As trapalhadas do filho 01 que podem levar Lula a vencer no primeiro turno

Foto: Roberto Jayme/
TSE

O colapso moral da extrema direita, a virada entre evangélicos e católicos indecisos e a correção na “boca da urna” das pesquisas pressionadas pela realidade

Valdecir Diniz Oliveira*

É interessante observar que, na medida em que se aproximam as eleições, os indefectíveis institutos de pesquisas de opinião, a grande maioria financiadas por grandes grupos econômicos, aos poucos vão aproximando suas projeções eleitorais da realidade. Esse movimento não é novo.

Já no início dos anos 1980, quando surgiram as primeiras pesquisas modernas no Brasil, já era prática recorrente de manipular dados “dentro da margem de erro”, quando subtraia intenção de voto do candidato que as elites não desejavam ver eleito e inflava-se artificialmente o desempenho do candidato preferido, invariavelmente da direita. Era a manipulação politicamente orientada, com o manjado truque da margem de erro usado para moldar percepções e influenciar o voto do incauto eleitor.

As pesquisas eleitorais, tal como conhecemos hoje, surgiram com a redemocratização do país e se consolidaram a partir das eleições de 1989, quando o poder midiático dos grandes conglomerados, os mesmos que financiavam os institutos, passou a influenciar diretamente a narrativa política nacional. Foi exatamente nesse período que tiveram início as manipulações das pesquisas, em um país que ainda aprendia a viver em uma democracia depois de duas décadas de ditadura.

Agora, mais de três décadas depois, o velho padrão volta a se repetir. Basta observar: à medida que o processo eleitoral avança e o dia da votação se aproxima, os institutos começam a ajustar seus números à realidade que se impõe nas ruas, nos templos e nas redes. Não por virtudes das campanhas, mas pela necessidade de não serem desmentidos pelas urnas, o que comprometeria a credibilidade que ainda tentam preservar.

Nesta quinta-feira (1º), novas rodadas de pesquisas já começam a aparecer. E nelas, por certo, Lula tende a ampliar sua vantagem, não por méritos exclusivos de sua campanha, que por um bom período ficou à reboque de pautas da direita, como a tentativa insistente de imputar crimes nunca comprovados ao seu filho mais velho, Fábio Luís Lula da Silva, que a grande imprensa apelidou de Lulinha, mas por sucessivas trapalhadas e atitudes nada republicanos de seu principal adversário começar a surgir.

A perda de eleitores indecisos, somada ao fim da manipulação dentro da “margem de erro”, os números reais das intenções de voto finalmente começam a se refletir nas pesquisas eleitorais. A disputa nacional, marcada por contradições morais, denúncias internas, investigações e escândalos sucessivos envolvendo o candidato da extrema direita, pressiona os institutos a corrigirem suas projeções para não serem desmentidos pelas urnas.

A erosão da narrativa moralista e o acúmulo de contradições

Por semanas, o candidato da extrema direita tentou sustentar uma imagem de moralidade rígida, enquanto surfava em acusações infundadas contra Lula e sua família. Histórias fantasiosas sobre uma mansão de luxo na Espanha, empresas inexistentes e supostos escândalos envolvendo Fábio Luís circularam com força, apesar de não encontrarem qualquer respaldo documental.

Agora, porém, a velha tática de criar monstros imaginários para alimentar a militância mais radical começou a perder eficácia – e não apenas por desgaste externo, mas por implosão interna.

As últimas revelações vieram com o chamado “fogo amigo”, protagonizado por Marcelo Luiz, ex-amigo íntimo e ex-sócio do candidato Flávio Bolsonaro (PL) na formidável e rentável loja de chocolates que se tornou símbolo de riqueza súbita e movimentações financeiras pouco explicadas.

Rompido com o antigo parceiro, Marcelo passou a relatar publicamente episódios que desmontam a narrativa de pureza moral do candidato da extrema direita. Em entrevistas, lives e declarações espontâneas, ele descreve o uso sistemático de dinheiro vivo na loja, pressões para operações financeiras sem registro, viagens internacionais custeadas por recursos não declarados, festas privadas com orgias sexuais incompatíveis com o discurso religioso do candidato, além da existência de um esquema de blindagem destinado a ocultar patrimônio real.

As denúncias ganharam maior repercussão justamente porque vêm de alguém que conhecia o candidato por dentro, não como adversário político, mas como parceiro de negócios. A credibilidade do denunciante, somada ao teor das revelações, reacende memórias de outros momentos da política brasileira em que o “fogo amigo” foi fatal.

