Embaixadores da União Europeia aprovam acordo com o Mercosul
Foto: Reprodução/ União Europeia/Mercosul
Tratado histórico avança após 26 anos de negociações, mas enfrenta resistência de agricultores franceses e críticas ambientais.
Embaixadores dos 27 países da União Europeia enfim aprovaram, nesta sexta-feira (9), o acordo de livre-comércio com o Mercosul. A decisão, tomada em Bruxelas, abre caminho para a assinatura oficial prevista para ocorrer em Assunção, no Paraguai, que ocupa a presidência rotativa do bloco sul-americano.
O tratado cria uma das maiores zonas de livre-comércio do mundo, abrangendo mais de 720 milhões de consumidores e um PIB combinado de US$ 22 trilhões. Resultado de 26 anos de negociações, o acordo promete redefinir as relações econômicas e estratégicas entre Europa e América Latina.
Para o Brasil, o acordo representa uma oportunidade de ampliar o acesso ao mercado europeu, especialmente para produtos agrícolas como carne bovina, soja e açúcar, setores que devem ganhar competitividade frente aos produtores europeus. A indústria brasileira também tende a se beneficiar com a redução de tarifas sobre bens manufaturados, como automóveis e máquinas, abrindo espaço para maior presença em mercados sofisticados.
Já os serviços, em áreas como tecnologia da informação e logística, terão novas portas abertas para empresas brasileiras. No entanto, há desafios: setores menos competitivos podem enfrentar dificuldades diante da entrada de produtos europeus com maior valor agregado, exigindo modernização e aumento de produtividade.
Nos demais países do Mercosul, como Argentina, Uruguai e Paraguai, o impacto será semelhante, com destaque para a exportação de grãos, carnes e produtos industriais, mas também com a necessidade de adaptação às exigências ambientais e regulatórias impostas pela União Europeia.
Esse comparativo revela que, enquanto o agronegócio brasileiro tende a ser o grande vencedor, com ganhos expressivos em exportações, setores industriais menos preparados podem sofrer com a concorrência europeia. O Brasil terá de equilibrar o entusiasmo com as oportunidades e a cautela diante dos riscos, investindo em inovação e sustentabilidade para não perder espaço.
A Argentina, por sua vez, vê no acordo uma chance de recuperar competitividade em meio a crises internas, enquanto o Uruguai e o Paraguai apostam na ampliação de mercados para seus produtos agrícolas e pecuários.
O que muda para a Europa e a resistência na França
Do lado europeu, empresas de tecnologia e infraestrutura devem se beneficiar, mas agricultores enfrentam o temor de perder espaço para produtos mais baratos vindos da América do Sul.
Por lá, o acordo é visto como uma forma de diversificar fornecedores e reduzir a dependência da China em setores estratégicos, além de fortalecer a presença da União Europeia na América Latina em um cenário de disputa geopolítica com os Estados Unidos e a Ásia.
Empresas europeias terão acesso facilitado a mercados emergentes, com potencial de expansão em áreas como energia renovável, infraestrutura e tecnologia.
Contudo, a abertura também traz riscos: agricultores europeus, especialmente franceses, temem perder espaço para produtos agrícolas do Mercosul, que chegam com custos mais baixos e padrões ambientais considerados menos rigorosos. Esse temor alimenta a resistência política e social dentro da própria União Europeia.
Daí que a França se tornou o epicentro da oposição ao acordo. Agricultores franceses argumentam que a entrada de produtos agrícolas do Mercosul, como carne e soja, ameaça a sobrevivência de pequenas propriedades e compromete a qualidade dos alimentos produzidos localmente.
O presidente Emmanuel Macron tem se posicionado contra o tratado, alegando que ele fragiliza a agricultura francesa e compromete os compromissos ambientais da União Europeia. Para ele, o acordo precisa de garantias mais robustas em relação ao desmatamento e às práticas sustentáveis, sob pena de se tornar um retrocesso nas políticas ambientais europeias.
Essa postura reflete não apenas preocupações econômicas, mas também a pressão política interna, já que o setor agrícola francês possui forte influência social e eleitoral.
Desafios ambientais e políticos
As cláusulas de sustentabilidade incluídas no acordo são vistas como insuficientes por críticos europeus. Organizações ambientais alertam para o risco de aumento do desmatamento na Amazônia e de retrocessos em políticas de preservação. Ao mesmo tempo, parlamentares europeus exigem maior rigor na fiscalização e no cumprimento das metas ambientais.
O tratado ainda precisa ser ratificado pelo Parlamento Europeu e pelos parlamentos nacionais, o que pode prolongar o processo e abrir espaço para novas disputas políticas. A resistência francesa, somada às preocupações ambientais, pode atrasar ou até mesmo comprometer a implementação plena do acordo.
Não obstante, o acordo UE–Mercosul é considerado um dos mais ambiciosos já firmados entre blocos regionais. Se ratificado, poderá transformar o comércio internacional e fortalecer laços diplomáticos entre Europa e América Latina.
Para o Brasil e seus vizinhos, abre-se a possibilidade de ampliar exportações e atrair investimentos, mas também o desafio de modernizar setores menos competitivos e atender às exigências ambientais. Para a Europa, significa diversificação e maior presença estratégica no continente americano, mas ao custo de enfrentar resistências internas e equilibrar interesses econômicos e ambientais.
É assim que o futuro do tratado depende da capacidade dos dois blocos de conciliar crescimento econômico com sustentabilidade e justiça social.
No caso de ser plenamente ratificado, o Brasil pode consolidar-se como fornecedor estratégico de alimentos e matérias-primas, enquanto a União Europeia reforça sua posição como parceira tecnológica e industrial.
Se, por outro lado, as resistências internas prevalecerem, o acordo corre o risco de se tornar mais um capítulo inconcluso na longa história das negociações entre os dois blocos.
*Com informações da Folha de S.Paulo, O Globo, Valor Econômico, Correio Brasiliense.








