Itabira continua sofrendo com falta de água em alguns bairros; Saae responsabiliza onda de calor e consumo excessivo
A região do bairro João XXIII é uma das mais afetadas pela falta de água na cidade
Foto: Carlos Cruz
Entre otimismo político e atrasos estruturais no abastecimento, a cidade enfrenta reservatórios zerados em meio a chuvas ainda esparsas e calor intenso
O prefeito de Itabira, Marco Antônio Lage (PSB), é, sobretudo, um otimista. Pelo andamento das obras de captação no rio Tanque para abastecer a cidade e atrair novas indústrias, ele acredita que 2026 será o último ano em que a população sofrerá com a escassez de água jorrando nas torneiras domiciliares.
Otimista, porque, segundo a previsão da mineradora Vale, responsável, por força de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), pela execução integral das obras, incluindo a construção de uma nova estação de tratamento de água na subida para o Alto do Pinheiro, no bairro Campestre – o novo sistema de captação, tratamento e distribuição só deve estar concluído no fim de 2027.
Se assim for, a cidade de Itabira enfrentará ainda duas fortes estiagens com escassez hídrica, até que comece a ser distribuída a água transposta do rio Tanque para as bacias dos rios de do Peixe e Jirau.
Mas eis que, quando se pensava que a crise hídrica deste ano já havia chegado ao fim, a ponto de ser suspenso o estado de emergência decretado em meio a uma das maiores estiagens dos últimos anos, o Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) de Itabira adverte a população de que pode faltar água em alguns bairros da cidade nos próximos dias.
Reservatórios zerados e bairros afetados
Segundo informa o Saae, na noite de sexta-feira (26), o maior reservatório da cidade, conhecido como Milhão, por conter essa capacidade de reservação, chegou a zerar.
Com capacidade para cerca de 4 milhões de metros cúbicos, o esvaziamento comprometeu o abastecimento já nesse sábado (27) – e pode ter prosseguimento neste domingo (28) e nos dias seguintes, caso não volte a chover mais fortemente na cidade.
Isso ocorre mesmo com todas as estações de tratamento operando em capacidade máxima. O Saae afirma que o consumo elevado tem esvaziado rapidamente os reservatórios, gerando desequilíbrio no sistema.
O impacto atinge principalmente bairros como Água Fresca, Amazonas, Bethânia, Clóvis Alvim, Esplanada da Estação, Hamilton, João XXIII, Juca Batista, Novo Amazonas, Panorama, São Bento, Vila Piedade, Vila Salica, Major Lage de Baixo, Santa Ruth, São Cristóvão, São Marcos, além de condomínios como Belleville e Morada da Brisa.
A autarquia ressalta que, por se tratar de um sistema interligado, toda a cidade pode sentir os efeitos desse momento, que espera seja momentâneo, de desabastecimento em algumas localidades.

Contexto climático e contradições
O Saae atribui a falta de água ao calor e ao consumo excessivo. De fato, os termômetros têm ultrapassado os 30 °C em Itabira, aumentando a demanda.
Mas os dados do ClimaTempo mostram que dezembro não foi um mês de estiagem, cujo fim foi anunciado com alívio.
Choveu razoavelmente na cidade desde 14 de dezembro, com atraso, é verdade. No período, o acumulado teria ultrapassado 200 mm, próximo da média histórica de 297 mm.
O problema, portanto, não está apenas na ausência de chuvas, mas na capacidade de reservação, na distribuição e nas perdas da rede, atualmente por meio de uma alça hidráulica incompleta, sem interligar todos os reservatórios.
O vendaval de 14 de dezembro, além de causar estragos na cidade, pode ter comprometido temporariamente a qualidade da água bruta, exigindo ajustes no tratamento.
Desde então, as chuvas foram mais esparsas, mas suficientes para manter volumes consideráveis.
Assim, a contradição entre precipitação registrada e reservatórios zerados levanta questionamentos sobre a eficiência operacional dos sistemas de distribuição na cidade.
Com redes obsoletas, inclusive muitas ainda de amianto, o que é proibido pelos danos à saúde, há perdas consideráveis de água tratada antes de chegar aos domicílios.
Portanto, a continuidade da falta de água em alguns bairros, não pode ser explicada apenas pelo consumo elevado em dias quentes.
Os dados pluviométricos de dezembro mostram que houve chuvas significativas, inclusive eventos extremos.
A persistência do desabastecimento expõe fragilidades estruturais do sistema de reservação e distribuição, que precisam ser solucionados de forma definitiva, antes da entrada em operação do projeto do rio Tanque, prevista para 2027.
Apelo ao consumo consciente, sempre
Enquanto não há solução estrutural, o Saae insiste no uso racional da água, o que deve ser um cuidado permanente.
Recomendações do Saae para economizar água:
- Evite lavar calçadas e veículos com mangueira.
- Reduza o tempo de banho e feche o chuveiro ao se ensaboar.
- Não deixe a torneira aberta ao escovar os dentes ou lavar louça.
- Reaproveite água sempre que possível, como a da máquina de lavar.
“O uso responsável da água é fundamental para a recuperação dos níveis dos reservatórios e para garantir o abastecimento durante o período de calor intenso”, afirmou o diretor-presidente da autarquia, Valdeci Luiz Fernandes Junior.








Se eu fosse a prefeita cortaria o fornecimento de água da mineradora…