Desde 1990, a Vale anuncia que minério de Itabira pode exaurir no fim da próxima década

Carlos Cruz

Não é verdade que a Vale esconde de Itabira as suas projeções para o fim do minério no município, como a acusa os menos informados. Se para muitos foi surpresa a projeção da exaustão das minas locais para o próximo ano de 2028, o que ocorreu recentemente por intermédio do relatório Form20, dirigido aos investidores da Bolsa de Nova Iorque, esse anúncio não é novidade para quem acompanha o noticiário sobre a empresa. É que essa divulgação ocorre pelo menos desde o início da década de 1990.

Minério de Itabira já rendeu várias “safras” e pode render um pouco mais até o fim inexorável. Na foto em destaque, Itabira e a mina Conceição na década de 1990 (Fotos: Eduardo Cruz)

Portanto, esse anúncio já ocorre antes mesmo de ter início a divulgação, a partir de 2003, dos sucessivos formulários encaminhados aos investidores estrangeiros. Portanto, há muitas décadas a Vale tem alertado a sociedade itabirana para as consequências que virão com o fim inexorável.

Desde então, a empresa vem dizendo ser imprescindível diversificar a economia local, para que o município assegure a sua sustentabilidade depois que a exploração de suas minas se tornar inviável, pela queda da qualidade, pela dificuldade de extração e pelo alto custo operacional de se explorar minério escasso, de baixo teor ferrífero.

 “Vocês terão que nos tolerar por mais 35 anos”, disse o ex-superintendente Dequech

Ricardo Dequech, ex-superintendente da Vale, anunciou o fim do minério em 2029 (Foto: Marcelo Prates)

Em agosto de 1994, em entrevista ao jornal O Cometa, o então superintendente Ricardo Dequech disse que a Vale não é boba de abandonar Itabira com toda a infraestrutura que dispõe no município.

“Após exaurido o minério, o que não ocorre com toda certeza em menos de 35 anos, a Vale não vai largar a ferrovia e a infraestrutura industrial que aqui montou”, salientou.

Feitas as contas, pelas projeções do ex-superintendente, as minas de Itabira só iriam se exaurir em 2029, o que bate com a informação do relatório Form20 deste ano. Mas pode haver mais recursos, que, viabilizados como reservas, podem prolongar a vida útil das minas locais por mais alguns anos.

A projeção desse horizonte, salientou o ex-superintendente, iria se manter mesmo com a empresa incrementando a produção local. “A Vale aumentou a produção em Itabira e vai aumentar mais. Vamos estabilizar a produção entre 35 e 40 milhões de toneladas/ano até a exaustão. Vocês terão que nos aturar por mais 35 anos”, voltou a salientar, na mesma entrevista ao O Cometa.

O ex-superintendente disse considerar natural a preocupação do itabirano com o futuro do município após a exaustão mineral.“É até sadio que exista essa preocupação. Mas posso assegurar que muitas vezes é exagerada. A Vale de forma alguma vai abandonar Itabira, mesmo porque temos investimentos muito altos na cidade. Temos aqui uma infraestrutura muito bem montada e não vamos abandoná-la assim sem mais nem menos”, afirmou. Rodrigo Chaves, atual gerente-geral da empresa em Itabira, 24 anos depois, tem repetido a mesma tese.

Recursos adicionais podem ser viabilizados

Mais recentemente, em entrevista a este site, em maio do ano passado, o ex-gerente-geral das Minas de Itabira, Fernando Carneiro, embora evitasse prognosticar um tempo para a exaustão, forneceu dados que projetam um horizonte de exaustão para pouco depois de 2030 (leia reportagem aqui).

Fernando Carneiro não quis fazer prognóstico do fim, mas divulgou os recursos e as reservas disponíveis no relatório Form20 de 2017

De acordo com o relatório Form20 apresentado no ano passado à Bolsa de Nova Iorque, o complexo de Itabira dispunha de 1.019,3 bilhão de toneladas entre recursos e reservas.

Mas mesmo com esses dados, Fernando Carneiro relutou em apresentar uma data possível para o fim do minério no município. “Se eu cravar uma data para a exaustão das minas de Itabira, estarei cometendo o mesmo erro do passado, quando se falou que elas iriam exaurir em 2018 e depois em 2025.”

A reportagem, com base na capacidade de produção de 50 milhões de toneladas anuais das plantas industriais de Itabira, e tento por base os recursos e as reservas divulgados pelo relatório Form20 de 2017, projetou um horizonte de exaustão para cerca de 20 anos, com o fim em 2037.

Essa projeção, como se observa, encontra-se pouco acima da margem de erro em relação ao relatório Form20 deste ano, que tanta surpresa causou entre muitos itabiranos. A projeção do site considerou que os recursos terão a sua extração e beneficiamento viabilizados.

“Tenho certeza que ficaremos por muito mais tempo em Itabira”, frisou Carneiro, apostando na possibilidade de outros recursos adicionais, além dos que estão divulgados no formulário, virarem reservas. Se isso de fato ocorrer, pode prolongar o horizonte de exaustão das minas locais além do que atualmente está projetado.

Indiferentemente de quando se dará a exaustão, é salutar para o presente e futuro da economia local, que se pense e se invista com mais firmeza na sua diversificação. E que se discuta com a empresa, desde já, como ocorrerá o descomissionamento (fechamento) das minas de Itabira.

Para isso, não importa se a empresa irá permanecer por mais tempo no município, seja viabilizando outros recursos mais pobres em ferro, ou trazendo minério de outras localidades para serem beneficiados nas plantas industriais de Cauê e Conceição. O que importa é que o futuro é hoje – e a exaustão mineral já teve início desde 1942.

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *