Bella Gonçalves aciona TCE-MG e pede investigação sobre favorecimento do governo Zema ao Banco Master

A Tamisa firmou TAC com a Semad em maio de 2022, mesmo mês em que o tombamento definitivo da Serra do Curral foi adiado no Copam e no Iepha, ainda sem deliberação final por pressão das mineradoras

Foto: Bernardo Dias/
Ascom/CMBH

Representação inclui áudio em que Nikolas Ferreira solicita a Daniel Vorcaro ajuda para liberar ativo minerário ligado a barragem de alto risco em Ouro Preto; pedido de apuração envolve suspeita de influência do banqueiro na administração estadual

A deputada estadual Bella Gonçalves (PT), presidenta da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, acionou o Tribunal de Contas do Estado (TCE-MG) para investigar possíveis irregularidades do governo Romeu Zema (Novo) no favorecimento ao Banco Master e a empresas ligadas ao banqueiro Daniel Vorcaro.

A representação também leva ao Tribunal o áudio em que o deputado federal Nikolas Ferreira (PL) pede a Vorcaro ajuda para “destravar” um ativo minerário em Ouro Preto, associado a uma das barragens de rejeitos mais perigosas do país.

Bella fundamenta o pedido em informações da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que identificou no esquema do Master um núcleo voltado à corrupção institucional. Para ela, os fatos reunidos precisam ser analisados de forma integrada, de modo que o TCE avalie se há “infiltração coordenada, sistemática e corrupta do poder econômico na estrutura administrativa do Estado”.

O Tribunal já apura outros episódios relacionados ao Banco Master, como suspeitas de benefícios fiscais a empresas da família Vorcaro e contratos da Cemig SIM com empresas do grupo. A nova representação amplia o escopo da investigação ao incluir fatos ainda não examinados, aumentando a pressão por respostas e medidas concretas.

Bella Gonçalves protocola representação no TCE-NG que acusa o governo Zema de favorecer empresas associadas ao Banco Master (Foto: Alexandre Netto/ALMG)
O áudio de Nikolas e o negócio milionário em Ouro Preto

Reportagens revelaram que, em 30 de março de 2025, Nikolas Ferreira enviou áudios a Vorcaro pedindo ajuda para liberar um ativo de minério em favor de seu advogado, amigo e ex-assessor Thiago Rodrigues de Faria. Nas mensagens, o próprio banqueiro afirma ter custeado voos do deputado, que utilizou aeronave ligada ao Master durante a campanha de 2022.

A representação detalha o negócio por trás do pedido. Em janeiro de 2025, o escritório de Faria firmou contrato para intermediar a venda ou arrendamento dos direitos minerários da Topázio Imperial, em Ouro Preto, com expectativa de êxito entre US$ 30 milhões e US$ 45 milhões e remuneração de cerca de 25% ao advogado. O acordo foi firmado em parceria com a Gmais Ambiental, apontada pela Polícia Federal como empresa de fachada ligada a esquema de venda de licenças ambientais.

A lavra está vinculada à Barragem Água Fria, classificada pelo Ministério Público Federal como uma das sete estruturas de rejeitos com maior risco de rompimento no país, construída pelo mesmo método das barragens de Mariana e Brumadinho.

Bella solicita que o TCE-MG mapeie os processos de licenciamento na Semad, Feam e IEF e investigue a atuação de agentes públicos envolvidos.

Indícios de influência de Vorcaro em decisões do governo Zema

A deputada reúne na representação episódios que, segundo ela, demonstram a presença de interesses ligados ao Banco Master em diferentes áreas da administração estadual.

Um deles é a ampliação da margem de consignação dos servidores estaduais, sancionada por Romeu Zema em 2021 e regulamentada em 2022, exclusivamente para o cartão benefício consignado. A modalidade é operada pelo Banco Master, por meio do Credcesta.

Meses depois, às vésperas da campanha de reeleição, Henrique Vorcaro, pai de Daniel, doou R$ 1 milhão ao partido Novo. Ele foi preso em maio na Operação Compliance Zero.

Outro ponto é a atuação da mineradora Tamisa, que até setembro de 2025 tinha como acionista majoritário um fundo controlado pelo Banco Master, além de empresa administrada por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro.

No governo Zema, os Termos de Ajustamento de Conduta no setor minerário mais que triplicaram em relação à gestão anterior. A Tamisa firmou TAC com a Semad em maio de 2022, mesmo mês em que o tombamento definitivo da Serra do Curral foi adiado.

A deputada também cita a retomada da Mina de Jangada, em Brumadinho, pela Itaminas, empresa da qual Vorcaro foi sócio até setembro de 2025.

A retomada ocorreu por meio de “transferência automática” de licença, sem novo EIA/Rima ou audiências públicas, afetando a segurança hídrica de cerca de 200 famílias da comunidade de Jangada.

A representação menciona ainda reportagens sobre ONGs de fachada ligadas ao grupo para influenciar a eleição do Conselho Estadual de Política Ambiental de Minas Gerais (Copam).

Bella cobra medidas cautelares e responsabilização

A deputada solicita que o TCE-MG instaure procedimentos de fiscalização, auditoria e apuração de responsabilidade de agentes públicos e privados, avalie cada caso e o conjunto deles e adote medidas cautelares para impedir possíveis danos ao patrimônio público.

Bella afirma que “o escândalo do Banco Master não é só um rombo no sistema financeiro”, destacando que a Polícia Federal aponta a existência de um núcleo voltado a corromper o Estado.

Ela afirma que as “digitais de Vorcaro” aparecem em diferentes áreas da administração pública e que a nova representação busca garantir que a investigação avance e resulte em medidas concretas.

A deputada conclui lembrando as 272 vítimas do rompimento criminoso de barragem em Brumadinho e afirmando que não aceitará que licenças ambientais “virem moeda de troca entre banqueiro investigado e político amigo”.

 

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