Datafolha mostra Lula à frente, enquanto Flávio Bolsonaro se consolida como nome da direita em disputa voto a voto
Entre arte e arquitetura, “Os Candangos”, do escultor Bruno Giorgi, observam a disputa pelo Palácio do Planalto, que segue em aberto, com ligeira vantagem para Lula, segundo pesquisas mais recentes
Foto: Reprodução/ GovBr
Ser governo dá a Lula visibilidade e poder de agenda, mas o expõe ao julgamento direto de sua gestão; já Flávio Bolsonaro herda o capital político do pai, carregando também o desgaste da má gestão que amplia sua rejeição
Valdecir Diniz Oliveira*
A última pesquisa Datafolha, divulgada neste sábado (7), mostra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 46% das intenções de voto contra 43% do senador Flávio Bolsonaro (PL) em um eventual segundo turno. O resultado dessa pesquisa confirma a consolidação do filho do ex-presidente como o principal nome da direita e extrema-direita, enquanto Lula mantém a dianteira, mas com vantagem estreita, a exemplo do que foi a disputa polarizada nas eleições de 2022.
Naquele pleito, Lula liderou todas as pesquisas de opinião desde o início da campanha – e essa liderança se confirmou nas urnas, mas por margem apertada. No primeiro turno, Lula obteve 48,43% dos votos válidos contra 43,20% de Jair Bolsonaro. Já no segundo turno venceu com 50,90% contra 49,10%, margem menor do que a indicada pela maioria dos levantamentos. Esse histórico reforça a leitura de que, embora as pesquisas apontem tendências, a disputa se mantém apertada e sujeita a variações até o dia da votação.
Outros institutos reforçam esse mesmo cenário. O Paraná Pesquisas aponta empate técnico entre Lula e Flávio, e o Real Time Big Data mostra Lula liderando no primeiro turno, mas enfrentando disputa equilibrada no segundo. Esse retrato revela um país dividido, com a aprovação do governo Lula em torno de 44% e a desaprovação alcançando 51%, números que refletem uma sociedade partida ao meio entre os dois antagonistas.
Mas não é apenas Lula que enfrenta resistência. Flávio Bolsonaro, apesar de consolidado como candidato da direita e extrema-direita, carrega o desgaste da má gestão de seu pai e já apresenta índices de rejeição superiores aos do presidente. Nas últimas pesquisas, a rejeição a Flávio oscila entre 48% e 50%, contra cerca de 46% atribuída a Lula, o que sugere um teto mais baixo para o filho do ex-presidente.
Esse dado é crucial, pois indica que, embora Flávio consiga mobilizar a base bolsonarista e manter a disputa acirrada, sua capacidade de expansão para além desse núcleo duro é limitada.
Lula, por sua vez, sofre com as tentativas constantes de desconstrução de sua imagem pela imprensa tradicional e pelas fake news nas redes sociais, mas ainda preserva uma margem de vantagem que pode ser decisiva em um cenário de polarização extrema.

Escândalos e investigações
Os escândalos envolvendo fraudes bilionárias contra aposentados do INSS e o Banco Master seguem em apuração. A Polícia Federal, agora com maior liberdade de atuação, aponta conexões que remontam ao governo Bolsonaro, envolvendo nomes como o ex-ministro bolsonarista Ciro Nogueira e suspeitas de financiamento irregular de campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas.
A tentativa de envolver Lula e seu filho, o “Lulinha”, ganhou força com a quebra de sigilo aprovada pelo ministro André Resende. Para políticos da esquerda, trata-se de uma manobra para criar narrativas negativas contra o presidente, repetindo o roteiro da Lava Jato, quando acusações frágeis foram amplificadas por manchetes e reportagens tendenciosas. Até o momento, não há provas que sustentem o envolvimento de Lula ou de sua família nos esquemas.
Esse tipo de estratégia não é novo. Lula já foi alvo de acusações que, posteriormente, não se sustentaram. O caso do sítio de Atibaia, por exemplo, foi apresentado como prova de corrupção, mas não houve comprovação de que o imóvel pertencesse a Lula ou tivesse sido recebido como vantagem indevida.
O mesmo ocorreu com o famoso triplex do Guarujá, que foi inclusive leiloado para pagamento de dívidas da construtora OAS, desmontando a narrativa de que teria sido um “presente” ao ex-presidente.
Esses episódios, que marcaram a Lava Jato, acabaram por ser anulados pelo Supremo Tribunal Federal, que reconheceu a parcialidade do então juiz Sérgio Moro e a fragilidade dos indícios apresentados.
Como se observa, mesmo com a história repetindo como farsa, é que a atual tentativa de vincular Lula e sua família a esquemas de corrupção não é fato novo. Segue o mesmo padrão, com acusações sem comprovação, amplificadas por setores da imprensa tradicional e pelas redes sociais, com o objetivo de desgastar politicamente o presidente.
A diferença é que, desta vez, a Polícia Federal atua com autonomia e independência, algo que não ocorria no governo anterior.
Durante o seu mandato, Bolsonaro chegou a afirmar em reunião ministerial: “Querem fuder com minha família. Não vou esperar fuder minha família toda. Vou mudar na segurança do Rio. Vou mudar na Polícia Federal. Vou mudar tudo”, numa clara tentativa de intimidação e de blindagem dos filhos. Essa declaração expôs de forma explícita a fragilidade da independência da corporação naquele período e reforçou a percepção de que havia uma proteção política em torno da família presidencial.
