Como esperado, Itabira não elege deputados e segue dependente de parlamentares de fora

Foto: Acervo Vila de Utopia

Sem lideranças políticas consolidadas e com candidaturas locais fragmentadas, o município repete o padrão histórico de não eleger candidatos locais e continua dependente de parlamentares de outras regiões

Mais uma vez, como já era esperado, Itabira não conseguiu eleger representantes próprios para a Assembleia Legislativa ou para a Câmara Federal. A cidade, marcada por uma população em grande parte adventícia desde a instalação da mineração em larga escala, desde então não consolida liderança política competitiva.

As exceções são raras e datadas com a eleição de Li Guerra (PDT) e Luiz Menezes (PFL), eleitos no mesmo pleito em 1998,  graças à articulação do então bispo Dom Mário Gurgel, que conseguiu unir forças políticas opostas para eleger dois ex‑prefeitos — um federal, outro estadual. E também nas eleições como suplentes do ex-prefeito Ronaldo Magalhães e do ex-vereador Bernardo Mucida.

Desde então, a pulverização dos votos tem impedido a consolidação de lideranças locais, agravada pelo baixo recall das candidaturas à direita, em sua maioria figurantes.

Os resultados mostram que faltam lideranças capazes de aglutinar candidaturas, construir unidade ou mesmo para se lançar com densidade eleitoral suficiente para disputar eleições proporcionais com competitividade.

Candidaturas locais não passam de ensaios

A maior expectativa estava sobre o ex‑vereador e ex‑deputado Bernardo Mucida, ex‑PT, ex‑PSB, agora candidato a deputado federal pelo Avante, partido de direita.

Com o que se imaginava ser um forte recall, Mucida foi o mais votado na zona eleitoral de Itabira, mas obteve apenas 9.061 votos na cidade, de um total de 16.674 no estado – um desempenho pífio para quem já teve expressiva votação em 2018, quando alcançou 34.797 votos no estado e 24.996 em Itabira, ficando como suplente e assumindo vaga deixada por Marília Campos (PT).

Ao assumir o mandato, Mucida protagonizou um movimento que muitos de seus eleitores à esquerda não esperavam, quando ele abandonou a oposição ao governo Zema, rompeu com o campo progressista que o havia sustentado e aderiu à base governista.

A guinada foi interpretada como traição por parte significativa de sua base original, que o via como quadro combativo da esquerda.

Com sua atuação na Assembleia de Minas Gerais, apostou na distribuição das criticadas emendas parlamentares para se firmar politicamente, tentando reconstruir sua trajetória por meio de pragmatismo distributivista de recursos públicos em suas bases eleitorais, especialmente em Itabira.

Em 2022, tentou se reeleger deputado estadual, mas ficou com 16.482 votos em Itabira e 40.815 no estado, ainda assim insuficientes para retornar à Assembleia.

Agora, ao  se candidatar a deputado federal, e assim também se cacifar como possível candidato a prefeito em 2028 em uma coligação de direita, Mucida sai enfraquecido. Obteve pouco mais da metade da votação que já teve em sua principal base eleitoral. Com isso, o bloco conservador deve buscar outro nome.

Outras candidaturas à Câmara dos Deputados que não decolaram

O vereador Júlio “Contador” César de Araújo (PP) também testou seu nome para 2028, mas ficou em 2.279 votos em Itabira e 2.692 no estado, também insuficiente para qualquer ambição majoritária.

O vice‑prefeito Marco Antônio Gomes (PRD), rompido com o governo municipal após declarações polêmicas, como a de que havia “demônios na Prefeitura, teve 1.430 votos em Itabira e 2.119 no estado. Se mantiver esse desempenho, corre risco de fracasso até numa disputa para vereador em 2028.

A ex‑vereadora Rosilene Félix (PSD) também não conseguiu se projetar: 1.185 votos em Itabira e 1.474 no estado. No máximo, pode tentar retornar à Câmara Municipal, no caso de conseguir melhorar sua performance eleitoral.

A líder comunitária Cibele Machado teve desempenho ainda mais fraco, com 516 votos em Itabira e 914 no estado, insuficientes até mesmo para disputar mais uma vez uma vaga na eleição proporcional municipal.

