se possa ter um olhar mais apurado na questão financeira, principalmente, em se tratando da economia nesta fase que a crise acelera e prenuncia tempos bicudos pela frente. Outro cuidado bem maior se deve ter com a cultura e com as diferentes manifestações artísticas existentes no município.

Um político capaz e ousado, que tenha capacidade de sentar com os estrategistas da Interassociação e demais segmentos sociais e culturais, torcendo para que compreendam a minha tristeza de estar envelhecendo e vendo o sonho esvair-se entre os dedos das mãos, como as chagas de Jesus Cristo.
Creio, pois, que as demais universidades e faculdades, Sindicato Metabase, Acita, Prefeitura, iniciativa privada, juntos, possam participar de um projeto criativo e construtivo para a cultura itabirana, um projeto transformador que eleve a consciência do cidadão para o coletivo e democratização do fazer com acesso aos bens culturais que esta terra produz.
Um projeto em que as empresas ao assumirem o papel de mecenas da cultura, se sintam contempladas e satisfeitas com a exposição de suas marcas em projetos que empolgam o público, torna-o feliz e participante de uma cultura viva, compartilhando as riquezas naturais e patrimoniais de Itabira.
É justo e factível imaginar o grupo Belmont, com suas esmeraldas verdinhas tão cobiçadas desde os bandeirantes Fernão Dias, Borba Gato, e tantos outros que não a encontraram, confundindo-as com turmalinas, possa financiar a instalação de um museu de pedras preciosas na cidade, não só esmeraldas, mas também água-marinha, alexandrita e outras tantas preciosidades que fazem a riqueza já diversificada do município e da região brilhar.

Essas iniciativas alavancam o turismo e ajudam até mesmo a tornar Itabira uma praça comercial de pedras preciosas de relevância no estado, resgatando inclusive as antigas ourivesarias.
Os turistas irão também conhecer a história do garimpo de pedras na região, um outro veio importante que o município tem a explorar após o fim dessa pandemia, quando o interior será cada vez mais valorizado pela tranquilidade e paz de espírito que oferece.
E junto a tudo isso, somando-se ao que já vem sendo feito e que tem muito espaço para avançar, tem-se ainda a volumosa produção da chamada economia criativa, tão decantada, mas nem sempre contando com apoio correspondente para o seu florescimento e desenvolvimento.
No campo do showbiz há muito o que fazer, como já se comprovou no passado com o festival de rock UAI, com uma agenda cultural diversificada com os projetos Quinta Cultural, Itabira é Hip-Hop, além do incremento e mudanças que podem ocorrer com as programações futuras na Exposição Agropecuária, e mesmo com as antigas Feiras da Paz.

A programação em torno do poeta-maior, como a Festa Literária Drummondiana merece todo um esforço adicional, com patrocínios de peso, para torná-la um acontecimento de peso no cenário cultural nacional, pelo que Itabira representa e merece por ser berço de Carlos Drummond de Andrade.
Enfim, ideias e projetos não faltam. Só é preciso ter apoio político e econômico, que a criatividade aflora. Itabira merece muito mais do que temos visto no campo cultural – e não é de agora.
Mas antes tarde do que nunca, para que possamos continuar tendo orgulho de ser itabirano, conterrâneo de um dos maiores poetas da língua portuguesa.
*José Norberto de Jesus, o Bitinho, é produtor cultural, idealizador do Festival UAI, um grande acontecimento itabirano na década de 1980.
Caro Bitinho,
A autocrítica depura. A luta consagra mudanças. A detonação ao projeto Itabira: Capital Nacional da Poesia (confira na matéria http://viladeutopia.com.br/itabira-berco-do-poeta-drummond-merece-titulo-de-capital-da-poesia/ aqui na nossa Vila de Utopia) questiona exatamente a falta de condições do município em reivindicar tal título. Veja também na matéria Cultura é para valorizar ou ignorar, eis a questão em http://viladeutopia.com.br/cultura-e-para-valorizar-ou-ignorar-eis-a-questao/. É preciso semear o vento na cidade e fazer o povo ir às ruas beber a tempestade.
Saudações.
Saúde