Itabira de Drummond recebe autores do Brasil e do exterior nos quatro dias do 6º Flitabira

Fotos: Carlos Cruz

Festival Literário Internacional de Itabira começa nesta quinta-feira com programação gratuita, homenagens, atrações para todas as idades e transmissão ao vivo pela internet

A cidade natal de Carlos Drummond de Andrade se transforma, a partir desta quinta-feira (29), em um grande território dedicado à literatura, à arte e ao pensamento. Durante a tradicional Semana Drummondiana, a sexta edição do Festival Literário Internacional de Itabira (6º Flitabira) reúne escritores brasileiros e estrangeiros, artistas, educadores, pesquisadores e leitores em uma programação gratuita que segue até domingo (1º).

Entre os destaques da abertura estão a historiadora e filósofa Rita Von Hunty, a escritora e intelectual Carla Akotirene e o poeta e cronista Fabrício Carpinejar. A edição também homenageia as escritoras Conceição Evaristo, Leda Maria Martins e Maria Mazzarello, além de reconhecer as matriarcas quilombolas itabiranas Dona Rosinha, Dona Tita e Dona Joana Zeferina como patronas do evento.

Itabira e a mineração

Com o tema A Máquina do Mundo em Nós, o festival celebra os 75 anos de Claro Enigma, uma das obras centrais da trajetória de Carlos Drummond de Andrade – e livro que abriga aquele que é considerado um dos mais importantes poemas da literatura em língua portuguesa: A Máquina do Mundo.

A partir dessa obra, o 6º Flitabira propõe reflexões sobre memória, identidade, conhecimento, política, natureza e os dilemas contemporâneos.

Um dos convidados mais aguardados desta edição é o jornalista, ensaísta, compositor e pianista José Miguel Wisnik, professor de Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo (USP) e autor de Maquinação do Mundo: Drummond e a Mineração, livro que se tornou referência para compreender a complexa relação entre o poeta itabirano, sua cidade natal e a atividade minerária que transformou profundamente a paisagem e a história local.

Na obra, Wisnik investiga como a mineração se apresenta na obra literária de Drummond não apenas como tema, mas como parte constitutiva de sua visão de mundo. Ao relacionar poemas como A Montanha Pulverizada e imagens recorrentes da memória itabirana, o autor demonstra como o escritor itabirano transformou em literatura as contradições de uma cidade marcada simultaneamente pela riqueza mineral e pelas perdas provocadas pela exploração do minério.

A sua análise ajuda a compreender a célebre “fotografia na parede”, presente no poema Confidência do Itabirano, não apenas como memória afetiva da infância, mas também como símbolo de um lugar que se altera de forma irreversível ao longo do tempo.

Perdas incomparáveis
Wisnik traz a leitura de Drummond e a mineração para o Flitabira 2026, que ocupa Itabira com programação monumental e celebra os 75 anos de Claro Enigma 

Foi a partir desse mergulho na história de Itabira e na obra drummondiana que Wisnik passou a enxergar de maneira ainda mais clara o papel central da cidade na formação intelectual e poética do escritor. Em visita a Itabira durante a 17ª Semana Drummondiana, em 2018, ele observou que a destruição do Pico do Cauê simboliza, de forma concreta, um dos grandes temas presentes na obra do poeta.

“A Montanha Pulverizada é a prova literal e material do que A Máquina do Mundo representa em termos abstratos”, afirmou na ocasião, ao analisar a conexão entre o desaparecimento da principal referência geográfica de Itabira e os processos econômicos e históricos que moldaram o século XX.

Wisnik também destaca que a relação de Drummond com a mineração nunca se limitou à dimensão paisagística ou sentimental. Para ele, a famosa pedra presente na obra do poeta possui múltiplos significados, reunindo elementos metafísicos, históricos e políticos.

Ele chama atenção para o inconformismo de Drummond diante da ausência de contrapartidas proporcionais ao enriquecimento gerado pela exploração mineral. E lembra a atuação do poeta, com as crônicas publicas no Correio da Manhã, nos anos 1950, em defesa de uma participação mais efetiva de Itabira na riqueza produzida pela então estatal Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), hoje a grande multinacional Vale S.A.

