Dia Nacional de Lembrança do Holocausto: 87,3% dos brasileiros nunca participaram de ações educativas sobre o massacre de judeus pelos nazistas

Mulheres sobreviventes, amontoadas em barracas para prisioneiros, pouco após as forças soviéticas haverem liberado o campo de Auschwitz.  Auschwitz, Polônia. 1945.

Foto: Reprodução/
Enciclopédia do Holocausto

Dados do Relatório anual da CONIB revela ainda que o ódio contra judeus se consolidou em patamar estruturalmente elevado no país, com alta de 150%;  Desconhecimento histórico está entre os fatores que estimulam a disseminação de estereótipos antissemitas 

Neste dia 16 de abril, data em que o Brasil recorda as vítimas do Holocausto, estabelecida em 2024 pelo presidente Luís Inácio “Lula” da Silva, os números mais recentes sobre antissemitismo no país colocam em xeque qualquer narrativa de recuo.

O Relatório Anual Antissemismo no Brasil, divulgado pela Confederação Israelita do Brasil (CONIB), registrou 989 denúncias válidas de antissemitismo em 2025 — 149% acima do nível de 2022, o marco inicial da série histórica.

Para os pesquisadores que elaboraram o documento, o dado confirma o que chamam de “novo normal”: o ódio contra judeus passou a operar como estrutura permanente e com crescente aceitação na sociedade.

“Já não se trata de um pico isolado, mas de um ‘novo normal’ de hostilidade”, diz o presidente da CONIB, Claudio Lottenberg.

A comparação internacional sustenta a tese: no mesmo período, o Reino Unido registrou 3.700 incidentes — mais que o dobro de 2022 —, a Itália quadruplicou seus índices pré-conflito e a Austrália permanece em nível três vezes superior ao observado antes da guerra em Gaza.

Das redes sociais às ruas

Oito em cada dez das denúncias brasileiras de 2025 tiveram origem no ambiente digital. O Instagram liderou as ocorrências online, com 297 casos (37% do total), seguido por Twitter/X (111) e Facebook (93).

Mas o relatório documenta que o ódio digital tem reverberação concreta: entre os episódios offline, estão uma tentativa de atropelamento de um homem que usava quipá em Joaçaba (SC), carcaças de porcos depositadas na porta de um cemitério judaico em Porto Alegre, suásticas pichadas em muros de um cemitério israelita em Belo Horizonte e a hostilização de um rabino durante a COP, a conferência do clima da ONU.

A categoria mais frequente entre os conteúdos antissemitas identificados foi o antissionismo de caráter antissemita — presente em 70,8% das ocorrências.

O relatório distingue com precisão: críticas ao governo israelense não são classificadas como antissemitismo.

O que o documento contabiliza são manifestações que projetam sobre Israel e o sionismo os estereótipos clássicos do preconceito histórico direcionados a judeus — acusações que culpam todos os indivíduos de origem judaica pelos males do mundo, narrativas conspiracionistas de dominação global e responsabilização de todo o coletivo como um padrão inerente à origem.

O que a sociedade brasileira pensa

O relatório, divulgado no final de março, inclui uma pesquisa inédita da AtlasIntel encomendada pela StandWithUs Brasil com 1.812 entrevistados, que expõe a dimensão do problema além das denúncias formais.

Trinta por cento dos brasileiros dizem não se sentir totalmente à vontade para ter amigos judeus e 42% das pessoas consideram “legítima” a analogia entre Israel e o nazismo. Adicionalmente, apenas 22,9% afirmaram não considerar um problema a proximidade com indivíduos que se identificam como sionistas.

O dado é especialmente preocupante porque o antissemitismo contemporâneo opera, em grande parte, por essa via: a rejeição ao “sionismo” — direito à autodeterminação do povo judeu e identidade com a qual a maioria dos judeus do mundo se reconhece — como substituto socialmente aceitável para o preconceito antijudaico direto.

A pesquisa também identificou que 28% dos brasileiros consideram “opinião legítima” a ideia de que judeus seriam mais leais a Israel do que ao próprio país; 29% acham o mesmo da afirmação de que o povo judeu teria sido responsável pela morte de Jesus; 28% não enxergam preconceito na afirmação de que judeus “concentram poder excessivo em finanças e comunicação”; e 37% acham legítima a afirmação de que judeus têm mais sucesso financeiro que outras pessoas. Tropos medievais e nazistas, reciclados como se fossem posições políticas.

A lacuna do Holocausto

O Dia Nacional de Lembrança do Holocausto, estabelecida em 2024 pelo presidente Luís Inácio “Lula” da Silva, ganha contornos ainda mais relevantes quando sublinhado outro achado do relatório: apenas 53,2% dos brasileiros conseguem definir corretamente o Holocausto como o extermínio sistemático de seis milhões de judeus pelo regime nazista, apesar de 59,3% afirmarem ter algum conhecimento sobre o tema.

A diferença entre o que se acredita saber e o que se sabe de fato é, em si, um dado alarmante. Mais: 87,3% dos entrevistados nunca participaram de uma palestra, evento educativo ou visita a museu sobre o assunto. Apenas 1,7% citam museus e memoriais como fonte de informação.

O levantamento, realizado por um consórcio que incluiu a CONIB, o Memorial do Holocausto de São Paulo, o Museu do Holocausto de Curitiba e a StandWithUs Brasil, entrevistou 7.762 pessoas em 11 regiões metropolitanas.

A fonte predominante de informação sobre a Shoá é a escola (30,9%), seguida por filmes e livros (18,6%). O antissemitismo digital vem na sequência, com 12,5%.

Atualmente, segundo as entidades, há apenas 210 sobreviventes do Holocausto ainda vivos no Brasil, um desafio que torna mais relevante o sinal de alerta para que a memória dos horrores promovidos pelo nazismo não seja apagada.

O preço cotidiano

O relatório documenta ainda que o antissemitismo tem custo direto na vida de quem o sofre.

Na pesquisa intracomunitária com 1.427 judeus brasileiros, 320 afirmaram já ter deixado de se identificar como judeus por receio, e outros 250 disseram ter pensado em fazê-lo.

Quarenta e seis por cento dos judeus pesquisados pela iniciativa ECOA — Executivos Contra o Antissemitismo — relatam já ter sofrido antissemitismo em algum momento da vida profissional.

No campo jurídico, o relatório registra avanço: em 2025, o Supremo Tribunal Federal fixou precedente de que não cabe acordo de não persecução penal em casos de racismo contra judeus.

Em média, uma condenação por antissemitismo ocorre a cada três meses nos últimos dois anos — resultado do trabalho de mais de 45 advogados voluntários da comissão jurídica da CONIB.

O relatório traz ainda uma mensagem contundente que seus autores tratam como premissa metodológica e alerta político: “O antissemitismo é o laboratório do ódio: onde ele prospera, a democracia adoece”. Os dados sugerem que o laboratório está em plena atividade.

 

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *