CÊDÊÁ – há 107 anos
Abdoulie Conteh (1972-), da Gâmbia
Fonte: Art Majeur
|CÊDÊÁ / Cê Dê Á / Cê Dêá / CEDA. Quatro formas braquilógicas diversas relativas à acrografia C.D.A., empregadas apenas uma vez cada. As composições estampadas no Aurora Colegial, órgão dos alunos do Colégio Anchieta (12-4-1886), dos padres jesuítas, em Nova Friburgo (RJ), são inteiramente desprezadas pelo autor, que se queixa, inclusive, de emendas e acréscimos à redação original, feitos pelos responsáveis pela publicação. Mesmo assim, achamos conveniente registrar estas composições, pois evidenciam, como serem as mais antigas, os primeiros passos de CDA, esboço válido de seu aprendizado. Fernando Py |
Crônica dos menores. Uma noite na Senegâmbia
CÊDÊÁ
Pestanejavam as primeiras estrelas, num luzi-luar incerto, enquanto a lua, a casta melancolia dos poetas, muito pálida e muito redonda e muito triste, vinha surgindo, entre loureiros e ciprestes engelhados…
Naquela noite, a lua parecia trazer consigo um encanto misterioso e admirável. Com efeito, mal o seu disco tão altamente poético se refletiu na superfície quieta do lago, este se animou, tornando-se luminoso como uma esteira ofuscante de ouro e pedrarias orientais…
Um morcego meditabundo e caduco, engrimpado no cimo altivo de um campanário, pôs-se a contemplar o céu e a recitar mentalmente as estrofes lapidadas do poeta nefelibata:
Nas águas mortas nasce um luar de prata velha,
E ao fundo dos jardins os lagos são baixelas…
Sobre um céu de cristal, laminas e fugace,
Brilha uma estrela e foge… O plenilúnio engelha.
A árvore é um mastro de ouro e as folhas são as velas…
Oh! Quanta poesia!… Mais se adensavam as sombras, mais profundo se tornava o silêncio. Uma paz imensa, infinita, caia sobre tudo, mais profundo se tornava o silêncio. Uma paz imensa, infinita, caia sobre tudo, de envolta com a noite, uma noite majestosa e solene. Toda essa beatifica, lunática, adorável quietude era de longe em longe interrompida pelos gemidos metálicos de um ou outro bezerrinho extraviado de seus Penates, ou pelo eco profundo do silêncio, que retumbava através das brenhas selváticas e dos adustos matagais…
No céu maravilhoso, onde as estrelas cintilações mágicas de rubis e berilos, apareceu uma grande ave, uma ave muito grande, que verdadeiramente não era nenhuma ave, mas um autêntico aeroplano Taube.
Sim um aeroplano… Suas hélices possantes revoluteavam doidamente, como as asas de um moinho flamengo. Era grande a sua velocidade, e notável o rumor que fazia similar talvez ao rechino estrídulo de uma cigarra colossal.
A lua envolveu-se num diáfano capote de nuvens esgarçadas. Grilos trilavam com alacridade uma valsa rodopiante de Tapyaambá…
Então vendo a possante aeronave, o desiludido morcego soltou um agudo suspiro – o primeiro suspiro de sua vida! – entristecido talvez pelo desplante com que os aviões se apossaram dos ares, que só os animais alígeros pertenciam, e tornou a soltar outro suspiro. Um minuto depois, estava hirto, inteiriçado, no telhado do velho campanário, aos raios ambarinos do luar…
[Aurora Colegial, Nova Friburgo, ano XV, n. 199, de 31-7-1919. Fonte Fundação D. João VI – Pesquisa: Cristina Silveira]