Essa tensão entre pertencimento e crítica, afeto e inconformismo, está presente em diversos textos de Drummond. Entre eles, uma das frases mais críticas sobre sua cidade natal: “Penso às vezes, cruamente, que Itabira vendeu a sua alma à Companhia Vale do Rio Doce”, escreveu o poeta e cronista itabirano ao refletir sobre o presente de então e o futuro incerto da cidade diante da crescente dependência econômica da mineração.

No Flitabira, Wisnik retorna a Itabira para aprofundar essa discussão ao participar da roda de conversa A Máquina do Mundo em Nós, na noite de sábado (31), data em que Carlos Drummond de Andrade completaria 124 anos.

O encontro terá mediação do jornalista e escritor Sérgio Abranches e contará também com a participação do cantor, compositor e violonista Kristoff Silva, artista com forte ligação com Itabira e ex-professor da Escola Livre de Música da cidade.

A presença de Wisnik e Kristoff Silva estabelece uma conexão singular entre literatura, música e memória. De um lado, um dos principais intérpretes contemporâneos da obra de Drummond; de outro, um músico que ajudou a formar músicos itabiranos.

Juntos, eles ampliam o diálogo proposto pelo festival entre a poesia drummondiana, a história da mineração e os desafios de compreender, ainda hoje, os múltiplos sentidos da “máquina do mundo” que continua a moldar Itabira.

Abertura

O 6º Flitabira começa às 18h, no Teatro da FCCDA, com a cerimônia oficial de abertura conduzida pelos curadores Sérgio Abranches e Calila das Mercês, ao lado do presidente do festival, Afonso Borges.

Às 18h30, a escritora e crítica cultural Rita Von Hunty participa da mesa “Corpos Narrados”, em que discute o corpo como território de identidade, desejo e política, além das narrativas que a sociedade constrói sobre ele.

Na sequência, às 19h30, a escritora e pesquisadora Carla Akotirene apresenta a mesa “Amor Preto”, inspirada em seu mais recente livro. A autora aborda questões relacionadas ao afeto, ao cuidado e à ancestralidade entre pessoas negras em uma sociedade atravessada pelo racismo.

Encerrando a programação literária da noite, às 20h30, o poeta e cronista Fabrício Carpinejar conduz a conversa “Poesia e Amor no Cotidiano”, refletindo sobre família, afetos e as experiências que dão sentido à vida cotidiana.

Autores locais e saberes ancestrais

A programação regional movimenta diferentes espaços ao longo do dia, com destaque para o lançamento do livro “Palavras que Transformam”, resultado do trabalho de estudantes da Escola Municipal Nico Andrade e de escolas da zona rural das regiões do Carmo e de Ipoema.

Os jovens autores participam de um sarau, apresentando os poemas que integram a publicação.

Às 11h, a mesa “Total explicação da vida – poesia e deficiência” reúne Tiago Bretas e Lilian Campos para discutir direitos, limites e equidade a partir das experiências com a deficiência.

Já às 16h, a mesa “‘Olha, repara, ausculta’ – saberes ancestrais descortinam a Máquina do Mundo” promove uma reflexão sobre os conhecimentos tradicionais e suas contribuições para compreender os desafios do mundo contemporâneo.

A programação do primeiro dia se encerra, no Coreto da praça do Expedicionário, com o Momento Poesia, encontro que reúne poetas independentes de Itabira em leituras de Drummond e de obras autorais inspiradas em sua trajetória.

Programação infantojuvenil

As atividades voltadas para crianças e jovens começam às 8h, com o Jardim de Histórias e Brincadeiras, conduzido por Rose Andrade e Quézia Juliana, acompanhadas pelo músico Carlos Alberto.

Às 9h, o grupo Quase uma Bandinha convida o público a participar de uma experiência musical interativa. À tarde, o Espaço Cultural LuarAzul apresenta o espetáculo “Memórias de um Abacateiro”, seguido da atividade “O que você pensa quando falo África?”, com a escritora Lavínia Rocha.

Teatro e música

Além da literatura, o 6º Flitabira abre espaço para outras manifestações artísticas. Às 19h30, no Coreto, a Cia Itabirana de Teatro apresenta “Ah, se o Rio Tanque falasse…”, intervenção teatral e musical inspirada em causos mineiros e na tradição oral da região.

A montagem resgata histórias conhecidas do imaginário itabirano, reafirmando um dos principais propósitos do festival: conectar memória, território e diferentes formas de narrativa.