O caso mais emblemático é o de Pedro Collor de Mello, irmão do então presidente Fernando Collor, cuja entrevista explosiva à revista Veja, em 1992, revelou o esquema de corrupção comandado por PC Farias e detonou a crise que culminaria no impeachment. Pedro Collor não era opositor, não era inimigo político, não era militante de outro campo ideológico: era família. E foi justamente essa proximidade que deu peso devastador às suas palavras.

O paralelo é inevitável. Assim como Pedro Collor expôs o que via dentro da casa e dentro do governo, Marcelo Luiz expõe o que via dentro da incrível loja de chocolates e dentro da vida privada do candidato da extrema direita.

Ele relata o uso sistemático de dinheiro vivo, pressões para operações financeiras sem registro, viagens internacionais pagas com recursos não declarados, festas privadas incompatíveis com o discurso religioso do candidato e a existência de um esquema de blindagem destinado a ocultar patrimônio real.

São denúncias que não vêm de adversários, mas de quem dividiu negócios, confiança e convivência — e que, por isso mesmo, não podem ser descartadas como invenção da esquerda ou perseguição judicial.

A repetição de padrões com aliados rompendo, denúncias surgindo, investigações avançando, desgasta ainda mais a imagem já desgastada de quem tenta sustentar uma narrativa de pureza moral.

E, diferentemente das acusações fabricadas contra Lula, essas denúncias internas têm origem no círculo mais próximo do candidato da extrema direita, o que torna impossível enquadrá-las como “perseguição” ou “armação”.

É assim que o fogo amigo, quando vem de dentro, é sempre mais letal. E a história política brasileira já mostrou que, quando o círculo íntimo rompe o silêncio, a implosão costuma ser inevitável.

Orgias, dinheiro vivo e a implosão da imagem de “homem de família”

A revelação de episódios de orgias sexuais, somada às investigações sobre movimentações financeiras suspeitas, têm atingido sobretudo a base mais sensível do candidato da extrema direita: os evangélicos conservadores.

Por anos, ele se apresentou como defensor da família tradicional e guardião de valores religiosos. A contradição entre discurso e prática tornou-se impossível de ignorar. Assim como no caso do dinheiro vivo do “vovô do chocolate”, a justificativa de que “é vida privada” não convenceu. Para muitos eleitores religiosos, a vida privada importa – e muito – quando o candidato se apresenta como modelo moral.

Entre católicos indecisos, o impacto também é significativo. A sucessão de escândalos envolvendo o candidato da extrema direita, somada ao discurso agressivo contra símbolos religiosos como Nossa Senhora Aparecida, ainda que velado em linguagem de “apito de cachorro”, tem gerado desconforto e protestos públicos.

Bispos de várias dioceses, alguns deles tradicionalmente discretos em assuntos eleitorais, passaram a se manifestar abertamente contra a instrumentalização da fé e contra o uso político de expressões religiosas destinadas a dividir o país. Houve notas, homilias e pronunciamentos alertando para o risco de transformar o cristianismo em arma eleitoral, algo que a Igreja Católica historicamente rejeita.

O episódio mais emblemático ocorreu quando o candidato da extrema direita afirmou que, se eleito, decretaria que “o Brasil é do Senhor Jesus”. A frase, celebrada por setores mais radicalizados, foi interpretada por grande parte da Igreja Católica como uma ameaça direta ao Estado laico.

Bispos lembraram que a Constituição não permite a imposição de uma religião oficial e que a fé não pode ser usada para justificar projetos de poder, como o de um Estado Teocrático.

A Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros (CNBB), ao reiterar a defesa da laicidade e da democracia, foi imediatamente acusada pelo candidato extremista e por seus apoiadores de estar “fazendo campanha para Lula”, numa tentativa de deslegitimar a instituição e intimidar o clero.

O entrevero ganhou força nas redes sociais, com ataques a padres e bispos que se posicionaram contra o uso político da fé, revelando o grau de tensão entre o discurso religioso manipulado pela extrema direita e a doutrina oficial da Igreja Católica.

Esse conflito tem gerado perda de intenção de votos entre católicos que ainda estavam indecisos e passaram a ver com desconfiança a mistura entre religião e política promovida pelo candidato da extrema direita.

A defesa da laicidade, tradicionalmente um tema técnico e pouco mobilizador, tornou-se central para setores católicos que enxergam na radicalização religiosa um risco real de ruptura institucional.

A promessa de decretar o país como propriedade de uma única fé, somada ao ataque simbólico à figura de Nossa Senhora Aparecida, acendeu alertas entre bispos, teólogos e leigos. E reacendeu temores de que um eventual governo da extrema direita pudesse avançar sobre direitos civis, minorias religiosas e sobre a própria Constituição Brasileira.

