Entre a “pesca probatória” e o silêncio seletivo; o duplo padrão da Justiça e da mídia

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Acusações frágeis contra Lulinha ganham manchetes na mídia tradicional; já os escândalos de Flávio Bolsonaro, das “rachadinhas” ao Banco Master e ao filme Dark Horse, seguem abafados pela mídia e esquecidos nos escaninhos do STF por decisão do ministro André Mendonça

Valdecir Diniz Oliveira*

A abertura de inquérito contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, determinada pelo ministro André Mendonça, a pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR), com base em relatórios da Polícia Federal (PF), tem por objetivo apurar suposta influência em negociações de medicamentos à base de canabidiol com o Ministério da Saúde.

Entretanto, até o momento, o que se comprova é que essas tratativas teriam sido articuladas pelo lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, e pela empresária Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha.

A narrativa na mídia tradicional sustenta que Lulinha e o lobista chegaram a visitar uma fábrica em Portugal e especularam contratos de até R$ 626 milhões com o governo federal, com previsão de margem de lucro de 20% a ser dividida entre os envolvidos.

O Ministério da Saúde declarou oficialmente que nenhum contrato foi assinado, nenhum repasse foi feito e nenhuma negociação se concretizou. Portanto, até agora não há provas materiais contra Lulinha. O que existem são apenas mensagens e áudios que a PF e a PGR vêm utilizando seletivamente para sustentar a acusação.

O caso Flávio Bolsonaro e as provas robustas abafadas

Enquanto isso, casos reais contra adversários como Flávio Bolsonaro, candidato à presidência pelo PL, são suavizados ou deslocados para instâncias inferiores. Flávio já foi alvo de relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que identificaram movimentações financeiras atípicas em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, quando ainda era deputado estadual.

O Coaf apontou depósitos fracionados e transferências incompatíveis com a renda declarada, especialmente envolvendo seu ex-assessor Fabrício Queiroz, que movimentou cerca de R$ 1,2 milhão em valores suspeitos. Esses relatórios embasaram suspeitas de “rachadinhas” e de lavagem de dinheiro por meio de imóveis e empresas de fachada.

Além disso, vieram à tona gravações de conversas entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, tratando de repasses milionários para o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro.

A Polícia Federal investiga se esses recursos foram usados como esquema de lavagem de dinheiro e se parte deles teria servido para sustentar Eduardo Bolsonaro em articulações políticas nos Estados Unidos contra o governo brasileiro e o ministro Alexandre de Moraes.

Apesar da gravidade e da existência de gravações, o caso permanece sem avanço no STF, sem quebra de sigilo e sem abertura de inquérito, por decisão do ministro André Mendonça, o “incrivelmente evangélico”, nomeado pelo pai, que cumpre prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado.

O caso Lulinha e a história que se repete sem provas

As acusações contra Lulinha seguem o padrão da “pesca probatória”, que consiste em abrir inquéritos sem base minimamente comprovada, mas que servem para alimentar manchetes acusatórias na mídia tradicional. Ele já foi acusado de ser sócio oculto da Friboi, de comprar carro de luxo com peças de ouro e de enriquecer ilicitamente. Nenhuma dessas histórias resistiu ao crivo judicial.

O mesmo ocorreu com Lula na operação Lava Jato. O ex-presidente foi acusado de receber como propina um apartamento duplex no Guarujá, construído pela OAS Empreendimentos. A narrativa sustentava que o imóvel teria sido reservado para Lula, mas a própria empresa acabou vendendo o apartamento a terceiros, comprovando que a suposta entrega nunca se realizou.

Outro caso emblemático foi o do sítio de Atibaia, em São Paulo. A acusação afirmava que Lula seria o verdadeiro beneficiário do imóvel, mas as investigações não conseguiram comprovar a propriedade ou vínculo jurídico com o ex-presidente. Esses episódios mostram como acusações frágeis foram transformadas em símbolos midiáticos, sem respaldo material.

Quando não conseguem incriminar Lula diretamente, atacam sua família, como no caso de Lulinha, para manter viva a narrativa de suspeição, alimentada e reforçada pelo preconceito contra Lula e o PT.

O espelho da política e a projeção como arma

Já em campanha, Flávio Bolsonaro projeta seus próprios defeitos no adversário, alimentando a narrativa de que “a corrupção está do outro lado”. A imprensa tradicional reforça essa inversão, amplificando suspeitas frágeis contra Lulinha e silenciando sobre escândalos de Flávio.

É a velha tática de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda da Alemanha nazista entre 1933 e 1945. Goebbels foi responsável por criar e difundir a máquina de propaganda do regime de Adolf Hitler, controlando jornais, rádios, cinema e artes. Seu objetivo era moldar a opinião pública, eliminar a oposição e sustentar o poder nazista por meio da manipulação da informação.

Entre suas estratégias, destacava-se a máxima de que “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. Para isso, utilizava simplificação extrema das mensagens, repetição constante, apelo emocional e a criação de inimigos internos e externos para justificar medidas autoritárias.

Psicologia de massas

Essa lógica não buscava convencer pela razão, mas pela saturação e pela manipulação psicológica das massas – um mecanismo que Wilhelm Reich analisou em profundidade em seu livro Psicologia de Massas do Fascismo, publicado em 1933.

