Encontro com Prestes

Encontro de Prestes com o povo, comício organizado pelo PCB, no São Januário – Vasco – Rio,  23 de maio de 1945.

Foto: Tribuna Popular/
Biblioteca Nacional-Rio
Por Carlos Drummond de Andrade

Rio, 22.5.1945 – O povo da cidade tem um encontro marcado com Luís Carlos Prestes. Será amanhã, à noite, no estádio do Vasco. Um primeiro encontro. Deverão seguir-se outros, aqui e ali, como é comum entre pessoas que se entendem, que precisam comunicar-se e que fazem da palavra um meio de esclarecimento e de ação.

Como tardou esse encontro! Muitos anos. Não foi possível marcá-lo mais cedo. Dois velhos conhecidos – Prestes e o povo – se estimavam, confiando um no outro, sem que o contato vivo nas ruas e nas casas trouxesse esse elemento de presença pessoal, que dá tanto calor às relações humanas. O povo está sempre nas ruas, porém Prestes não estava.

Sua ausência não impedia que se sentisse quanto o povo lhe interessava, e sabia-se que no centro do isolamento mais absoluto as ideias desse homem eram de confraternização com todos os brasileiros, de participação nos grandes trabalhos para levar o Brasil para a frente, vencendo a rotina, a indiferença, as prevenções personalistas, os preconceitos partidários, as miúdas divisões internas.

Luís Carlos Prestes não distinguia entre os brasileiros dispostos a essa tarefa e pensava em reuni-los todos: os da cidade e os do campo e gente das fábricas, os patrões esclarecidos, os fazendeiros capazes de  compreender o problema da terra e do trabalhador de enxada, os padres solidários com os seus paroquianos, os funcionários sem separação de letra ou classe, as mulheres, que também vezes conhecem melhor nossa situação econômica do que muitos teóricos  – elas que sabem o preço das coisas e sentem as consequências da crise da produção agrícola, enfim todo esse mundo de compatrícios que ai estava, à espera de um movimento de unificação, vigoroso, cordial, honesto.

E então, através das escassas comunicações que Luís Carlos Prestes conseguia estabelecer com o povo – uma carta, um documento – logo se percebeu que era como se ele estivesse entre nós, fosse o nosso companheiro de bonde ou de café, o amigo que estava a par da nossa vida e com ela se preocupava. Por um absurdo aparente, estava mesmo mais perto de nós de que se encaminhasse ao nosso lado na Praça 15.

A reflexão, o silêncio, a leitura continua, o gosto da estudo, a perspectiva que dá o afastamento para abranger todo o quadro e, sobretudo uma energia moral acima de todos os sofrimentos  permitiam-lhe uma clareza de visão e uma profundidade de analise que muitos de nós, com as nossas bibliotecas equipadas e os nossos ócios, não alcançávamos.

Desenhos de Prestes, assinados por Portinari, o primeiro data de 1952 2 o segundo de 1948 (Acervo: Tribuna Popular/
Biblioteca Nacional-Rio)

Contudo, não era ainda a presença, aquilo que um orador exprimiu tão bem, na noite de 18 de abril, diante de uma assembleia, ao contar-nos com simplicidade: “Acabo de ver o meu amigo andando na rua, como qualquer um… Custei a acreditar no que via: andando como qualquer um, sem que ninguém se lembrasse de impedi-lo.”

Aquilo que todos fazem e ele não podia fazer. Apenas isto: mas era o símbolo de grandes mudanças nacionais e internacionais, a ilustração da queda do fascismo no mundo, o início de uma era de cooperação interna em bases democráticas e progressistas, uma palavra diferente ao povo machucado, mas sempre esperançoso. Tudo isso na imagem de um homem andando, despreocupado, livre, nesta cidade do Rio.

Pudemos aí reparar melhor no homem, que deixara para nós de ser um retrato, contemplado no livro, longe das vistas policiais. Seus olhos fitam claro e firme, acompanhando a palavra e aguardando a réplica. Sua fala rápida é o veículo natural de um pensamento também rápido e amadurecido. O rosto permaneceu jovem, através da terrível experiência humana acumulada a partir de 1924. O sorriso é aberto e leal. Nenhuma ênfase, nenhum romantismo. Um homem andando na rua.

Acervo: Tribuna Popular/Biblioteca Nacional-Rio

O comício do Vasco dará ensejo a que estas impressões se fixem e se alarguem, pois será literalmente o encontro de Prestes com o povo. Não mais a carta que se filtrou entre as malhas do aparelho de vigilância, o documento de circulação limitada, ou a entrevista feita ao sabor da curiosidade do repórter (“Prestes disse… Parece que Prestes pensa isto”), mas a palavra direta do líder nacional frente a frente com a multidão que esperava este momento.

Retrato de Prestes, por Portinari, 1948 (Acervo: Biblioteca Nacional)

Que Prestes também o esperava, não podemos duvidar. Com a certeza e a paciência dos que entraram por um caminho justo e sabem que ele pode ser longo e difícil, mas conduzirá ao ponto desejado. Ninguém se preparou melhor do que Prestes para a comunicação com o povo, primeiro viajando praticamente todo o interior do Brasil, em contato com as camadas mais humildes e desamparadas de sua gente; depois, reunindo na cultura política e filosófica os dados científicos que o ajudariam a interpretar e classificar os fatos observados.

Formação prática e teórica tão entrelaçada e intimamente absorvida, que talvez a nenhum de nossos homens públicos fosse dado conseguir semelhante, pois a uns falta experiência vivida, a outros o lastro intelectual. Da sombra em que se envolvia, ele emerge agora plenamente habilitado a falar ao maior número de trabalhadores das diferentes categorias a linguagem reta e precisa que a todos interessará, porque resulta da meditação e da vida.

Acervo: Tribuna Popular/Biblioteca Nacional-Rio

Outra circunstância aumenta a significação do encontro e autoriza-nos a aguardar dele consequências felizes: é o momento em que realizará. O país está particularmente sensível à vozes serenas que se disponham a examinar os seus problemas e discutir o rumo que devemos tomar. Saímos de uma guerra pelejada com valentia, que nos custou enormes sacrifícios, mas em que desempenhamos o nosso papel combatendo de verdade o nazi-fascismo. Isto deu a todos, soldados da FEB e trabalhadores da retaguarda, uma consciência política que há dez anos atrás seria utópico imaginar.

Qualquer homem da rua sabe, hoje, julgar e tirar conclusões, não apenas na esfera nacional, mas até numa escala internacional. Nossos episódios locais ganham outro sentido, à luz desse critério. Deixamos de ver os homens e suas paixões, para distinguir alguma coisa de mais importante, mais denso, alguma coisa que só se obterá à custa de novos e indispensáveis esforços, e também por meio de uma cooperação sincera entre os que não querem ver nossa terra sepultada sob as ruinas da guerra e da miséria econômica. É a esse povo de inteligência aberta, permeável aos fatos e capaz de compreende-lo na limpidez de seus propósitos, que se dirigirá o orador de amanhã.

Amigos, não faltemos ao encontro com Prestes.

[Tribuna Popular – n. 1 – Rio, 22.5.1945. Fonte: Biblioteca Nacional-Rio]

 

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