Agora, com maior liberdade de atuação, a Polícia Federal consegue avançar em apurações que antes eram travadas ou desviadas, expondo conexões entre fraudes bilionárias e figuras centrais do bolsonarismo.
Com essa independência, a sociedade brasileira espera que os fatos sejam apurados com rigor e sem interferência política, permitindo que os envolvidos sejam responsabilizados na forma da lei. Com esse novo ambiente, cria-se a expectativa de que não apenas operadores financeiros e intermediários sejam punidos, mas também os agentes políticos que se beneficiaram dos esquemas.

Manobras casuísticas
Essa mudança aumenta a confiança pública nas investigações conduzidas pela Polícia Federal, mesmo diante das manobras casuísticas em curso na CPMI do INSS, lideradas pelo senador Carlos Viana (Podemos-MG).
Eleito presidente da comissão em articulação da oposição, Viana tem buscado ampliar o escopo das apurações, aprovando medidas como a quebra de sigilo bancário e fiscal de Fábio Luís Lula da Silva, o “Lulinha”.
Essas iniciativas, mantidas pelo Congresso mesmo após contestação da base governista, revelam uma estratégia clara de deslocar o foco das fraudes bilionárias contra aposentados para narrativas que desgastam politicamente o governo. Esquecem-se, propositadamente, de que tais irregularidades tiveram início no governo anterior e não foram investigadas.
Além disso, Viana tem usado cada votação como instrumento de narrativa política, apresentando derrotas do governo na comissão como vitórias da oposição.
Essa postura reforça a ideia de que a CPMI não se limita a investigar irregularidades, mas também funciona como palco de disputa simbólica, em que o objetivo é fragilizar o presidente e criar versões que alimentam a polarização.
O que se observa, mais uma vez, é o contraste entre a tentativa de blindagem anterior e a atual autonomia institucional, decisivo para compreender a conjuntura política nacional.
Ao mesmo tempo, as manobras de Viana funcionam como cortina de fumaça, encobrindo o que realmente interessa: as investigações já em curso pela Polícia Federal.
Essas estratégias mostram como a CPMI pode ser instrumentalizada para criar acusações sem provas, reforçando a guerra de versões, com o claro objetivo de ampliar o desgaste político do presidente.
Judiciário sob ataque
Para isso, a extrema-direita também tem direcionado esforços sistemáticos para desgastar o Supremo Tribunal Federal (STF) e seus ministros, numa tentativa de enfraquecer as instituições que barraram a aventura golpista.
O ministro Alexandre de Moraes, relator do processo que levou Jair Bolsonaro à Papuda pela tentativa frustrada de golpe, tornou-se o alvo preferencial das campanhas de deslegitimação.
Mas ele não é o único: ministros como Ricardo Lewandowski e Dias Toffoli também são constantemente citados em narrativas que buscam associá-los a escândalos ou supostos favorecimentos, o que tem minado a credibilidade do Judiciário.
Essa ofensiva não se limita ao debate político tradicional, uma vez que se intensifica nas redes sociais, onde notícias mal apuradas ou deliberadamente tendenciosas circulam em velocidade e escala muito maiores.
O objetivo é desgastar o governo e seus aliados, ao mesmo tempo em que se tenta corroer a confiança pública no STF.
Trata-se de uma guerra de narrativas que combina fake news, recortes seletivos de decisões judiciais e ataques pessoais, criando um ambiente de desinformação que busca fragilizar a percepção da independência do judiciário.
O STF, por sua vez, tem respondido com decisões que ora se mostram firmes, ora revelam titubeios e recuos diante da pressão política e da guerra de narrativas.
Esse comportamento ambíguo alimenta críticas tanto da direita, que acusa o tribunal de perseguição, quanto da esquerda, que vê em algumas hesitações uma fragilidade institucional diante de ataques sistemáticos.
Nesse contexto, o Supremo deixa de ser apenas um ator jurídico e passa a ocupar um papel político involuntário, virando alvo de questionamentos sobre sua consistência e coerência.
Polarização e repercussões eleitorais
Como se observa, o cenário eleitoral é de equilíbrio instável. Lula, como governo, tem a vantagem da visibilidade e da máquina pública, mas sofre com o julgamento direto de sua gestão e com tentativas constantes de desconstrução de sua imagem pela imprensa tradicional e pelas fake news nas redes sociais.
Flávio Bolsonaro, como candidato da direita e da extrema-direita, não carrega o desgaste do poder, mas traz consigo o peso da má gestão de seu pai, que amplia sua rejeição e limita sua capacidade de atrair eleitores fora da base bolsonarista.
Essa combinação explica por que, mesmo consolidado como candidato da direita e extrema-direita, o filho de Bolsonaro encontra dificuldades para romper o teto de rejeição que o cerca, enquanto Lula, apesar de pressionado, mantém uma dianteira que pode ser decisiva, caso não se comprove envolvimento nos atuais escândalos e não marque gol contra.
É assim, mais uma vez, que o Brasil vive uma conjuntura marcada por escândalos financeiros, polarização política e uma sociedade dividida.
As investigações podem comprometer mais diretamente figuras da extrema-direita e do Centrão, mas na guerra de versões nada garante que Lula também não venha a sofrer mais desgastes que possam comprometer a sua reeleição.
O certo é que, com Lula à frente, mas Flávio Bolsonaro consolidado como adversário, o país caminha para uma eleição que será decidida voto a voto.
Qualquer erro político, econômico ou narrativo pode ser determinante para o desfecho em outubro, como um recuo mal feito ao goleiro que termina em gol contra.
*Valdecir Diniz Oliveira é cientista político, jornalista e historiador.