Reich demonstrou que o fascismo não se sustenta apenas pela força militar ou pela economia, mas pelo controle psicológico das massas, enraizado em estruturas sociais e familiares repressivas.

Para ele, a repressão sexual e a disciplina rígida desde a infância criam indivíduos submissos e ansiosos, predispostos a buscar líderes fortes e a aceitar narrativas simplistas. Essa formação gera adultos que, mesmo contra seus próprios interesses, se tornam terreno fértil para slogans fáceis, inimigos inventados e líderes que prometem ordem.

Assim, Reich mostra que regimes autoritários não apenas manipulam a informação, mas moldam subjetividades. A propaganda funciona como catalisador ao ativar disposições inconscientes e canalizar a energia das massas para a obediência cega.

É nesse ponto que sua análise se conecta diretamente à prática de Goebbels. Isso porque, enquanto o ministro criava narrativas repetitivas e emocionais, o terreno psicológico já estava preparado para que essas mensagens fossem absorvidas sem resistência.

Esse mesmo padrão se repete em campanhas políticas contemporâneas, como vemos agora no Brasil, que exploram medos e inseguranças coletivas para manter o controle político, projetando defeitos nos adversários e repetindo acusações frágeis até que pareçam verdades incontestáveis.

E, ao contrário do que alguns poderiam pensar, qualquer semelhança não é mera coincidência.

A reprodução dessas técnicas em diferentes épocas e contextos mostra que a manipulação das massas segue padrões universais, com base na simplificação, repetição, criação de inimigos e exploração do medo.

De forma semelhante, adeptos da campanha bolsonarista replicam esse método ao repetirem acusações frágeis contra adversários, mesmo sem provas, até que se tornem parte do senso comum.Ao mesmo tempo, abafam ou minimizam escândalos robustos envolvendo seus próprios líderes.

A projeção de defeitos e a inversão da narrativa, como “a corrupção está sempre do outro lado”, são instrumentos herdados dessa tradição de propaganda política, adaptados ao ambiente midiático e digital contemporâneo. É assim também que o espetáculo substitui a substância, criando um ambiente de desinformação que favorece quem domina o discurso moralista.

STF e os critérios que mudam conforme o alvo

A atuação do STF em casos de grande repercussão política tem revelado critérios que variam conforme o alvo das investigações. Os golpistas de 8 de janeiro permanecem sob a alçada do Supremo em razão da gravidade dos atos e da conexão direta com a tentativa de ruptura institucional. Nesse caso, o Supremo justificou sua competência pela ameaça à ordem democrática e pela necessidade de julgamento célere e centralizado.

Em situações distintas, a lógica se altera. Lulinha, que não possui foro privilegiado, foi mantido no STF por decisão do ministro André Mendonça, contrariando o pedido da Procuradoria-Geral da República para que o caso fosse remetido à primeira instância. A justificativa foi a suposta conexão com autoridades que possuem foro, mas na prática essa decisão ampliou a visibilidade midiática de uma investigação sem provas materiais.

Já Flávio Bolsonaro, que possui foro privilegiado por ser senador, foi beneficiado por decisões que deslocaram investigações robustas, como as das “rachadinhas” e das movimentações financeiras apontadas pelo Coaf, para instâncias inferiores, reduzindo o alcance e o impacto político.

Em vez de permanecer sob o crivo máximo do STF, os processos foram fragmentados e diluídos, contribuindo para o enfraquecimento das acusações. Essa seletividade reforça a percepção de que a Justiça não atua com o mesmo rigor para todos, mas adapta sua postura conforme o alvo e o impacto político.

Como Lula pode virar o jogo tendo a transparência como arma

A defesa de Lulinha transformou a quebra de sigilo em oportunidade política. Em vez de resistir, o acusado se antecipou e declarou que entregará voluntariamente seus dados ao STF, reforçando a narrativa de que não há nada a esconder. Esse gesto desmonta a ideia de que o sigilo seria usado para ocultar irregularidades e evidencia que as acusações contra ele se sustentam apenas em mensagens e ilações, sem provas materiais.

Esse movimento pode ser ampliado como estratégia política ao desafiar Flávio Bolsonaro a fazer o mesmo.

O senador, alvo de relatórios do Coaf que apontaram movimentações suspeitas de R$ 1,2 milhão ligadas a Fabrício Queiroz, além de gravações com o banqueiro Daniel Vorcaro sobre repasses milionários para o filme Dark Horse, poderia, já que se diz inocente, voluntariamente abrir seus sigilos bancário e fiscal.

Se não o fizer, o contraste ficará evidente. De um lado, Lulinha expõe seus dados para provar inocência; de outro, Flávio se protege em instâncias inferiores e foge da transparência.

Assim, a defesa de Lulinha e a campanha de Lula podem transformar a transparência em arma política, expondo o duplo padrão e recolocando o debate no terreno da verdade.

A história mostra que, até aqui, não há provas contra Lula ou contra Lulinha, apenas narrativas repetidas para alimentar suspeitas.

Se Lulinha abre seus sigilos voluntariamente e Flávio não o fizer, ficará claro que qualquer semelhança com a lógica de Goebbels e com a análise de Wilhelm Reich sobre manipulação das massas não é mera coincidência, mas a repetição consciente de uma estratégia de poder baseada na mentira, na saturação e no medo.

* Valdecir Diniz Oliveira é cientista político, jornalista e historiador.

 

 

 

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