Há 40 anos, morre Marco Antônio Araújo, aos 36 anos, um dos multi-instrumentistas mais criativos e expressivos de Minas Gerais
Fotos: Nando Fiúza/ Reprodução/Influências
Vítima de aneurisma cerebral, o músico mineiro deixa uma discografia sólida e uma trajetória promissora, interrompida no auge da carreira, mas que continua a emocionar gerações de ouvintes
Carlos Alvarenga
Na manhã de 6 de janeiro de 1986, Minas Gerais perde um de seus músicos mais promissores, vítima de um aneurisma cerebral: Marco Antônio Araújo, multi-instrumentista que aos 36 anos já havia conquistado respeito entre críticos, colegas e admiradores da música instrumenta.
Embora pouco conhecido do grande público, sua obra sofisticada era o “biscoito fino” da música instrumental mineira, que raramente alcança a massa, mas que já se destacava como uma das mais originais da cena musical mineira.
Ele preparava-se, inclusive, para uma turnê pela Europa, que poderia ter ampliado ainda mais o alcance de sua música e consolidado sua trajetória musical promissora.
Rock progressivo com sotaque mineiro
Araújo construiu uma linguagem própria. Misturava o vigor do rock progressivo com a delicadeza da música barroca mineira, das modinhas e serestas, além de influências da música clássica.
Essa fusão resultou em discos que se tornaram cultuados e que hoje são considerados marcos da música instrumental brasileira: Influências (1981), Quando a Sorte te Solta um Cisne na Noite (1982), Entre um Silêncio e Outro (1983), Lucas (1984) e Animal Racional (1985, inacabado, lançado postumamente).
Além da discografia autoral, Marco Antônio Araújo foi músico contratado pela Orquestra Sinfônica do Palácio das Artes, em 1977, atuando como violoncelista. Essa experiência reforçou a sua formação erudita e a ponte que estabeleceu entre música clássica e rock progressivo.
Show em Itabira e o flautista ocasional
Embora seus instrumentos principais fossem violão, guitarra e violoncelo, Araújo surpreendia em apresentações ao vivo.
Em um dos Festivais de Inverno de Itabira, na década de 1980, no ginásio do Valério, lembro-me dele tocando também a flauta – instrumento que não consta oficialmente como parte de sua formação principal, mas que comprova sua versatilidade como multi-instrumentista.
Nos discos, a flauta foi executada por músicos convidados: Bettine Clemen em Influências, Eduardo Delgado em Lucas e Quando a Sorte te Solta um Cisne na Noite, e Paulo Guimarães em Entre um Silêncio e Outro.
Essa diversidade de colaboradores ampliava a riqueza sonora de sua obra e mostrava sua capacidade de integrar diferentes timbres em composições sofisticadas, juntamente com outros grandes músicos mineiros.
Comparações e singularidade

Araújo chegou a ser apelidado de “Egberto Gismonti dos anos 80”. A comparação, embora elogiosa, não faz jus à singularidade de cada um.
Egberto Gismonti, nascido na cidade do Carmo, no Rio de Janeiro, já era consagrado internacionalmente. E segue ativo até hoje, reconhecido como um dos maiores músicos instrumentistas do mundo.
Marco Antônio Araújo, por sua vez, estava apenas no início de uma trajetória promissora, interrompida de forma brutal. São dois músicos geniais, mas com histórias distintas.
O músico e arranjador mineiro Wagner Tiso, um dos nomes expressivos do álbum Clube da Esquina, de Milton Nascimento e Lô Borges, por ocasião da morte de Araújo, deu um testemunho que reforça a dimensão da perda.
Em entrevista ao jornal Estado de Minas, posteriormente reunida no livro 40 Anos de Entrevista Musical, da jornalista e escritora Malluh Praxedes, Tiso afirmou: “Marco tinha uma força criativa impressionante. Sua morte foi uma perda não só para Minas, mas para a música brasileira.”
A declaração de Tiso não é apenas um elogio, mas um reconhecimento de um artista consagrado, que enxergava em Marco Antônio Araújo um talento capaz de se projetar nacionalmente e até internacionalmente.
Ao destacar sua “força criativa”, Tiso sublinha que Araújo não era apenas um instrumentista habilidoso, mas um compositor com ideias originais, capaz de fundir o erudito e o popular em uma linguagem própria.
Grande perda para Minas e para o Brasil
A morte de Marco Antônio Araújo representou uma perda incomparável para a música instrumental mineira e brasileira.
Sua obra, composta por cinco discos autorais e pela atuação como violoncelista na Orquestra Sinfônica do Palácio das Artes, permanece como testemunho de um artista que ousou criar pontes entre o erudito e o popular, entre o barroco mineiro e o rock progressivo.
Quarenta anos depois, sua música continua a ecoar como lembrança de um talento que partiu cedo demais, mas que deixou marcas profundas na cultura musical de Minas e do Brasil.
Até o momento, não há registros oficiais de homenagens programadas para este janeiro de 2026, quando se completam quatro décadas de sua morte.
Quem sabe ainda alguém se lembre, como diria Drummond, de não se esquecer desse genial músico, reunindo artistas em um tributo especial à sua obra.
Para isso, não vai ser difícil. Afinal, sua memória segue viva entre músicos, pesquisadores e admiradores que reconhecem nele um dos nomes mais criativos de sua geração.
Ouça:
Fontes consultadas
- Estado de Minas, entrevistas publicadas nos anos 1980, reunidas no livro 40 Anos de Entrevista Musical, de Malluh Praxedes.
- Livro Marco Antônio Araújo – Entre a Música e o Silêncio, de Paulo Roberto de Andrade – biografia lançada em 2023, com depoimentos e análise de sua obra.
- Encartes originais dos seus discos.









Conheci Marco Antônio em um show, ao lado de Milton Nascimento, no Palácio das Artes.
Ele foi um músico genial! Saudade enorme dele!