Artur Cajazeiras – há 100 anos
Inauguração do Centro de Artesanato de Itabira, em 1987
Foto: Eduardo Cruz
|Este pseudônimo assina unicamente o poema-em-prosa “Sonho de um dia de calor” (Diário de Minas, 9-12-1926, reproduzido posteriormente no Para Todos…, 30-7-1927), assinado Carlos Drummond de Andrade e é dedicado Vinício Cavalcanti. Fernando Py|
Sonho de um dia de calor
Artur Cajazeiras
“Muitíssimo bem! Bem-íssimo!!” tonitroou o coro possesso. Ninguém se entendia mais. Um menino gordo e de bigodes inexplicáveis deu um pulo do caradura e foi cair nos braços de uma gorda matrona de sexo inseguro, que o recebeu ternamente com beijocas. “Olha um salame voando, vovó!” exclamou o gordinho. “Cala a boca, Jujuba, não é salame não, é um urubu” respondeu a boa da velha com uma voz de barítono barato.
– Não é.
– É.
– Não é.
– Vamos tirar a sorte. É urubu ou salame?
(Vozes discordantes de passageiros.)
O dançarino da capota do bonde, para resolver a contenda, contou de 1 até 3, e depois de 15 a 24, benzeu-se com a mão sinistra, assou o nariz com a destra e puxou de uma pistola Mauser descarregada, propondo-se a matar o mistério volante.
“Não mate que ele é minha mascote!” berrou, implorante, uma voz feminina. Porém um gramático astucioso que se lembrara de estar presente à festa obtemperou, cortesmente, que semelhante afirmação não passava de uma hipótese gratuita, uma vez que ele, o bicho, o fenômeno, e masculino, enquanto ela, a mascote, é feminina. E sacudia com o queixo murmurando: “impossível.”
Nisto uma chuva copiosa começou a cair transversalmente, e um camelô também presente começou a anunciar a melhor marca de guarda-chuvas. “São estrangeiros ou nacionais? Interrogou o gramático todo molhado. “Depende, foi a resposta. A mão de obra é estrangeira, porém o material é nacional”.
“Ah, então são guarda-chuvas homófonos”. “Não admito que o senhor insulte os meus guarda-chuvas”, respostou o outro indignado. “Não precisa comprar, mas tem que levar na cabeça”, e quebrou um na dita.
O cavalheiro do “Charleston”, cada vez mais excitado, percebeu que lhe estavam nascendo asas nas costas. “Viva o Sarmento da Beira! garganteou a multidão entusiasmada. Ovacionado, o cidadão elevou-se no espaço. Voou. Revoou. Ondulou. Looping-lhe – Loopingou. Sacadurou. Depinedou. Francou. Rebentou:
– Pum!
Nisto vinha chegando o crepúsculo de sobrecasaca, mancando.
– Estes futuristas são umas bestas! falou o motorneiro p’ro condutor. “É verdade, concordou o outro. Toca o bonde”. O outro tocou o bonde.
[Fonte: Diário de Minas, 9-12-1926, reproduzido posteriormente no Para Todos…, 30-7-1927 – Pesquisa: Cristina Silveira]








