HIV/Aids avança entre populações negras e vulneráveis no Brasil, enquanto tecnologia médica capaz de transformar prevenção segue inacessível

A ampliação do acesso às novas tecnologias de prevenção será um dos temas centrais da 26ª Conferência Internacional sobre AIDS, que acontece pela primeira vez no Rio de Janeiro, no fim deste mês

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Mais de 62% das mortes por HIV/AIDS no país ocorrem entre pessoas negras; acesso ao lenacapavir, considerado uma das maiores inovações para a prevenção à doença, é limitado

Embora os números de novos casos de HIV no Brasil apresentem estabilidade, a epidemia continua em curso e afeta de forma desproporcional as populações mais vulneráveis. Em 2024, foram registradas 39.216 detecções de infecção pelo HIV no país, ante 38.222 em 2023, de acordo com o último Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde. Os dados mostram que, por trás da aparente estabilidade, persistem profundas desigualdades raciais, sociais e territoriais quando as informações são analisadas com mais atenção.

Os indicadores revelam que a epidemia tem impactado cada vez mais a população negra. Em 2014, pessoas brancas representavam a maior parcela dos casos registrados de HIV, com 49% das notificações. Dez anos depois, o quadro se inverteu: em 2024, 59,7% dos casos notificados ocorreram entre pessoas pretas e pardas, enquanto a participação das pessoas brancas caiu para 36,8%.

As desigualdades também aparecem nos dados sobre mortalidade. Em 2024, 62,2% das mortes relacionadas ao HIV/AIDS foram registradas entre pessoas negras, sendo 51,3% entre pardos e 10,9% entre pretos. Entre pessoas brancas, o percentual foi de 36,6%.

“A epidemia não acabou. Ela continua avançando justamente sobre as populações que enfrentam mais barreiras a serviços de saúde, inclusive aquelas que têm menos acesso a inovações médicas e de prevenção ao vírus”, alerta Antonio Flores, infectologista de Médicos Sem Fronteiras (MSF).

Sobre prevenção, Flores está se referindo, principalmente, ao lenacapavir, tecnologia médica apontada como uma das maiores revoluções na prevenção ao HIV nas últimas décadas. O produto injetável só requer duas doses ao ano e apresenta eficácia de quase 100% na prevenção ao HIV.

Embora o lenacapavir tenha potencial para transformar a resposta global à epidemia, ele está inacessível para grande parte da população por conta dos preços proibitivos, licenciamento restritivo e modelos de distribuição excludentes. “Atualmente, a Gilead, farmacêutica dona da patente, controla totalmente quem pode receber o lenacapavir, onde ele está disponível e sob quais condições”, explica.

A empresa comercializa o produto por US$ 28.000 ao ano por paciente nos EUA, embora ele pudesse ser produzido por menos de US$ 40. Algumas versões genéricas mais acessíveis devem chegar ao mercado já no próximo ano, mas apenas fabricantes selecionados terão permissão para produzi-las, e sua venda será restrita a determinados países. Brasil, Argentina, México e Peru, onde foram realizados os ensaios clínicos do medicamento, ficaram totalmente excluídos desse acordo.

Inovação ameaçada pela falta de acesso

A ampliação do acesso às novas tecnologias de prevenção será um dos temas centrais da 26ª Conferência Internacional sobre AIDS, que acontece pela primeira vez no Rio de Janeiro, no fim deste mês. O infectologista de Médicos Sem Fronteiras (MSF), Antonio Flores, participará, no dia 30 de julho, de um debate sobre o lenacapavir, injetável administrado em apenas duas doses por ano.

Recentemente, MSF lançou a campanha global “Duas doses. US$ 40. Em todos os lugares.”, que cobra a ampliação do acesso à tecnologia de saúde e denuncia a diferença entre o custo estimado de produção e os preços praticados atualmente.

“Quando falamos que cerca de 1,2 milhão de pessoas passaram a viver com HIV no mundo em 2025, estamos falando de vidas que poderiam ser protegidas por ferramentas eficazes de prevenção. O impacto da falta de acesso é calculado em vidas”, afirma Flores.

Demanda supera oferta

Segundo MSF, mesmo organizações que atuam diretamente na resposta ao HIV ainda não conseguem acessar o lenacapavir em quantidade suficiente. Há um ano, MSF tenta comprar o injetável diretamente da fabricante para utilização em seus programas médicos, mas a empresa se recusa a vender. A farmacêutica orienta MSF a acessá-lo por meio do Fundo Global.

Em Eswatini, país com a maior taxa de novas infecções por HIV do mundo, a organização recebeu apenas 70 doses, esgotadas em poucas semanas. No Quênia, uma clínica apoiada por MSF dispõe de apenas 39 doses.

Para os especialistas, o debate sobre o lenacapavir vai muito além dos aspectos científicos. A questão central é quem terá acesso à inovação. Em um mundo onde a epidemia afeta de forma crescente pessoas negras, de menor renda e residentes em áreas periféricas, a chegada de novas tecnologias só terá impacto real se elas forem disponibilizadas justamente para quem mais precisa delas.

“O desafio não é apenas desenvolver medicamentos inovadores. É garantir que eles cheguem às populações mais vulneráveis e aos países mais afetados pela epidemia. Sem acesso, inovação não salva vidas”, conclui Flores.

Serviço

Evento: 26ª Conferência Internacional sobre AIDS

Data da mesa: 30 de julho

Horário: 12h às 13h

Mediadores: Antonio Flores, infectologista de Médicos Sem Fronteiras (MSF), Renata Reis, diretora-geral de Médicos Sem Fronteiras-Brasil

Participantes:

  • Veriano de Souza Terto Junior, Vice-Presidente da ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS)
  • Tlaleng Mofokeng, diretora-executiva da OurEquity (África do Sul)
  • Eloan Pinheiro, consultora, trabalhou por mais de 30 anos na Farmanguinhos da Fiocruz
  • Asia Russell, do programa de rádio antirracista e progressista sobre assuntos públicos e cultura LGBTQ Out FM (Estados Unidos)
  • Sibongile Tshabalala, Presidente do Treatment Action Campaing (África do Sul)
  • Tom Ellman, diretor da Unidade Médica da África Austral de Médicos Sem Fronteiras (África do Sul)

Tema: Onde está meu lenacapavir? Como quebrar monopólios e acabar com a epidemia de HIV?

 

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