Candidaturas locais à Assembleia Legislativa também fracassam

Entre os candidatos a deputado estadual, o estreante vereador Luiz Carlos de Ipoema (Podemos) foi o mais votado em Itabira, com 8.362 votos, de um total de 9.561 no estado. Sua candidatura, embora não declarada explicitamente como preparação para 2028, buscava ampliar recall apoiada em sua atuação oposicionista ao governo municipal. Apesar da repercussão em alguns bairros e na rede social, onde se apresenta como opositor udenista ao prefeito, o desempenho nas urnas não o cacifica automaticamente como nome forte da direita para a sucessão de Marco Antônio Lage (PSB), reeleito em 2024.

O ex‑secretário e advogado Danilo Alvarenga (PRD), rompido com o governo municipal, obteve 5.545 votos em Itabira e 6.554 no estado, superando a também advogada Núbia Citty (Rede), apoiada pelo prefeito, que alcançou 5.280 votos na cidade e 5.919 no estado. Ambos tentam se cacifar para 2028, mas ainda sem densidade eleitoral — e, no máximo, devem se lançar candidatos à vereança.

Outros candidatos tiveram votações residuais. O comerciante Wilson Campos (Democrata) registrou 622 votos em Itabira e 798 no estado. O médico e ex‑vereador Adonis Caio (Avante) obteve 561 votos em Itabira e 997 no estado.

O folclórico Franklin Solico Acácio (Democrata) ficou com 402 votos em Itabira e 443 no estado. O professor da Unifei Fabrício Andrade (Avante) amealhou 302 votos em Itabira e 1.274 no estado.

Itabira segue sem tradição de votar em candidatos locais

Com 88.411 eleitores aptos e 72.451 votantes (81,95%) em 4 de outubro, Itabira mais uma vez confirma que não vota em candidatos da própria terra, reflexo da falta de lideranças fortes e de projetos políticos consistentes.

O deputado federal mais votado foi Nikolas Ferreira (PL), com 18.335 votos (28,99%), seguido por Bernardo Mucida. E, para surpresa da esquerda, a jovem advogada Ana Elisa (PT), influenciadora digital, foi a segunda mais votada, com 3.772 votos.

Reginaldo Lopes (PT) teve 1.707 votos, Bella Gonçalves (PT) ficou com 1.082, e Duda Salabert (PSOL) com 1.018 votos na cidade garimpeira, sem tradição política relevante desde que a mineração em larga escala se instalou na cidade, em 1942, com a então estatal Companhia Vale do Rio Doce.

São esses nomes que Itabira precisará acionar para enfrentar suas demandas urgentes, sobretudo diante da exaustão lenta, gradual e irreversível das reservas minerais e da ausência de alternativas econômicas capazes de sustentar um novo modelo de desenvolvimento para o município.

Lula vence em Itabira no primeiro turno em disputa acirrada, como no Brasil

Nas eleições majoritárias, Lula (PT) saiu mais uma vez vitorioso em Itabira, mas com uma diferença pequena de votos, reproduzindo o cenário nacional de disputa apertada.

Na terra de Drummond, o petista obteve 30.883 votos (45,78%), enquanto seu principal opositor, o senador Flávio Bolsonaro (PL), alcançou 29.588 votos (43,86%). O escritor e autor de livros de autoajuda Augusto Cury (Avante) registrou 2.944 votos no município.

A disputa para o Senado também foi acirrada em Itabira. O deputado bolsonarista Domingos Sávio (PL) foi o mais votado, com 24.165 votos, seguido de perto pela ex‑prefeita de Contagem Marília Campos (PT), que obteve 23.936 votos. Ambos se elegeram.

Já a deputada federal Áurea Carolina (PSOL), mesmo tendo a primeira‑dama de Itabira Raquell Guimarães como suplente, terminou em quarto lugar, com 16.941 votos, atrás do senador Carlos Viana (PSD), que ficou em terceiro com 17.490 e não conseguiu se reeleger.

Para governador, Itabira acompanhou a tendência estadual. Cleitinho Azevedo (Republicanos) obteve 32.413 votos (51,45%), enquanto seu principal adversário, o ex‑ministro Patrus Ananias (PT), registrou 18.619 votos (29,55%) no município.

 

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