Carlos Drummond Andrade há 108 anos
Colégio Anchieta, em Nova Friburgo, RJ
Foto: Reprodução/ Fundação Dom João VI
| A forma, Carlos Drummond Andrade (sem a partícula de) é assinatura civil de Drummond e subscreve diversas crônicas na Aurora Colegial, órgão dos alunos do Colégio Anchieta de Nova Friburgo, em 1918-19, aparecendo mais tarde unicamente na assinatura do poema “Infância! (Revista do Brasil, 2ª. Fase, Rio, ano I, n. 7, 15-1-2-1926). Fernando Py |
As publicações assinadas por Drummond, no Aurora Colegial, Nova Friburgo, (RJ) e os respectivos pseudônimos precedidas de comentários de Fernando Py:
VIDA NOVA, Carlos Drummond Andrade, ano XIV, n. 184, 14-4-1918. Comentário sobre o ano letivo. É a mais antiga peça de CDA impressa em letra de forma. Precede de um mês o poema-em-prosa “Onda”, tido como a mais remota produção edita de Drummond. As composições estampadas na Aurora Colegial, órgão dos alunos do Colégio Anchieta, dos padres jesuítas, em Nova Friburgo, são inteiramente desprezadas pelo autor, que se queixa, inclusive, de emendas e acréscimos alheios à redação original, feitos pelos responsáveis pela publicação. Mesmo assim, achamos conveniente registrar estas composições, pois evidenciam, como serem as mais antigas, os primeiros passos de CDA, esboço valido de seu aprendizado.
O CENTENÁRIO, C.D., ano XIV, n. 187, 7-6-1918. A propósito das comemorações do centenário e Nova Friburgo. Pequeno histórico da cidade e de seus fundadores. O estilo é excessivamente precioso, denunciando possível intromissão de outrem na redação;
HISTÓRIA DO PINTO PELADO, Carlos Drummond Andrade, ano XV, n. 195, 25-5-1919;
EXTRAORDINÁRIA VISITA, Carlos Drummond Andrade, ano XV, n. 196, 10-6-1919. Adaptação em prosa, com intenções humorísticas, do poema The Raven (O Corvo) de Poe;
UMA NOITE NA SENEGÂMBIA, CÊDÊÁ, ano XV, n. 199, 31-7-1919;
UMA DATA, Carlos Drummond Andrade, ano XV, n. 200, 17-8-1919. Escrito comemorativo do n. 200 do jornal;
X É UM RAPAZ, Carlos Drummond Andrade, ano XV, n.201, 31-8-1919. Crítica, sob disfarce, ao suposto jornal Alvorada do Internato;
PRIMAVERA, Carlos Drummond Andrade, ano XV, n. 202, 18-9-1919. A propósito do começo da primavera. Contém referência a Emerson e cita verso de Camões. “Não sabe o tempo ter firmeza em nada!” É talvez a página mais “emendada” por outras pessoas, conforme se vê numa passagem do conto “Um escritor nasce e morre”, de evidente indicação autobiográficas;
CALOR, EXAMES E O NARIZ DE CLEOPATRA, Carlos Drummond Andrade, ano XV, n. 203, 30-9-1919. A propósito de inesperados dias de muito calor em pleno mês de setembro. Refere-se à famosa frase de Pascal sobre o nariz de Cleópatra, atribuindo-a a Saint-Beuve;
CONVERSA FIADA, Carlos Drummond Andrade, ano XV, n. 204, 19-10-1919. Conversa imaginária com um vaga-lume, precedida de exórdio sobre o jornalismo, colaboradores e falta de assunto. Transcreve dois versos do soneto “Círculo Vicioso” de Machado de Assis.
Repr.: Vida Nova, na Vila de Utopia, 27-10-2017; X é um rapaz, na Vila de Utopia-Itabira, 9-11-2017; extraordinária visita, na Vila de Utopia, Itabira, em 7-11-2017; História do Pinto Pelado, na Vila de Utopia, Itabira, em 1-11-2017.
Vida Nova

Cá estamos, neste grande colégio, de novo entregues ao estudo, com a alma povoada de esperanças mirificas e sonhos maravilhosos. Com a emoção natural que nos desperta o raiar de uma vida nova, com a saudade que nos infunde a distância, nós nos entregamos aos livros. Começaram as aulas. De toda a parte dizem: é preciso estudar. Pois estudemos! É argamassado com o heroísmo do nosso sacrifício e a força da nossa vontade que o futuro há de vir brilhante, como num conto de fadas, espalhando a felicidade. Estudar! É de que precisamos, para viver, e é o que fazemos aqui. Decerto, grandes tristezas nos avassalam, pois deixamos os nossos saudosos lares; mas grandes alegrias nos prenderão, no fim do ano letivo, ao voltarmos à terra natal, risonhos, felizes, com o nosso esforço premiado, com a nossa abnegação recompensada, com a consciência de ter cumprido o nosso dever. Animando-nos, fortalecendo-nos, a recompensa há de vir, para nos iluminar com sua luz de aurora. Imersos no estudo, gozaremos serenas alegrias, tendo a impressão de que estamos num universo de luz, onde palpitam luzeiros mágicos e fosforescências astrais; onde sóis radiosos fulguram e brilham estrelas mágicas; enfim, teremos a impressão de que estamos num reino encantado, que só a mão onipresente de Deus poderia criar. É belo o estudo! Parece aquela árvore do Jardim Hespérides, que dava frutos benção de Deus, protetor dos nossos trabalhos, das nossas esperanças, da nossa vida. E que sempre, sempre, estenda sobre nós suas brancas asas de anjo da Esperança, puro e carinhoso, fazendo desabrochar em nós as rosas do sonho, nesta vida nova.
Depois, ao voltarmos, lá no fim do ano, para o nosso estremecido torrão natal, que alegrias puras sentiremos, que contentamento ideal!…
Só de o pensar, minh’alma sente a emoção de um gozo inenarrável e divino, a emoção de um prazer extraordinário, e se desfaz em ondas de alegria.
Pesquisa: Cristina Silveira