Manipulações, distorções e o caso manipulado sobre pedofilia

Outro episódio que contribuiu para mostrar com a extrema direita muda a realidade dos fatos para tentar imputar crimes ao adversário, ocorreu com a manipulação da fala de Lula sobre o toque de próstata. Ao explicar que homens têm preconceito com o exame, enquanto meninas são acostumadas desde cedo a consultas ginecológicas, Lula fez uma observação didática sobre saúde preventiva.

Entretanto a fala foi distorcida pelo deputado Nikolas Ferreira, que insinuou apologia à pedofilia. A manipulação viralizou, mas acabou retirada após decisão judicial.

O episódio reforçou a percepção de que a campanha da extrema direita opera sistematicamente com desinformação, criando escândalos artificiais para mobilizar sua base mais radicalizada.

O acerto estratégico de Lula ao não ir ao debate da Globo

A decisão de Lula de não comparecer ao debate da Globo nesta quinta-feira foi interpretada por muitos analistas como um movimento estratégico preciso. É que o ambiente na Vênus Platinada promete ser hostil, com a emissora preparando um cenário que favoreceria a radicalização e o confronto direto com o presidente que busca a reeleição.

A ausência de Lula impede que ele fosse jogado às feras da extrema direita, que buscam desesperadamente um momento de viralização para tentar reverter o desgaste moral e político de quem, em nenhum momento, apresentou propostas de governo.

A manipulação ficou evidente desde a formação da bancada de candidatos. À semelhança do que ocorreu no fatídico debate de 1989, cuja edição manipulada pela Globo favoreceu Fernando Collor e se tornou um marco negativo da história da emissora, dessa vez a manipulação ocorre com a exclusão do debate do único candidato, fora Lula, que poderia confrontar diretamente Flávio Bolsonaro: Renan Santos, do partido Missão.

Renan, que tem feito críticas contundentes ao clã Bolsonaro e conhece bastidores que a emissora prefere não expor em rede nacional, tornou-se um ponto sensível para a campanha da extrema direita – e por certo, deve apresentar novas denúncias contra o filho 01 de Bolsonaro.

A justificativa oficial da Globo foi de que partido Missão possui apenas um deputado federal, abaixo do mínimo de cinco exigido pela legislação para participação obrigatória. No entanto, Renan Santos afirma que a exclusão foi política, não técnica.

Em entrevistas, vídeos e declarações públicas, ele acusa a emissora de censura, de manipulação deliberada e de ter montado um debate “sob medida” para proteger Flávio Bolsonaro de questionamentos que poderiam implodir sua narrativa.

Renan diz que sua presença no debate seria “devastadora” para o candidato da extrema direita, porque ele poderia revelar contradições, incoerências e episódios internos que o público desconhece. E que, segundo ele, a Globo não teria interesse em permitir que viessem à tona.

A exclusão de Renan Santos foi interpretada por analistas independentes como uma tentativa clara de blindar o candidato da extrema direita de críticas internas, justamente aquelas que têm maior potencial de dano.

Como se vê, mais uma vez, o “fogo amigo”, quando vem de dentro, é sempre mais letal. Ao impedir Renan Santos de participar, a Globo não apenas molda o debate, mas também evita que o público testemunhe um possível momento de ruptura que oimpace negativamente a candidatura bolsonarista.

A decisão de Lula de não participar, portanto, não apenas evita uma emboscada, mas também expõe a tentativa da emissora de controlar o ambiente político, repetindo velhas práticas que marcaram negativamente sua história.

O debate, sem Lula e sem Renan Santos, tornou-se um palco previsível, cuidadosamente montado para evitar riscos ao candidato da extrema direita, o que por si só, já diz muito sobre o momento político que o país atravessa.

A live que pode esvaziar a Vênus Platinada

Enquanto isso, Lula convidou seus apoiadores e o público em geral a acompanharem sua participação no Flow Podcast, nesta quinta-feira, às 20h45, em transmissão ao vivo pelo YouTube. O link oficial é: https://www.youtube.com/c/flowpodcast

O gesto, aparentemente simples, desloca parte da audiência da Vênus Platinada para uma plataforma onde Lula controla o ambiente, o tom e a narrativa – e poderá rebater ao vivo as distorções e acusações de seus adversários na Globo.

Ao oferecer um conteúdo alternativo, direto, espontâneo e sem mediação editorial, Lula não apenas evita o confronto armado pela emissora, mas também cria um contraponto que pode reduzir o alcance do “debate” entre os candidatos da direita.

Em tempos de múltiplas telas, ao ocupar esse espaço com antecedência, Lula antecipa o debate e neutraliza parte da estratégia de enquadramento midiático da Vênus Platinada.

*Valdecir Diniz Oliveira é cientista político, jornalista e historiador.

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