Colapso de geleira no Nepal é um alerta para os Alpes e os Andes
Área urbana parcialmente soterrada pelas inundações repentinas que devastaram os distritos de Rasuwa, Nuwakot e Dhading, no Nepal, em 26 de agosto de 2026
Foto: UNICEF/UN0914643/ Gautam
Cientistas apontam que o aquecimento acelerado das montanhas aumenta o risco de rompimentos glaciais em cadeias como os Alpes e os Andes, regiões que já registraram eventos parecidos com o que atingiu comunidades no Himalaia
Investigações preliminares indicam que um grande bloco de geleira se desprendeu e represou temporariamente um rio no Nepal antes de liberar uma onda destrutiva. Especialistas alertam que o mesmo tipo de fenômeno ameaça vales povoados na Suíça e no Peru, à medida que o degelo se acelera em todo o planeta
EcoDebate – A enchente repentina que atingiu o Nepal na quarta-feira provavelmente foi causada por um grande bloco de geleira que se desprendeu e represou temporariamente um rio, segundo investigações preliminares de cientistas. O acúmulo de água pode ter sido liberado horas depois, avançando rio abaixo com força destrutiva.
Equipes de pesquisa ainda reúnem dados de satélite e de campo para reconstituir com precisão o que ocorreu na tragédia, que deixou centenas de mortos e muitos desaparecidos, entre eles estrangeiros e peregrinos que visitavam a região.
O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) registrou nesta quarta-feira um evento de magnitude 5,2 associado ao colapso da geleira, que enviou detritos rio abaixo com impacto catastrófico sobre as comunidades. A conclusão se baseou em dados de estações sismológicas próximas, ondas sísmicas de longo período e imagens de satélite.
Para os cientistas, ainda é cedo para estabelecer uma relação direta entre o aquecimento global e a catástrofe desta semana. Ainda assim, eles reforçam que, à medida que a temperatura da Terra sobe por causa de atividades humanas como a queima de petróleo, gás e carvão, aumentam as chances de desastres desse tipo, sobretudo nas montanhas do Himalaia, que estão esquentando bem mais rápido do que a maior parte do planeta.
Centenas de famílias perderam suas casas na região do Himalaia, e autoridades relataram danos de grande escala em infraestruturas essenciais, incluindo hidrelétricas, estradas, edifícios e pontes.
A água subiu antes que houvesse tempo de fugir
Em alguns pontos da região atingida, o nível dos rios subiu até 9 metros em apenas 30 minutos, resultado da onda provocada pelo desprendimento da geleira nas partes mais altas, segundo pesquisadores de um centro de estudos climáticos com sede em Katmandu.
Evidências preliminares sugerem que um grande volume de gelo e rocha caiu no rio Lhende Khola, um afluente do Bhote Koshi.
Segundo os pesquisadores, o colapso pode ter deslocado a água e arrastado sedimentos soltos e pedregulhos, formando uma onda poderosa rio abaixo. Os especialistas também investigam se os detritos chegaram a represar o rio antes que a água acumulada rompesse a barreira, potencializando ainda mais a enchente.
O Himalaia esquenta rápido demais
A cordilheira do Hindu Kush Himalaia está entre as regiões que mais aquecem no planeta, o que provoca mudanças profundas em geleiras, cobertura de neve, permafrost e encostas montanhosas.
As montanhas concentram o maior volume de neve e gelo fora das regiões polares. Mais de 63 mil geleiras na área alimentam ao menos dez grandes sistemas fluviais da Ásia e sustentam a segurança alimentar, hídrica e energética de bilhões de pessoas.
Ainda assim, cerca de 78% da área de geleiras da região, situada entre 4.500 e 6.000 metros de altitude, está altamente exposta ao aquecimento.
A última década foi o período mais quente já registrado globalmente, e 2024 foi o ano mais quente da história. Relatórios da ONU apontam que, entre 2000 e 2019, as geleiras perderam 267 gigatoneladas de gelo por ano, um volume equivalente à massa de 46,5 mil pirâmides de Gizé.
Em um cenário de aquecimento contínuo, projeções indicam a perda de até metade de todas as geleiras do mundo (excluindo Groenlândia e Antártida) até 2100, mesmo que o aquecimento global seja limitado a 1,5 grau Celsius. As políticas climáticas atuais, porém, colocam o planeta em uma trajetória de aquecimento de cerca de 2,8 graus Celsius até o fim do século.
Levantamentos do centro de pesquisa de Katmandu mostram que as geleiras dessas cordilheiras derretem em ritmo cada vez mais acelerado, com a perda de gelo dobrando desde os anos 2000.