Sobre o festival

Com curadoria de Sérgio Abranches, Calila das Mercês, Sandra Duarte, Carolina Peixoto e Rafael Nolli, a sexta edição do Flitabira reafirma o compromisso de democratizar o acesso à literatura, promover o encontro entre diferentes gerações de leitores e valorizar a diversidade de vozes da produção cultural brasileira e internacional.

Ao reunir escritores, pesquisadores, educadores, artistas e comunidades locais na cidade onde nasceu Carlos Drummond de Andrade, o festival fortalece o papel de Itabira como uma das principais referências da literatura brasileira contemporânea.

Patrocinado pela mineradora Vale, por meio da Lei Rouanet do Ministério da Cultura, o Flitabira conta com apoio da Prefeitura de Itabira, da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA) e do Itaú. Todas as atividades são gratuitas, acessíveis e transmitidas ao vivo pelo YouTube.

6º. FLITABIRA 2026  – Programação

A MÁQUINA DO MUNDO EM NÓS

75 anos do livro “Claro Enigma’, de Drummond

Patronas: Dona Tita e Dona Rosinha

Personalidades Homenageadas: Maria Mazzarelo, da Mazza Edições, Conceição Evaristo e Leda Maria Martins

QUINTA-FEIRA – 29 DE OUTUBRO

18h – Abertura

Sérgio Abranches, Calila das Mercês e Afonso Borges

18h30 – Tema: Corpos Narrados

Convidada: Rita Von Hunty

Mediação: Calila das Mercês

19h30 – Tema: Encruzilhadas Negras

Convidado: Carla Akotirene

Mediação: Afonso Borges

20h30 – Tema: Poesia e Amor no Cotidiano

Convidado Fabricio Carpinejar

Mediação: Sérgio Abranches

SEXTA-FEIRA – 30 DE OUTUBRO

17h – Tema: Outros Mundos

Convidado: Geni Núñez

Mediação: Ale Santos

18h – Tema: A Palavra e o Mundo

Convidado: Geraldo Carneiro e Maria Esther Maciel

Mediação: Marcelino Freire

19h – Tema: Corpo e Palavra

Convidado: Ricardo Aleixo e Leda Maria Martins

Mediação: Natália Alves

20h – Tema: Claro Enigma e A Máquina do Mundo

Convidado: Pedro Bial e Pedro Drummond

Mediação: Calila das Mercês

21h– Tema: Homenagem a Dona Rosinha e Dona Tita

Convidada: Conceição Evaristo e representantes das famílias.

Mediação: Sérgio Abranches

22h – Espetáculo “Claro Enigma” em Libras

Convidado: Grupo de Dança Primeiro Ato

SÁBADO – 31 DE OUTUBRO

14h – Tema: Vidas Escritas

Convidado: Alexandre Porto Vidal

Mediação: Marcelino Freire

15h – Tema: Juventude Ferida

Convidado: Hugo Ferreira Monteiro

Mediação: Carlos Vinícius

16h – Tema: Vozes Jovens

Convidado: Pétala Souza e Isa Souza

Mediação: Goka Maciel

17h – Tema: Amazônia Ancestral

Convidado: Verenilde Pereira

Mediação: Calila das Mercês

18h – Tema: Outras Diferenças

Convidado: Roberto Parmeggiani

Mediação: Geni Núñez

19h – Tema: Literatura, Futurismo e Política

Convidado: Ale Santos e Sérgio Abranches

Mediação: Marcelino Freire

20h – Tema: Leitura, Antirracismo e os Novos Tempos

Convidadas: Conceição Evaristo, Maria Mazzarelo e Leda Maria Martins

Mediação: Afonso Borges

21h – Tema: A Máquina do Mundo em Nós

Convidado: José Miguel Wisnik e Kristoff Silva

Encerramento: Sérgio Abranches

Serviço

6º Flitabira – Festival Literário Internacional de Itabira

 Data: 29 de outubro a 1º de novembro de 2026, quinta a domingo
Local: Teatro da FCCDA e entorno – Itabira (MG)

Entrada gratuita em todas as atividades

Acessibilidade: Libras e autodescrição

Transmissão: ao vivo pelo YouTube @flitabira

Informações: @flitabira

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