Comunidade de Ipoema celebra criação Parque Estadual do Limoeiro com homenagens e entrega de medalhas
Cerimônia acontece neste sábado (7) e reconhece quem lutou pela preservação da mata, assim como o apoio para a criação da unidade de conservação
Foto: Carlos Cruz
“A maior reserva de floresta natural do município de Itabira está ameaçada. Ela fica no distrito de Ipoema e abrange as Fazendas Limoeiro e Santa Rosa, tem mais de 1.300 hectares, muita mata e muitas cachoeiras e espécies remanescentes da fauna, como capivaras, pacas, veados, pássaros e outros animais em extinção.
É que todos equipamentos já estão no local para transformar a mata em carvão, altamente cotado, para ser vendido às siderúrgicas da região. Se isto de fato ocorrer, será mais um crime ecológico praticado impunemente nas barbas e bigodes das autoridades: prefeito, Codema, IEF, Política Florestal etc. etc. (CC)”
Foi com esse comentário que o jornal Cometa Itabirano, em sua edição de janeiro de 1989, com base em informações de moradores do distrito de Ipoema, noticiou e alertou as autoridades para a iminência desse crime, que mais uma vez se cometeria no mesmo local e objetivo: transformar a mata em carvão vegetal para suprir os altos-fornos das siderúrgicas da região.
A partir desse alerta e da mobilização dos moradores, o então prefeito Luiz Menezes (1989-1992) tomou uma decisão que salvou a mata da sanha da motosserra. Por meio de decreto, fez o tombamento municipal, tornando-a imune ao corte.
Assim, garantiu a proteção inicial do território e evitou a repetição do passado, quando a mesma mata havia sido suprimida após ser adquirida por Zezinho Simão, derrubada e transformada em carvão para alimentar altos-fornos.
Mobilização popular
Foi nesse cenário de nova ameaça que moradores mobilizaram, reivindicando sua preservação integral. Lideranças locais, entre elas Tomas Silveira, Raimundo Afonso e Ney Azevedo (in memoriam), organizaram reuniões, articularam apoio popular e pressionaram autoridades.
Anos depois, em 2011, o então governador Antonio Anastasia assinou o decreto que criou oficialmente o Parque Estadual Mata do Limoeiro, consolidando sua proteção integral sob gestão do Instituto Estadual de Florestas (IEF).
A instalação contou com a participação da Prefeitura de Itabira e da mineradora Vale, que adquiriu a Fazenda Limoeiro como condicionante da Licença de Operação Corretiva (LOC) do Distrito Ferrífero de Itabira.
Em 2013, novas áreas foram incorporadas como medida compensatória de outros desmatamentos da Vale. O parque foi ampliado para mais de 2 mil hectares, garantindo a preservação de remanescentes de Cerrado e Mata Atlântica.
Homenagem neste sábado
Para celebrar os 15 anos de criação do parque estadual, neste sábado (7) o Limoeiro faz homenagem com a entrega da Medalha Raízes da Conservação. A solenidade vai reconhecer lideranças locais, entidades e personalidades que contribuíram para a criação e manutenção da unidade de conservação ao longo dos anos.
“Será um momento para celebrar trajetórias, reconhecer compromissos e reafirmar a importância das parcerias construídas ao longo dos 15 anos do parque”, afirma o gerente Alex Amaral.
Segundo ele, a medalha simboliza o enraizamento coletivo das ações de conservação, educação ambiental e fortalecimento do território.
Biodiversidade e território preservado

Entre as espécies vegetais já identificadas estão três ameaçadas de extinção: a samambaiaçu, a braúna-preta e o jacarandá-caviúna, uma das madeiras mais valorizadas do Brasil.
A presença dessas espécies reforça a importância da unidade como guardiã de patrimônios naturais que, em outros locais, já foram dizimados pela exploração predatória.
Na fauna, destacam-se espécies raras como o rato-do-mato e o gambá-de-orelha-branca, típicos da Mata Atlântica e pouco comuns em outras áreas da região. Além deles, o parque abriga aves, pequenos mamíferos e répteis que encontram ali condições ideais de sobrevivência.
O território preservado é também um santuário hídrico. Córregos e inúmeras nascentes cortam a mata, formando paisagens exuberantes. Cachoeiras e corredeiras atraem moradores e turistas no verão.
Esses cursos d’água não apenas embelezam o parque, mas desempenham papel vital na manutenção dos recursos hídricos da região, beneficiando comunidades vizinhas e contribuindo para o equilíbrio ambiental.
Além da biodiversidade, o Limoeiro guarda atrativos naturais e culturais que ampliam sua relevância. Trilhas bem estruturadas levam visitantes a grutas, miradouros e cachoeiras, oferecendo contato direto com a natureza em ambiente de conservação de rara beleza natural.
Assim, o Parque Estadual Mata do Limoeiro não é apenas uma unidade de conservação protegida. É um território de memória, resistência e natureza preservada, onde a biodiversidade se mantém viva.
Motivo de orgulho coletivo, a comunidade de Ipoema tem razões de sobra para celebrar sua luta e seu legado para as gerações atuais e futuras.

Espaço de cultura e cidadania
Mais do que proteger ecossistemas, o Limoeiro tornou-se espaço de cultura e cidadania. Projetos como Natal nas Comunidades, Ecofolia, Volta da Mata do Limoeiro, Cinema no Parque, além de programas de voluntariado aproximam pessoas da natureza e reforçam o sentimento de pertencimento.
Essas iniciativas consolidaram o parque como lugar de educação ambiental, esporte, solidariedade e participação cidadã. Dessa forma, ampliou seu alcance social, fortalecendo o vínculo entre comunidade e território preservado.
Legado de resistência
A mobilização popular de 1989 é lembrado em Ipoema como momento histórico de grande significado socioambiental. O que poderia ter sido mais um fragmento de mata convertido em carvão transformou-se em referência de preservação e mobilização comunitária.
Hoje, o Parque Estadual Mata do Limoeiro é símbolo da capacidade de organização popular e da força de uma comunidade que soube transformar indignação em ação. Sua trajetória mostra que a defesa do meio ambiente, quando assumida coletivamente, gera legados duradouros.
Serviço
Como chegar
O Parque Estadual Mata do Limoeiro está localizado no distrito de Ipoema, município de Itabira (MG), na banda oriental da Cordilheira do Espinhaço.
Acesso por carro:
- Saindo de Itabira, pelo trajeto mais direto, por estrada não pavimentada, a distância é de aproximadamente 37 km.
- Passando pelo Bambas, o percurso fica um pouco maior: cerca de 42 km, com tempo estimado de 50 a 55 minutos, dependendo das condições da estrada e do tráfego.
- É possível também passar por Senhora do Carmo.
- De Belo Horizonte, são cerca de 120 km pela BR-381 até o trevo para Bom Jesus do Amparo, seguindo para Ipoema.
- Há placas indicativas na entrada do distrito de Ipoema que direcionam para a portaria do parque.
Acesso por ônibus:
- A linha Itabira/Ipoema faz o trajeto até o distrito.
- De Ipoema, é possível seguir até a portaria do parque em transporte local, de bicicleta ou a pé, dependendo da disposição do visitante.
O parque conta com portaria-receptivo, trilhas sinalizadas e áreas de visitação que permitem contato direto com a natureza em ambiente de conservação.