O derretimento acelerado alimenta e amplia lagos glaciais, aumentando o potencial de enchentes repentinas. Ao mesmo tempo, quando as geleiras recuam, rochas antes protegidas pelo gelo ficam expostas a temperaturas mais altas, chuva e ciclos de congelamento e degelo. O permafrost, solo que permanece congelado por longos períodos, também derrete, o que enfraquece encostas inteiras.
Os Alpes já viveram um desastre parecido
O risco de colapsos glaciais não é exclusividade do Himalaia. Em maio, o colapso da geleira Birch, nos Alpes suíços, soterrou boa parte da vila de Blatten, no cantão do Valais.
O episódio começou com sinais de instabilidade na encosta do Petit Nesthorn, monitorada havia semanas por causa de deslizamentos de rocha. Blocos de pedra se desprenderam e caíram sobre a geleira, que passou a receber uma carga enorme de detritos até entrar em colapso.
O resultado foi uma sequência de desastres em cadeia: soterramento quase total da vila por gelo, lama e rochas; interrupção do curso do rio Lonza, com represamento da água; e formação rápida de um lago que passou a submergir as estruturas restantes.
Autoridades suíças mantiveram o vale de Lötschental em estado de alerta, já que um rompimento repentino da barreira natural formada pelos sedimentos poderia provocar novas enchentes em outras aldeias rio abaixo.
O caso de Blatten expôs um problema que preocupa cientistas em toda a cadeia dos Alpes: o degelo do permafrost enfraquece encostas inteiras e aumenta o risco de grandes deslizamentos de rocha.
Em outras localidades suíças, como Kandersteg, no cantão de Berna, autoridades também monitoram encostas instáveis associadas ao degelo do permafrost, com risco de deslizamentos capazes de ameaçar vilarejos inteiros.
Um levantamento recente estima em cerca de 2,2 milhões o número de pessoas expostas ao risco de enchentes provocadas por rompimento de lagos glaciais na região dos Alpes.
Nos Andes, o Peru já viveu a pior tragédia do tipo
Do outro lado do planeta, os Andes enfrentam um risco semelhante, com destaque para o Peru, país que concentra a maior parte das geleiras tropicais do mundo.
Estudos recentes estimam em cerca de 2,5 milhões o número de pessoas expostas a enchentes por rompimento de lagos glaciais na cordilheira andina, a maioria delas no Peru e na Bolívia.
O país já viveu o pior cenário possível. Em 1941, uma avalanche de neve e gelo caiu na Laguna Palcacocha, um lago glacial nos Andes peruanos, e provocou uma onda que rompeu a barreira natural de sedimentos que continha as águas.
O desastre matou milhares de pessoas na cidade de Huaraz. Desde então, o Peru já registrou mais de 140 eventos do tipo, e a tendência é de alta.
Assim como no Himalaia e nos Alpes, o degelo constante no país andino não apenas forma novos lagos glaciais, como também desestabiliza montanhas inteiras.
O derretimento do permafrost, que funciona como uma espécie de cola natural nas encostas, provoca um efeito em cadeia de instabilidade que pode culminar em deslizamentos, avalanches e rompimentos de barragens naturais, ameaçando vales densamente povoados.
Um problema global que exige respostas rápidas
Um estudo publicado na revista científica Nature Communications, conduzido por pesquisadores das universidades britânicas de Newcastle e Northumbria, mapeou a partir de dados de satélite as áreas de maior risco e vulnerabilidade a esse tipo de desastre em todo o planeta.
O levantamento concluiu que ao menos 15 milhões de pessoas vivem em áreas expostas ao risco de enchentes por rompimento de lagos glaciais, sendo que mais da metade desse total está concentrada em apenas quatro países: Índia, Paquistão, Peru e China.
Segundo o cálculo dos autores, cerca de 9 milhões de pessoas estão ameaçadas nas proximidades do Himalaia, 2,5 milhões nos Andes e 2,2 milhões nos Alpes.
Um dos coordenadores da pesquisa, o professor Thomas Robinson, da Escola de Terra e Meio Ambiente da Universidade de Canterbury, na Nova Zelândia, destaca que os Andes, embora recebam menos estudos científicos do que o Himalaia, apresentam potencial de impacto comparável para desastres desse tipo, o que reforça a necessidade de monitoramento mais próximo em países como Peru e Bolívia.
Cientistas defendem que sistemas de alerta antecipado mais eficientes, monitoramento constante e troca rápida de informações entre países vizinhos serão cada vez mais importantes à medida que as temperaturas sobem e as paisagens de montanha se tornam menos estáveis.
O desafio, porém, é enorme porque monitorar milhares de geleiras, encostas íngremes e vales fluviais ao longo de cordilheiras inteiras é uma tarefa extremamente difícil.
Quando desastres em cadeia começam, muitas vezes, restam apenas alguns minutos para tentar sobreviver.









