Carlos – há 102 anos
O canto da noite, de Maria Martins (1894-1973) Campanha-MG. Compõe o jardim suspenso do Palácio Itamaraty, em Brasília
Foto: Reprodução/ Acervo Digital/Unesp
|Com seu prenome apenas, Drummond assinou diversas publicações, todas poema-em-prosa (“De um tempo de fadas…”, Para Todos…, 9-12-1922; “Por uma rua deserta…”, id., 23-12-1922; “Esperança…”, id., 29-9-1923; “Mulher…”, id., 29-9-1923; “Felicidade…”, 6-10-1923; “Pequenino corpo diabólico”. Id., 13-12-1924, etc.).
Pequenino corpo diabólico
Carlos
Pequenino corpo diabólico, como eu gosto de ti! De tuas curvas, onde vicejam flores de volúpia, de tuas linhas, onde há nostalgias de mármores velhos…
Como eu gosto de ti, pequenino corpo! Pequenino paraíso em que as minhas garras de Adão insofrido querem colher todos os pomos do desejo… sonho fugido do cérebro de um escultor desconhecido e nervoso, miniatura de deusa grega, em cujos vasos serpeia um sangue quente de mulher tropical! Deliciosa miniatura, adorável rosa do paganismo, vivendo no século dos beijos cinematográficos e dos perfumes escandalosos…
Como eu gosto do cheiro vivo e sadio de carne nova, que me irrita as narinas voluptuosas de fauno moderno! E dos teus movimentos, e das tuas atitudes, e do teu passo, dança leve de curvas, cantando e rindo sobre a negrura impassível do asfalto!
Pequenino corpo diabólico… Desejava reconstituir-te, perfeito e lindo, nesta página de adoração sensual, mas como, senão idealizando-te livre de importunos vestidos, nu, todo nu, vestido da tua própria nudez?
E como imaginar-te perturbadoramente nu, se ante essa imagem meus olhos chorariam de inquieto sofrimento: mágoa de te desejar, tristeza de te não possuir?
Prefiro antes animar em teu louvor esse jogo de palavras lascivas e inúteis, tão inúteis, como o canto que um pastor sem ovelhas tira de sua flauta melancólica…
Pequenino corpo diabólico! E se acaso escondesses uma alma, pequenina que fosse?…
Carlos – há 104 anos
De um tempo de fadas…
Carlos
Vieste de um tempo de fadas, em que todas as coisas eram azuis, e de que carregas a saudade no azul de teus grandes olhos amigos…
Há em ti uma ressureição de eras fanadas, uma lembrança de países longínquos, onde já ondulaste através de jardins silenciosos…
Pelo teu corpo anda a vibrar, evocativa e monótona, certa melodia d’antigamente, enovelando-se-te nos cabelos, descendo, como um fio d’agua, pelas linhas plácidas do teu rosto, e caindo, caindo mais, a contornar-te os seios, e a espalhar-se, a diluir-se no teu dorso…
Vejo-te num velho cenário de legenda, com vestidos longos e flutuantes, pisando rosas quase murchas, sob um céu onde há recortes tranquilos de asas quietas…
Chegaste tão tarde! Hoje, todas as fadas morreram, o mundo perdeu os seus amados fantasmas, e há, nas almas boas, uma tristeza de exílio e de venturas perdidas…
E tu, que és toda azul, toda azul, não mais terás cânticos ingênuos, adorações de crentes primitivos, olhos que te contemplam num êxtase, braços que te ofereçam punhados de flores… Anda, volta depressa, chama um táxi e manda tocar, tocar desvairadamente, para muito longe!…
(Acervo: BN – Pesquisa: Cristina Silveira)









